Lúcia Helena Pereira

 

No salão as pessoas se amontoam

Um pai canta estribilhos da canção de Assis

E o seu olhar firma-se no derradeiro momento

Antes de ver seu filho dormir para sempre.

 

Vai, vai filho meu,

Tua pátria é mais além,

Naquele céu de algodão doce,

Onde anjos te esperam e cantam.

 

Mas o olhar do pai percorre ávido e triste,

O rosto do seu filho através do pequeno vidro

Que o separa de todos e de tudo

Dormindo para acordar no céu!

 

Vai, vai filho meu,

Tua pátria é em Deus,

Teus lírios florescerão num céu de luz

Entre anjos docemente entoando hinos!

 

O olhar do pai já não arde

Mas dói nas dores do seu filho morto

Por um vício sem remédio,

Por uma dor que ele não conseguiu poupar.

 

Vai, vai meu filho querido

Segue a tua estrela riscada de ouro

E dorme, enfim, o teu sono infinito

Enquanto o meu olhar te guiará.

 

Um olhar que fez-se angústia em sete dias,

Rodopiando pelo hospital enquanto as horas iam

Para ver o filho, numa UTI, sem sussurros, sem quase vida,

Enquanto um pai amoroso pedia um milagre que não se fez!

 

Vai, vai filho do céu,

Teu Pai eterno o receberá

Num afã de amor e ansiedade,

Para, enfim, dar- te o beijo paternal.

 

Um olhar de pai fica na terra

A recordar os passos do menino, do adolescente e do homem

Tragado pela desgraça de um vício

Que não entendemos e deixa sobrar perguntas!

 

Vai, vai meu filhinho querido

Há um cantinho bom só para ti.

Junto de Nossa Senhora que te abençoará,

E Jesus que te alumiará os passos.

 

E fica em mim um olhar de esperança

Para ver um mundo novo, sem drogas, dores,

Sem tantas desgraças e padecimento…

Oh! Filho meu…foste embora, dormiste, enfim!