CARLOS ROBERTO DE MIRANDA GOMES – advogado/veranista

A condição de aposentado tem também as suas vantagens, eis que elimina compromissos rígidos, restituindo tempo bastante para ampliar as leituras, o lazer e conformar a vida com a realidade.

No veraneio, em particular, todos programam as suas atividades contando com o ócio para o retempero físico e mental, a leitura e a contemplação da natureza, como roteiros especiais do tempo.

Tive a oportunidade de iniciar as minhas leituras com a vida e o veneno de Wilson Simonal – ‘Nem Vem Que Não Tem’ do jornalista Ricardo Alexandre – Globo Livros , trazendo-me surpresas agradáveis, como a iniciativa corajosa e justa de Joãozinho Santana, filho de Seu Bastos e irmão de Joilce, buscando a restauração moral e artística daquele extraordinário cantor, do qual sempre fui fã, contando com a colaboração da nossa Ordem dos Advogados, através de Valério Marinho, fato que não inseri no meu livro “Traços e Perfis da OAB/RN”, por absoluta falta de registros em seus anais, e que mereceu apoio do Conselho Federal, que tomou a seu cargo ações eficientes que provaram a farsa contra aquele consagrado artista. Para mim Simonal está completamente reintegrado na história da MPB.

Outro livro que me preencheu dias e noites foi o “Belle Époque na esquina”, de Tarcísio Gurgel, resgatando parcela de um passado remoto, mas que nos trouxe a tempos mais próximos – os anos 50, quando ainda bem jovem participei de serenatas e registrei alguns menestréis daquele tempo, como José Gondim, Joaquim (lavador), Guaracy Picado, Roberto Ney. Em Recife, nas praias de Boa Viagem e Pina também fiz serestas com José Augusto Costa Neto (netinho), de saudosa memória e um filho do farmacêutico Álvaro Navarro, de quem desde então não tive mais notícias.

Tanto quanto nos tempos da “Belle Époque” varávamos as noites para homenagear o amor sob a luz complacente da lua, repetição do que narra Tarcísio às páginas 268/269: …tentando quebrar a monotonia e a tristeza da cidade, alguns seresteiros organizavam-se em blocos, promovendo serenatas nas noites enluaradas. Violões, saxofones, violinos, clarinetes, oboés, flautas, faziam a beleza sonora dos acompanhamentos.” No meu tempo o instrumental era bem mais pobre, senão violões, flautas, bandolim ou cavaquinho, às vezes um realejo e um pandeiro muito candente.

Dando continuidade às minhas leituras, comecei a ler o belo trabalho de Rubenilson Brazão Teixeira, com o sugestivo título ‘Da Cidade de Deus à Cidade dos Homens – a secularização do uso, da forma e da função urbana’, editado recentemente pela nossa EDUFRN. Nessa tese de doutorado tomamos conhecimento de fatos importantíssimos da cultura religiosa e secular das nossas cidades que o tempo se encarregou de sepultar, extinguindo, inclusive, a centenária Irmandade do Bom Jesus dos Passos, fundada em 1825.

Vivemos um momento de resgate da nossa memória histórica e sentimental. Parabéns aos pesquisadores e ao editor Abimael Silva que vem dando a sua valiosa contribuição.