Não. Não há antídoto contra a erva do rato, o veneno. Também não há contra A Erva do Rato (Brasil, 2008), filme de Júlio Bressane em cartaz na Sessão de Arte do Cinemark Midway Mall. Bressane continua o mesmo. Não se rende ao cinemão de publicitários que assola o Brasil. Seis pessoas na sala e eu pensando na ousadia de um artista acreditar num projeto audiovisual que será totalmente ignorado pela massa ignara e TALVEZ elogiado pela crítica e por algumas testemunhas pingadas.

O filme é lento, metafórico, difícil, como todo Bressane que se preze. Livremente inspirado em “A Causa Secreta” e “Um Esqueleto”, de Machado de Assis, funde dois elementos dos contos: a relação do homem com a morte e a incompreensível relação que estabelece com os animais. Ele (Selton Mello) e Ela (Alessandra Negrini) se encontram num cemitério à beira-mar. Os pronomes são seus nomes. Ela, professora, com o pai morto há apenas três dias, não tem mais ninguém no mundo. Diante de tal situação, Ele se propõe a cuidar d’Ela enquanto for vivo. Este é o início de uma estranha relação.

Os dois se trancam numa casa e Ele passa a ditar verbetes de dicionário para Ela escrever. Em seguida, tem início uma longa sessão de fotografias, quando seios, coxas, bumbum e xana de Negrini são mostradas artisticamente. Na sequência, um impertinente rato começa a roer as tais fotografias. Ele, o homem, ensopa a casa de ratoeiras de todos os tamanhos e nada do rato resolver comer o queijo e se ferrar. O rato quer comer Ela. E come. E como. As cenas do roedor passeando pelo corpo e fazendo sexo com a protagonista são de arrepiar. Em todos os sentidos. Puro Bressane. Ela se excitando e gozando e levando junto as testemunhas do filme. Concluindo, Ele inicia outra sessão de fotos. Dessa vez com um esqueleto humano. Júlio quis jogar com os dois símbolos que mais causam ojeriza à humanidade: o rato e o esqueleto. Mas, calma. Não é um filme escatológico como o detestável A Mosca, por exemplo, que embrulhou meu estômago.

A Erva do Rato não tem nenhum destaque especial esteticamente falando. Minto, desculpem. Tem sim: Alessandra Negrini. Mas o que interessa para Bressane é a simbologia das imagens. Signos fílmicos. Em suma, semiótica. É essa palavrinha o sustentáculo da obra bressaniana, desde o clássico udigrudi O Anjo Nasceu. Inclusive a trilha é pelo mesmo maestro e compositor Guilherme Vaz. A bela direção de fotografia está entregue ao mestre Walter Carvalho. Já as atuações de Selton e Alessandra são medianas, frias, distantes, como o filme. Sem fogo. A Erva do Rato não é para todo mundo. É só para quem tem algum negócio com o cinema de Bressane. Ah, este post/isto posto não é uma crítica. Apenas um comentário, crítico.