Por Anchieta Fernandes

Ao escrever sobre este primeiro romance de José Bezerra Gomes, cuja primeira edição é datada de 1938, Veríssimo de Melo assim afirmou sobre um aspecto da obra: “ O que talvez não se possa proclamar – como já foi feito – é que “OS BRUTOS” constituiriam a nossa primeira manifestação do romance social. Aí nos parece exagero. Não vislumbramos essa intenção no texto. (…) pelo que podemos apreciar, outra seria a intenção do autor, mais voltado para prospecção psicológica dos personagens que criou ou transpôs da realidade para o seu mundo ficcional.” ( V. “ A República”, 21/06/1981).

Não concordamos com Veríssimo de Melo. A prospecção psicológica existe, sim, principalmente a do menino criado por outras pessoas que não os pais ( nisso, José Bezerra Gomes lembrando o José Lins do Rego de “Menino de Engenho”). Mas a visão do romance social comparece também, observável no capítulo 20, quando o escritor compara os privilégios classistas de certos trabalhadores em relação a outros.

Segundo alguns critérios, com “ Os brutos” JBG teria iniciado um novo ciclo regionalista na literatura brasileira – o do algodão, assim como José Lins do Rego criou o ciclo da cana de açúcar e Jorge Amado o ciclo do cacau. O que acontece é que José Lins do Rego e Jorge Amado prosseguiram o ciclo com várias obras, ao passo que José Bezerra Gomes – por várias circunstâncias, inclusive a precariedade de saúde – não escreveu outros romances dando continuidade a um ciclo do algodão no contexto ficcional.

Mas “Os Brutos” marcou narrativamente ponto positivo ao reportar o universo dos algodoais seridoenses, seus personagens, seus problemas econômicos, as relações  de trabalho entre fazendeiros e trabalhadores, inclusive ( como José Lins do Rego focalizou a decadência dos engenhos), as dificuldades climáticas que derrotaram os grandes proprietários de fazendas.

Como um bom romancista, José Bezerra Gomes não deixa de conotar humor em alguns momentos, fixando as situações cômicas e parodiando no capítulo 11 a subliteratura grandiloquente de certos jornais do interior. Enfim, “ Os Brutos” é um total desmentido a certos analistas literários, que acham que o norte-rio-grandense não tem vocação para a literatura ficcional, e sim para a poesia. José Bezerra Gomes foi não somente bom poeta, mas também bom romancista.