CARLOS ROBERTO DE MIRANDA GOMES – advogado/veranista

Trazem-me de Natal os jornais e revistas locais. Infelizmente ressaltam-se as notícias desagradáveis – terremotos, longe e perto daqui, enchentes no Rio e São Paulo, além dos subterrâneos da ‘politiquice’ nacional e potiguar, que teimam em ocupar as manchetes.

Dentre outras, lamentei o falecimento de ‘André da rabeca’, personagem que compunha a geografia sentimental da cidade, sempre naquele ponto onde quebra a esquina do Café São Luiz com a rua Coronel Cascudo  em cujas calçadas habitavam e ainda habitam figuras eminentes dentre filósofos, poetas, políticos e populares, registrados em livro pelo Padre José Luiz, destacando-se, no passado, Mílton Siqueira a vender suas poesias e no presente as figuras marcantes de Eugênio Neto e Cleanto Siqueira, que garantem em literatura oral aos mais novos,  a história do lugar.

Registro as homenagens prestadas a André na sensibilidade dos jornalistas Alex Medeiros e Sérgio Vilar e outras tantas, silenciosas, das crianças que se deleitavam com a sua música, de um repertório repetitivo, seguindo os mesmos os passos de Zé Meninho e seu caixão de gás, resgatado de forma lúdica no último disco de Carlos Zens.

Em meio a tanto infortúnio e somando ao curto-circuito na Rua Parnaíba, onde moro em Cotovelo (resolvido com eficiência pela Cosern), que fez explodir meu velho e querido televisor Phillips, de memoráveis veraneios, perdi o sono, antes embalado no repousante quebrar das ondas, mas agora sufocado pelos motores desalmados, que não respeitam nem as madrugadas e até se agravam com periódicos carros de bagunceiros intrusos, com som em altos decibéis.

Na insônia indesejada e com o lamento da perda do ‘homem da rabeca’, dei-me a rebuscar na memória daquele sítio histórico, na confluência com a rua Felipe Camarão e me situei na casa onde morei nos idos da II Guerra, vizinho aos Gosson e próximo ao Professor Esmeraldo Siqueira, na mesma rua em que encomendava partituras de músicas para interpretar com a orquestra da Rádio Poti, elaboradas pelo saxofonista que era também o dono da Casa dos Carimbos, cujo nome agora não lembro, mas certamente está presente nas exuberantes narrativas de Fred e Carlos Rossiter, os meninos de Seu Sinzenando, no excelente trabalho ‘Dos Bondes ao Hippie Drive-in’, e que moraram naquelas cercanias.

Lembrei-me de Clarice Palma e o Clube dos Sete, com a presença de Cascudinho e participação de Jesiel Figueiredo, da casa de Zefinha (mãe de Edinho do Trio Yrakitan), de Seu Lira alfaiate, de Euclides Lira e o ‘Curso Ábia Barros’, de Pompílio, também artista da tesoura, que ali construiu um prédio, no qual funcionava a Cooperativa Estudantil de Livros, criada por Francisco Sales da Cunha. Tinha também, próximo aonde hoje está a Poti Livros, a casa do Sr. Luiz Assunção, que fazia sessões de música, com Duca Nunes, Franças e outros, às quais compareciam o seu genro Bianor Medeiros, eu e o meu empresário, também Francisco, porém Gomes de Sales.
Velhos tempos, belos dias!