CARLOS ROBERTO DE MIRANDA GOMES – advogado/veranista

Antes de tudo, a minha irrestrita solidariedade às vítimas da tragédia do Haití e aos brasileiros mortos, reverenciados na pessoa da Dra. Zilda Arns, tombada em campanha.

De todos os prazeres que o veraneio nos traz, um deles atrai mais o veranista, além do diário banho de mar – a regularidade do hábito da leitura.
Presentear os amigos com livros é uma tirada certa neste período, a par da consolidação das amizades.

Registro o recebimento de uma encomenda deixada em minha casa de Natal pela amiga e adversária cordial nas lides políticas da OAB/RN Lúcia Jales que, apesar de ser uma agenda 2010, é algo especial porque oferece literatura religiosa da Bíblia em escritos no dia a dia. Passou a ser, também, uma leitura obrigatória. Obrigado estimada colega.

No entanto, paralelamente ao aprendizado religiosos diário, dei seqüência às minhas leituras seculares, agora com a obra do autor potiguar Professor Geraldo Queiroz, com a 2ª edição (ABEU e EDUFRN) de “Geringonça do Nordeste – A fala proibida do povo”, em que o nosso sempre magnífico ex-reitor apresenta a sua pesquisa de Mestrado em torno de trabalho elaborado em 1937 pelo sempre lembrado Mestre Clementino Câmara (maçom e capa verde), cuja obra fora recusada à publicação pelo Governo do Estado de então, sob os auspícios da Lei estadual n. 145, de 6 de agosto de 1900, apesar de ter recebido parecer favorável de Comissão de intelectuais composta por Edgar Barbosa, Luis Soares e Véscio Barreto, sendo que este último recusou emitir seu parecer, por motivos pessoais (não muito convincentes).

O processo, após isso, tomou o caminho do Diretor do Departamento de Educação, Cônego Amâncio Ramalho, que foi reticente ao encaminhá-lo ao Secretário Geral Aldo Fernandes e deste à decisão do ex-Governador e então Interventor Rafael Fernandes, permitindo ao autor do livro o comentário da p. 103: A partir daí, o processo coloca-se à margem das decisões do poder, recolhido talvez, às gavetas de algum birô palaciano. De fato, entenda-se no Arquivo Público durante muitos anos, sendo encontrado pela nobre Professora Tereza Aranha e dali para o pesquisador.

O trabalho de Geraldo é precioso e reproduz fielmente o dicionário de gíria do Velho Professor Clementino, antecedido de didática e essencial introdução, mantidas as expressões censuradas à época, até mesmo as jocosas “aparar os peidos” e “lambecu”, pois traduzem a legião, sempre crescente nos dias atuais, representados pelos “puxa sacos” ou “baba…, que habitam nas cercanias ou nos porões do poder.

O livro atinge o ápice quando o autor engendra uma entrevista imaginária com o vetusto Professor de História da Civilização, descortinando fatos, idéias e pensamentos que resgatam a verdade história dos anos 30, ainda persistente em nossa província nos dias de hoje, quanto à conservação de preconceitos e leis de incentivo à cultura mais de fachada do que eficientes.