Literatura RN (01)

 

Por Anchieta Fernandes (*)

Antigamente, certos intelectuais escolhiam obras selecionadas para serem levadas para uma suposta ilha, onde se viveria sozinho, com estas obras. Botando a imaginação para funcionar, poderíamos escolher as melhores obras da literatura norte-riograndense e levá-las como nossas companheiras na ilha. Comecemos por uma obra de um autor não nascido no Rio Grande do Norte, mas cuja vivência e inspiração é toda norte-riograndense: o romance “ As Filhas do Arco-Íris”. Eulício Farias de Lacerda, paraibano do vale do Piancó, escritor e professor universitário aposentado em Natal, construiu em “As filhas do Arco-Íris” (Ática e Fundação José Augusto, 1980) novas variantes imagéticas das narrativas contidas no primeiro romance que publicou, “O Rio da Noite Verde” (Editora Leitura, 1973).

Isso porque, a meu ver, o texto de Eulício é um texto livre, não se preocupando com um enredo uniforme e linear, e sim com vários enredos que traduzam realmente a criatividade inesgotável dos dois tempos do sertão: o concreto e o imaginário. Embora “As Filhas do Arco-Íris” tenha uma evolução subliminar esquemática, explicável pelos títulos dos capítulos que remetem ao tempo geográfico, na verdade é como um andamento contínuo de uma épica, novos desenvolvimentos de um universo mitológico vislumbrado no primeiro romance. É uma galáxia de vários contos dentro do conto geral euliciano.

Constatamos, tanto em “O Rio da Noite Verde”, como em “As Filhas do Arco-Íris” (títulos belíssimos os que Eulício escolhe para seus romances), as chaves deste universo mitológico em fragmentos de narrativa, de crônica descritiva, de lirismo e ritmo poético. Como não há escritor puro, sem influência, poderemos deduzir no autor: a) ritmo – José Lins do Rego, por repetir várias frases e expressões ao longo do texto; b) linguagem – Guimarães Rosa, pelo nível neologístico que raros escritores ousaram entre nós; c) temática – Paulo Dantas, pelo espanto, pelo fantástico alucinatório do arcabouço psicossomático de personagens e ambientes ( onde muitas vezes os conflitos se resolvem pela intervenção do sobrenatural).

Mas na verdade Eulício cria valores e objetos temáticos próprios, como forma de instaurar um todo textual que testemunha episódios mágicos, cantigas de roda, crendices e lendas de sua memória transfiguradas.

(*) Anchieta Fernandes  é um dos fundadores do  Poema Processo. É autor, entre outros,  do livro Por Uma Vanguarda Nordestina.