CONTRAPOEMA AO  HOMEM DO MEU TEMPO

Por Nina Rizzi

o homem do meu tempo me maltrata

sei que não sei dar carinho a quem arqueja e freme
há nódoas entre meus dedos, ora caio às fórmulas
como seu soubesse o que devia dizer e foi maldito.

o homem do meu tempo agoniza

e não lhe adianta minha barroca catedral
se lhe tenho de fazer repetir o pater nostrum, assim, em latim.
talvez do vinho chileno, apareceram varizes em meus joelhos
cobertas por ásperas elevações, como brotoejas brancas, sem dor ou comichão
talvez ainda das culpas que não carrego, a moral que renego.

o homem do meu tempo chantegeia e sofre

- minha mãe só me dava carinho em convalescência.
eu posso ficar nua e lhe mostrar cada uma das marcas de minhas surras
e se não as guarda meu corpo, carrego na memória.
eu não sou boa, amo o túlio canalha da poeta e sacerdotisa como se fosse redenção.

o homem do meu tempo em se punir, manso, me estrangula e ri

- tem medo de mim.
quisera uma vez mais ser mulher, sagrada prostituta, quisera
e eu não, nada de puta.

o homem do meu tempo saca o rivotril

me mete pânico e encharca o corpo cansado, as mãos de perdidas digitais
as tais marcas de senilidade que me são a mais pura ternura.
foi-se embora o machão, ele é a colombiana que chora por gozar
sofre de ansiedade antecipatória o homem que lhe abandona
não, ele não teve um ataque, um treco, enfarto

o homem do meu tempo se matou quando descobriu a vida.
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