A cidade adormecida,no coração do poeta,

entre pregões matinais,

subitamente, desperta.

 

Para trás da Serra Vermelha,

nasce a manhã, nas levadas,

na solidão das salinas,

nas águas envenenadas.

 

Maçaricos alçam vôo,

nas várzeas de pirrixiu.

pescadores solitários,

pescam o silêncio do rio.

 

Num bosque de matapasto,

atrás de Amaro Besouro,

desabrocha o fumo bom,

em finos cálices de ouro

 

Calafates calafetam

velhos barcos irreais.

Moinhos movem o vento,

nas tardes do nunca mais.

 

O sol se pondo na Barra,

entre mangues e canoas,

põe rebrilhos de vitrilhos,

nas marolas das gamboas.

 

A noite cai. Cães vadios

ladram na rua, à distância.

Deslizam sombras esquivas,

nas esquinas da lembrança.

 

Todos os que se mudaram

para o outro lado da vida

e dormem, no cemitério

da cidade adormecida.

 

 

vêm a mim, me cumprimentam,

me comovo ao recebê-los,

baila uma fina poeira,

em torno dos seus cabelos.

 

Converso com Pum-na-guerra,

Fumo-bom e Baranhaba.

Abraço Maria Mole,

Ciço Cabelo de Vaca…

 

Passo no Canal do Mangue,

vou à Fuzarca, à Favela,

Na rua da frente há moças

debruçadas na janela.

 

D. Adelina me argúi

na taboada e ABC.

Começa tudo de novo,

pela estrada do aprender.

 

Ouço as valsas da Água Doce,

nas tardes de antigamente.

Entre Bois e Pastoris,

sou menino novamente.

 

As ruas se embandeiraram,

há lanternas pelas portas.

São João acorda, entre o riso

de pessoas que estão mortas.

 

Os pés do menino vão

nessas ruas do sem-fim…

O tempo não conta mais,

partiu-se, dentro de mim.

 

Nesse burgo de lembranças,

guardado pela memória,

minha vida se inicia,

recomeça minha história.

 

 

 

Areia Branca é uma bonita cidadezinha salineira no litoral noroeste do RN.

Deífilo Gurgel, além de poeta, é dos maiores folcloristas potiguares.

Bartola.