SONETO DO CÃO PASTOR

Meus olhos, cão pastor, lambem teu flanco

Á luz alpestre de uma estrela guia.

Colar de guizo, meu amor te açula

Tange teus pés, terneiros lado a lado

Ao secreto redil, casta fazenda

De paina adormecida e pau-marfim.

Minha mão, cauda inquieta, se te afaga

Entre a vegetação do linho novo,

É porque és ovelha, eu, cão pastor

De teu corpo nascente, gado claro

Criado no altiplano onde vagueias

E pasces, entre fios e altos pássaros

Sob a guarda do entregue cão pastor

Amoroso na lei de sua ovelha.

TEORIA

Campo de prova, rubra aciaria

o soneto é metal em usufruto.

Aro do só, dormida simetria,

rosoblonga matriz, corpo soluto,

não há como fugir à dessangria

de gomos por ligar. País enxuto,

aparente melão, sapota fria,

sabe o soneto a rolha de bismuto.

Reprensado em lugar, no decilitro

comporta-se o soneto como arguto

plantel de alternativa: mudo espia

dirá do seu sabor o travo citro,

do seu casto labor, vã iguaria;

do seu peso infiel, inoculo fruto.

LAVRA

Não há (ou há?) fugir à chã teoria:

o soneto é só fruto fruto fruto.

Chama-se jambo ou chama-se Maria

vitamina (C) urare ou escorbuto,

não há como fugir à algaravia

de ions por ordenar. Chão devoluto

( onde a lavra fumiga a larvaria)

cresce o soneto e é fruto fruto fruto .

Seara pós-colhida, resoluto

cantor-pastor manada rolará

pela estepe do mar, curral enxuto

onde nimbo mulher ovelha fruto

vinhedo e touro em aspas mugirá

maduro de alegria ou todo em luto.