COGITO

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.

*O poema acima foi publicado no livro “Os Últimos Dias de
Paupéria”, Max Limonad – Rio de Janeiro, 1973, e selecionado por
Ítalo Moriconi para figurar no livro “Os cem melhores poemas
brasileiros do século”, Objetiva – Rio de Janeiro, 2001, pág. 269.

TORQUATO PEREIRA DE ARAÚJO NETO – (Teresina, 9 de novembro de 1944
— Rio de Janeiro, 10 de novembro de 1972) foi um poeta, jornalista,
letrista de música popular, experimentador da contracultura
brasileiro.

Torquato Neto nasceu em Teresina, Piauí, em 1944. Mudou-se para
Salvador, Bahia, aos 16 anos, onde conheceu Gilberto Gil, Caetano
Veloso e participou da produção do filme Barravento (1961), de
Glauber Rocha (1939 – 1981). Mudou-se mais tarde para o Rio de
Janeiro. Conheceu os poetas Décio Pignatari e Augusto de Campos, o
artista visual Hélio Oiticica e o cineasta Ivan Cardoso, com os quais
colaboraria e manteria um diálogo crítico.
Torquato Neto fez parte do grupo de artistas envolvidos com a
Tropicália, assim como defendeu em seus artigos polêmicos e
importantes por suas intervenções outros movimentos atuantes na
década de 60, como a Poesia Concreta e o Cinema Marginal, em especial
o de Rogério Sganzerla, Júlio Bressane e Ivan Cardoso.
Fundou o jornal Flor do Mal com Tite de Lemos, Rogério Duarte e Luis
Carlos Maciel, e ainda Presença. Com Wally Salomão planejou e editou
uma das publicações mais importantes da década de 70, a revista de
número único Navilouca. No espírito talvez do Murilo Mendes que
fora chamado por Manuel Bandeira de “conciliador de contrários”, a
revista Navilouca contou com a colaboração de poetas e artistas que
eram membros dos grupos mais variados em atividade no Brasil à
época, e que muitos insistiriam em ver como opostos. Desta maneira, a
revista trazia contribuições de poetas do Grupo Noigandres, de São
Paulo: Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos; de
artistas ligados ao Grupo Neoconcreto, do Rio de Janeiro: Lygia Clark
e Hélio Oiticica; do Cinema Marginal: Ivan Cardoso; da Tropicália:
Caetano Veloso e Rogério Duarte; do Grupo do Mimeógrafo: Chacal;
além de poetas que se tornariam mais conhecidos e importantes no
debate poético da década de 90, como Duda Machado, entre outros.
Torquato Neto tem um status estranhíssimo na historiografia poética
brasileira: talvez esteja entre os poetas brasileiros mais influentes
e ao mesmo tempo mais desconhecidos do pós-guerra, sendo tão
difundido através das letras de muitas canções famosas ainda que
tantos não saibam quem escreveu os textos, que se sustentam,
funcionando na voz e na página.
Os poemas de Torquato Neto compostos para a página seriam reunidos
pela primeira vez em 1973 por seu companheiro Wally Salomão e Ana
Maria Silva Duarte, ampliado e reeditado no volume Os Últimos Dias de
Paupéria (Rio de Janeiro: Max Limonad, 1984). Vinte anos mais tarde,
a Editora Rocco lançaria os dois volumes de sua Torquatália em 2005.
Torquato Neto cometeu suicídio aos 28 anos, no Rio de Janeiro, em
1972.