Em obra póstuma, Cabrera Infante retrata tensão em Cuba pré-Fidel
SYLVIA COLOMBO
Antes de morrer, em 2005, o escritor cubano Guillermo Cabrera Infante pôs ponto final em “Cuerpos Divinos” (corpos divinos), e disse para a mulher, Miriam: “Esse era para ter sido um romance, mas acabou virando apenas uma biografia velada”.
O livro, que acaba de sair na Europa e será publicado no ano que vem no Brasil, pela Companhia das Letras, é uma “ficção” política em que, segundo explica o autor na introdução, “todos os personagens são reais e a história ocorreu de verdade”.
Trata dos anos anteriores à Revolução Cubana (1959) e do período que veio logo depois, ou seja, o princípio do governo de Fidel Castro.
À época, Cabrera Infante apoiou a queda do ditador Fulgencio Batista e o novo governo revolucionário que se instalou em 1959. Mas apenas até 1965, quando percebeu o que considerou abusos do novo regime e exilou-se definitivamente na Europa.
O autor de “Três Tristes Tigres” e “Havana para um Infante Defunto”, então, viveu de 1966 a 2005 em Londres com Miriam, uma ex-atriz, também cubana.
Este é o segundo volume que o escritor deixou para que a mulher publicasse após sua morte –”La Ninfa Inconstante” saiu em 2008.
A atarefada viúva hoje trabalha na reedição das obras completas do autor, que saem na Espanha a partir de novembro pela Galaxia Gutemberg/Ciclo de Leitores.
E, ainda, na organização de um volume que reúne pela primeira vez todos os artigos sobre cinema escritos por ele para a imprensa cubana, além de entrevistas que fez com Marlon Brando e Luis Buñuel, entre outros, mais nove roteiros para o cinema.
“Cuerpos Divinos” começa com um romance. O protagonista, crítico de cinema da revista “Carteles”, é um sujeito casado que se apaixona por uma moça de 17 anos.
Eduardo Abad/Efe
O autor cubano Guillermo Cabrera Infante, ganhador do Cervantes, empraça de touros da cidade de Sevilla, na Espanha
Como em Cuba qualquer homem que tivesse relações sexuais com uma menor tinha de casar-se com ela ou iria preso, acompanhamos o modo como ele lida com a situação até certo limite, quando a moça sai de sua vida.
SEXO
Esta conquista é seguida por diversas outras. O sexo apresenta-se não só como um dos assuntos principais do livro como a área na qual o narrador extravasa desde o entusiasmo revolucionário até seus próprios medos e decepções políticas.
O olhar do escritor permite também perceber quantas revoluções estavam embutidas no processo que levou Fidel ao poder. Os acontecimentos na distante “sierra”, onde a guerrilha atuava, eram apenas uma das frentes de batalha da qual chegavam notícias esparsas.
Em Havana, Cabrera Infante vivenciou as movimentações de grupos como o Directorio Revolucionário, o Partido Comunista e o Movimiento 26 de Julio, todos contra Batista, e as reações nos veículos de imprensa.
O livro retrata bem o clima de tensão política instalado, com fugitivos escondendo-se na casa de amigos, pessoas desaparecendo e manifestos clandestinos circulando.
Ao mesmo tempo, Cabrera Infante mostra como foi aos poucos se tornando um apaixonado por cinema e jazz.
O romance começou a ser escrito assim que Cabrera Infante deixou Cuba pela primeira vez, para ser adido cultural na Bélgica, em 1962. Só o terminou em seus últimos meses de vida e, ainda assim, segundo Miriam, ficaram faltando revisões finais. “A única alteração que pediu que eu fizesse foi colocar os nomes reais de pessoas que apareciam com nomes fictícios”, disse à Folha.
Aos olhos deste homem que viveu mais de 40 anos longe, porém, Havana aparece muito real. As descrições das ruas, restaurantes, esquinas, hospedarias e bordéis são detalhadas e parecem ter seguido vivas na memória do escritor até a morte. “Este foi talvez o livro que Guillermo escreveu com maior paixão e por mais tempo, mesmo quando já estava muito doente”, diz.

Em obra póstuma, Cabrera Infante retrata tensão em Cuba pré-Fidel  SYLVIA COLOMBO
Antes de morrer, em 2005, o escritor cubano Guillermo Cabrera Infante pôs ponto final em “Cuerpos Divinos” (corpos divinos), e disse para a mulher, Miriam: “Esse era para ter sido um romance, mas acabou virando apenas uma biografia velada”. O livro, que acaba de sair na Europa e será publicado no ano que vem no Brasil, pela Companhia das Letras, é uma “ficção” política em que, segundo explica o autor na introdução, “todos os personagens são reais e a história ocorreu de verdade”. Trata dos anos anteriores à Revolução Cubana (1959) e do período que veio logo depois, ou seja, o princípio do governo de Fidel Castro. À época, Cabrera Infante apoiou a queda do ditador Fulgencio Batista e o novo governo revolucionário que se instalou em 1959. Mas apenas até 1965, quando percebeu o que considerou abusos do novo regime e exilou-se definitivamente na Europa. O autor de “Três Tristes Tigres” e “Havana para um Infante Defunto”, então, viveu de 1966 a 2005 em Londres com Miriam, uma ex-atriz, também cubana. Este é o segundo volume que o escritor deixou para que a mulher publicasse após sua morte –”La Ninfa Inconstante” saiu em 2008. A atarefada viúva hoje trabalha na reedição das obras completas do autor, que saem na Espanha a partir de novembro pela Galaxia Gutemberg/Ciclo de Leitores. E, ainda, na organização de um volume que reúne pela primeira vez todos os artigos sobre cinema escritos por ele para a imprensa cubana, além de entrevistas que fez com Marlon Brando e Luis Buñuel, entre outros, mais nove roteiros para o cinema. ”Cuerpos Divinos” começa com um romance. O protagonista, crítico de cinema da revista “Carteles”, é um sujeito casado que se apaixona por uma moça de 17 anos.  Eduardo Abad/Efe O autor cubano Guillermo Cabrera Infante, ganhador do Cervantes, empraça de touros da cidade de Sevilla, na Espanha Como em Cuba qualquer homem que tivesse relações sexuais com uma menor tinha de casar-se com ela ou iria preso, acompanhamos o modo como ele lida com a situação até certo limite, quando a moça sai de sua vida. SEXO Esta conquista é seguida por diversas outras. O sexo apresenta-se não só como um dos assuntos principais do livro como a área na qual o narrador extravasa desde o entusiasmo revolucionário até seus próprios medos e decepções políticas. O olhar do escritor permite também perceber quantas revoluções estavam embutidas no processo que levou Fidel ao poder. Os acontecimentos na distante “sierra”, onde a guerrilha atuava, eram apenas uma das frentes de batalha da qual chegavam notícias esparsas. Em Havana, Cabrera Infante vivenciou as movimentações de grupos como o Directorio Revolucionário, o Partido Comunista e o Movimiento 26 de Julio, todos contra Batista, e as reações nos veículos de imprensa. O livro retrata bem o clima de tensão política instalado, com fugitivos escondendo-se na casa de amigos, pessoas desaparecendo e manifestos clandestinos circulando. Ao mesmo tempo, Cabrera Infante mostra como foi aos poucos se tornando um apaixonado por cinema e jazz. O romance começou a ser escrito assim que Cabrera Infante deixou Cuba pela primeira vez, para ser adido cultural na Bélgica, em 1962. Só o terminou em seus últimos meses de vida e, ainda assim, segundo Miriam, ficaram faltando revisões finais. “A única alteração que pediu que eu fizesse foi colocar os nomes reais de pessoas que apareciam com nomes fictícios”, disse à Folha. Aos olhos deste homem que viveu mais de 40 anos longe, porém, Havana aparece muito real. As descrições das ruas, restaurantes, esquinas, hospedarias e bordéis são detalhadas e parecem ter seguido vivas na memória do escritor até a morte. “Este foi talvez o livro que Guillermo escreveu com maior paixão e por mais tempo, mesmo quando já estava muito doente”, diz.