ARPEJO

Lírio janela fonte evocação

lágrima orvalho pérola tristeza

círio votivo              luminária acessa

cânfora medo sino solidão.

Noite nevoeiro longe voz perdão

delírio casa copo vinho mesa

coito lâmina sol       nua beleza

vampiro leite beijo furacão.

Luz saudade cortina véu sepulto

palidez sempre                 sofrimento adulto

hora silêncio sombra permanência.

Agora aqui completamente vulto

calidez morta                    sentimento oculto

cruz segredo destino paz ciência.

MARIA HELENA

Debruço-me à memória e dela extraio

a linda portuguesa (pele e seios

ensangüentando de sua alvura a noite),

primeira fêmea na sequencia inglória

de amores e vaidade…

Seu carinho

recordo, a voz menina, os gestos langues

envolvendo meu  corpo num casulo

de braços, pernas, beijos e saliva.

Com giros movimentos enredou-me

na teia de seu ventre, água primeva,

e a boca me ofertava em fúria e fome,

tatuada em cristal e roxa ceva.

Recordo em sonho e sombra seus cabelos,

as curvas e os vermelhos entreabertos,

em meus ombros a lâmina dos dentres.

Recordo…mas o rosto já não lembro,

sumido entre as delícias de um novembro.

COMPOSIÇÃO

O samba –canção há tanto tempo ouvido

ressurge no rádio, desperta a adolescência

e entre notas nostálgicas transporta

meu hoje ao ontem, e de fininho invade

essa camada de sepultos devaneios

e concede a esse eu maduro

toda a palpitação de estranho outrora,

impõe-se a mim, compõe-me o ser contraditório,

e essa melodia é toda uma experiência

que carrego comigo ou me reboca

vida a fora, e uma própria maneira de senti-la

em sucessiva evocações sonoras

ou no silêncio em que fruo as notas idas.

(Como esses dias ressurgidos

com seu lastro de vida a desfazer-se

e esse íntimo carimbo que registra

para ninguém o que sou, serei e fui.)