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O cineasta Roman Polanski, que completa 78 anos quinta-feira, exibe um currículo controverso: em um lado da folha, o mais dourado, constam filmes premiados como “Chinatown”, “O Bebê de Rosemary” e “O Pianista”, obras rigorosas que o transformam em um dos grandes diretores de cinema; do outro, mais cinzento, figura uma infância miserável durante a Segunda Guerra Mundial, época em que perdeu a mãe em um campo de concentração, prenunciando uma trajetória tumultuada, marcada ainda pelo cruel assassinato de sua mulher, a atriz Sharon Tate, em 1969, quando estava grávida de oito meses, e pela acusação de estupro de uma menor, em 1977, iniciando um processo que ainda o impede de voltar aos Estados Unidos.

divulgaçãoCapa: Polanski e Sheron Tate, assassinada por maníaco
“Suas grandes obras estão associadas a tragédias”, comenta Christopher Sandford, autor de “Polanski – Uma Vida”, lançado agora pela Nova Fronteira. Biógrafo de outros famosos (Curt Cobain, David Bowie, Mick Jagger), ele conversou com 270 pessoas que conviveram de alguma forma com o diretor – Polanski, no entanto, recusou-se a dar entrevista.

O resultado é o perfil detalhado de um diretor perfeccionista, egocêntrico, impulsivo e profundo conhecedor da arte cinematográfica. Um homem ranheta, de 1,60m de altura, que dirigiu 19 filmes.

Por que o interesse pela vida de Polanski?

Tudo começou quando ele ganhou o Oscar de diretor por O Pianista, em 2003: fiquei surpreso ao descobrir que Polanski tornou-se o cineasta mais velho a vencer nessa categoria, algo não conquistado por Clint Eastwood. Foi uma medida ousada de Hollywood, pois ele ainda enfrentava problemas legais aqui nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, fui tomado por recordações de sua vida tumultuada: de enfant terrible quando jovem a um homem maduro e adaptado ao sistema.

É mais difícil biografar alguém ainda vivo?

Bem, é preciso ter cuidado com problemas jurídicos – especialmente Polanski cuja reputação é sempre questionada, o que o obriga a buscar os tribunais, como no processo por difamação que moveu em 2005 contra a revista Vanity Fair, que o acusou de infidelidade à memória de sua mulher, a atriz Sharon Tate. Ele é muito zeloso de sua imagem. Ao mesmo tempo, continua um diretor atuante, o que me faz lembrar as palavras de outro cineasta, Robert Wise, com quem conversei: segundo ele, dirigir um filme reforça a virilidade do homem.

A vida de Polanski parece mais absurda que a ficção, não?

Sim, apesar do próprio Polanski contestar essa afirmação. Ele viveu a infância durante a guerra, em meio à miséria e perdendo a mãe quando ainda era muito criança. Ou seja, passou por experiências fortes que podem explicar o humor macabro que marca boa parte de seus filmes. Polanski nunca conseguiu relaxar, sua trajetória sempre foi pontuada por eventos extraordinários: quando estava no topo do mundo, o que aconteceu várias vezes, ele foi surpreendentemente arrancado de lá por algo nocivo.

Suas conquistas estão associadas às tragédias?

De uma certa forma, sim, pois alguns de seus melhores filmes foram precedidos por péssimas experiências. Parece que seu gênio criador funciona melhor quando envolvido por problemas. Veja Macbeth, que ele rodou em 1971, dois anos depois do cruel assassinato de Sharon Tate: não é um filme perfeito, o orçamento foi baixo, houve muita confusão nos bastidores, mas Polanski conseguiu manter o clima violento da história, o que parecia impossível para alguém que sofreu com tal acontecimento. O mesmo se passou com “Tess”, filme de 1979, realizado logo depois que ele foi obrigado a deixar os Estados Unidos acusado de violentar uma menor de idade: trata-se de um filme lírico, vigoroso, que me faz lembrar a obra de Stanley Kubrick.

Por que Polanski desperta o fascínio do público ao apresentar o mal?

Polanski não é um cineasta da comédia – basta ver “Piratas”, de 1986, filme que ele desejou fazer durante anos e, quando conseguiu, enfrentou muitos problemas. Aliás, os bastidores são mais interessantes que a própria trama, com brigas constantes, estouro de orçamento e uma série de homens de preto na praia, esperando pela volta da equipe que filmava em um enorme galeão – na verdade, representantes dos investidores prontos para cobrar explicações dos gastos. Enfim, Polanski é melhor observador do lado obscuro do ser humano que de sua jovialidade.

(In Tribuna do Norte –VIVER-, 17.08.2011)