Obra é fundamental para conhecer a América Latina

Por Alexandre Barbosa

Para quem perguntar por onde se pode começar a estudar a América Latina, a resposta é “leia As Veias Abertas…” de Eduardo Galeano.

A primeira década do século XXI trouxe para os holofotes a mudança de prioridades no governo da Bolívia, que nacionalizou os hidrocarbonetos. As mudanças do governo de Evo Morales, o primeiro indígena eleito para a presidência do país, tiveram paralelo, em menor grau, no Equador, com Rafael Correa, na Venezuela, com Hugo Chávez e com a eleição de Fernando Lugo, do Paraguai.

Ao contrário do que a indústria jornalística afirma, esses governos não podem ser estudados sob a luz do populismo, mas devem ser entendidos a partir da leitura de As Veias Abertas da América Latina.

Nesta obra essencial é possível entender um processo comum em todos os países latino-americanos: apesar de a origem do colonizador ser espanhola, portuguesa, holandesa, francesa ou inglesa, de haver maior ou menor presença indígena ou negra na população, é que em todas as nações se edificaram sociedades constituídas para servir de alimento, em primeiro lugar, para a acumulação mercantil, depois para as fornalhas da Revolução Industrial Inglesa e agora para o imperialismo (ou neocolonialismo) norte-americano.

Os mais de quinhentos anos de história oficial da América Latina, desde que La Hispañola foi pisada pelas botas de Colombo e Vespúcio, reproduzem o incessante estupro das entranhas ricas, desde a exploração de recursos naturais e minerais (pau-brasil, ouro, prata, estanho) até o consumo das vidas, dos corações e das mentes dos trabalhadores. Nesse cruel e sangrento processo de exploração, levado a cabo com prodígio desde a etapa do saque das riquezas até as variadas formas de apropriação da produção mercantil, formou-se classes dominantes nativas da pior espécie: dominantes para dentro, dominadas para fora.

Eduardo Galeano descreveu desta forma, histórico processo de subalternização da classe dominante latino-americana:

“Para os que concebem a História como uma disputa, o atraso e a miséria da América Latina são o resultado de seu fracasso. Perdemos, outros ganharam. Mas acontece que aqueles que ganharam, ganharam graças ao que nós perdemos: a história do subdesenvolvimento da América Latina integra, como já se disse, a história do desenvolvimento do capitalismo mundial. Nossa derrota esteve sempre implícita na vitória alheia, nossa riqueza gerou sempre a nossa pobreza para alimentar a prosperidade dos outros: os impérios e seus agentes nativos. Na alquimia colonial e neo-colonial, o ouro se transformou em sucata e os alimentos se convertem em veneno. Potosí, Zacatecas e Ouro Preto caíram de ponta do cimo dos esplendores dos metais preciosos no fundo buraco dos filões vazios, e a ruína foi o destino do pampa chileno do salitre e da selva amazônica da borracha; o nordeste açucareiro do Brasil, as matas argentinas de quebrachos ou alguns povoados petrolíferos de Maracaibo têm dolorosas razões para crer na mortalidade das fortunas que a natureza outorga e o imperialismo usurpa. A chuva que irriga os centros do poder imperialista afoga os vastos subúrbios do sistema. Do mesmo modo, e simetricamente, o bem-estar de nossas classes dominantes – dominantes para dentro, dominados para fora – é a maldição de nossas multidões, condenadas a uma vida de bestas de carga”.

GALEANO, Eduardo. As Veias Abertas da América Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982. p 14.

A partir da leitura de As Veias Abertas, acontecimentos como o Massacre de Iquique ganham expressão mais dolorosa e até a compreensão de obras como “Cem Anos de Solidão” se torna diferente.

E nem mesmo a mundialização das economias no século XXI, com os fóruns e reuniões de cúpula comerciais, tiram a atualidade da obra de Galeano. Se hoje os governos progressistas da América Latina tentam estabelecer relações sul-sul é porque a realidade de exploração mostrada por Galeano ainda necessita de ações para ser remediada.