NO CALOR DA BATALHA

 

Cefas Carvalho

Se a batalha se mostra lenta e bruta
E a vitória tão distante quanto o céu
Cabe o silêncio diante do escarcéu
E persistir quando nos cabe a luta

Se o inimigo invade o teu quartel
Se és forçado a ingerir cicuta
Não deixe que nenhum filho da puta
Te transforme em carrasco ou réu

É no calor da guerra tão renhida
Que surge o homem forte que devias
Ser. Que se perde em mornos dias…

Eis que a batalha não está perdida…
Defenda teus castelos de areia
Enquanto osangue corre em tuas veias
Esqueça mimos, galanteios,
adornos, mimoseios
Esqueça mesuras, fricotes
badulaques,decotes
Esqueça carteiras, gravatas
cintos, bravatas
Esqueça o camafeu,
O afago, o bombom
Presenteie-me, amor meu
Com um Saramago,
Ou um Drummond1

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quarteto-ode (quase infantil) ao amor em terras lusitanas

 

Cefas Carvalho

Amar sem mágoas, ao som
Das águas do Tejo
Ouvindo fados…
Fadados a fazer amor…

Suores de vinho do Porto
Fadigado, morto
De amor, de desejo…
Tudo impresso no azulejo…

Navegar em um oceano
De saliva… Lábios
Em carne viva, na Alfama…
(Como quem ama…)

Amores carnais
Em Estoril, em Cascais…
No Chiado, o último fado!
Do amor que morre em paz…

Postado

Uma mulher com cabelos de fogo

 

Cefas Carvalho

Contava eu dezenove anos, se muito, mergulhado naquela idade contraditória quando às vezes acordamos sentindo que podemos mudar o mundo e no dia seguinte, dormimos como se fôssemos estrangeiros em nossa própria casa. No dia em questão, tratava-se de uma manhã ensolerada de quarta-feira daquelas que eu acreditava com todas as minhas forças que poderia incendiar o mundo. Havia conseguido um emprego em uma agência de publicidade dias antes, estava cursando filosofia na Universidade Federal e plenajando sair de casa (por mais que amasse meus pais, eles representavam o “sistema” e eu estava na fase ingênua e necessária de combater esse “sistema”) de maneira que caminhava na praça central com uma despreocupação arrogante e um sorriso de conquistador de impérios em meu rosto.
Foi quando parei para olhar a estátua central da praça que a vi, sentada em um banquinho no meio da praça, ao lado da fonte. Em principio chamou minha atenção porque tinha imensos cabelos vermelhos, quase que de fogo. Depois percebi seus muitos outros encantos; olhos imensos e melancólicos entre o preto e o castanho, um meio sorriso que poderia tanto felicidade como sofrimento.
Olhou-me de repente e me envergonheii de ter parado para observá-la. Decidi continuar o caminho, quando surpreendentemente ela me chamou.
- Ei, você tem um cigarro?
- Não fumo, lamento…
- Eu também não. Mas, agora, estou louca por um cigarro.
- Entendo…
- Não acontece com você, de querer fumar de repente, como se seus problemas fossem embora junto com a fumaça?…
- Acontece sim… – menti.
- Posso pedir um favor.
- Claro
- Me faça companhia durante meia hora. Somente trinta minutos.
Assustei-me com o pedido. Encantado por ela como eu estava, claro que ficaria com ela, trinta minutos, duas horas, o dia inteiro. Mas, não podia ignorar o insólito da situação. Lindas mulheres com cabelos de fogo não sentavam em bancos de praça e convidavam estranhos para ficar meia hora com elas.
Mas, sentei-me ao seu lado, com um pouco de receio, confesso. Ela pareceu ter lido meus pensamentos, pois sorriu de verdade e passou a mão em meu cabelo.
- Não se preocupe. Não sou uma louca, nem uma aventureira e nem vou te fazer mal algum. Quero apenas que fique ao meu lado durante o tempo em que te falei…
Ainda desnorteado, concordei. Tentei fazer algumas perguntas (nome, idade, onde morava) mas, com elegância e algum humor, ela conseguiu não responder nenhuma delas e decidiu contar uma história. Sobre uma menina que fugiu de casa e acabou em um lugar como uma floresta, onde teve de fugir de seres bestiais, como dragões, e espíritos maus. Uma história sem pé nem cabeça, mas contada com tanta suavidade que não teria como não me encantar.
- Agora é sua vez de contar uma história.
- Eu? Não sei contar histórias…
- Bobagem, todo mundo sabe contar histórias. Vamos lá, por favor.
Com algum custo, consegui me lembrar de um conto russo que havia lido havia tempos, sobre um senhor e um servo que viajavam na neve de trenó e percebiam que a relação de poderes se invertia com os problemas e privações. Embora imperfeita, ela adorou a história e me pediu outra. Respondo que só contaria uma nova história se ela dissesse seu nome.
- Não vale impor condições… – sorriu, melancolicamente – Mas, já que você quer assim… me chame de Moira.
- Moira… – repeti, inicindo uma nova história, desta vez bem humorada, sobre um homem pobre que pensa ter ganhado na loteria e imagina o que faria com a fortura a receber. Claro que ele não ganhou e a história termina com sua decepção e consciência de sua triste realidade. Moira riu e contou mais uma história, desta vez sobre um amor impossível na idade média. Eu já estava me acostumando com aquela troca de histórias e me perguntava sobre como manter aquele momento indefinidamente quando ela olhou para o relógio na praça. Havia passado a meia hora.
- Obrigado pela companhia, mas tenho que ir.
- Mas, não podemos ficar mais um pouco?… – pedi, quase implorando.
- Realmente tenho que ir – sorriu – Obrigada por me suportar neste tempo…
Preparei-me para dizer que, pelo contrário, fora a meia hora mais sublime da minha vida, mas tive medo de ser piegas e estragar tudo. Limitei a me perguntar se nos veríamos novamente.
- Quem sabe não nos encontramos por acaso neste mundo…
Propus trocarmos telefone, marcarmos tomar um café em algum lugar, mas, ela sorriu em negação: – É melhor, não. Nem queira saber porquê. Mas, saiba que esta hora que você passou comigo pode ter salvado a minha vida…
Arrumou a alça da bolsa no ombro e se foi, com o mesmo sorriso ambíguo que eu havia notado no início. Andava rapidamente com os cabelos de fogo balançando ao sabor do vento. Sentei-me no banco para pensar no que havia vivido quando reparei, ao lado da minha perna, uma lâmina pequena, como se tirada de um aparlho de barbear. Olhei ao longe, mas Moira já havia desaparecido do meu campo de visão. Guardei cuidadosamente a lâmina no bolso de minha jeans e levantei-me para tocar meu dia, com a imagem da linda menina de cabelos de fogo e a sensação de que, de alguma insólita maneira, eu havia, sim, salvo uma vida.

 

25 JULHO 2011