Publicação: 16 de Novembro de 2011 – TN(VIVER)

Yuno Silva - repórter

Nada de três tapinhas nas costas ou sorrisos amarelados, “Recomendações a todos” é um soco no estômago e vai direto ao ponto com acidez, humor e fartas doses de ironia. Adaptado do livro homônimo lançado em 1982 por Alex Nascimento, o espetáculo mete o dedo na ferida e não deixa brechas para dissimulações ou diplomacia: a crítica social é nua, crua e sem papas na língua. Resultado de um trabalho desenvolvido durante os últimos seis meses pelo Coletivo Atores à Deriva, a montagem estará em cartaz de amanhã (17) até domingo (20) na Casa da Ribeira. A temporada está inserida no projeto Cena Aberta e os ingressos custam R$ 5. Aos desavisados um detalhe: no domingo, após o espetáculo, o grupo promove “A festa no berçário” no piso superior da Casa, a partir das 21h30, sob o comando da DJ Danina Fromer.

Júnior SantosAlex Nascimento sabia que Recomendações a todos (1982) daria em alguma coisa. Vinte anos depois, O texto ganha os palcos e provoca a reedição impressa.

Com direção compartilhada entre o Coletivo e a diretora equatoriana Consuelo (Coco) Maldonado, que passou por Natal em junho logo no início dos trabalhos, o espetáculo traz à tona a “louca tentativa de colocar no palco um dos mais absurdos e irreverentes romances produzidos em terras potiguares”. Em 1h30, o quinteto formado por Paulo Lima, Henrique Fontes, Bruno Coringa, Doc Câmara e o ator convidado Tházio Menezes, refaz os passos de um louco que, expulso do manicômio, tenta conviver com os “lindos normais” (nós?).

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“Descobri essa figura (Alex Nascimento) há uns vinte anos, através da obra, e quando li ‘Recomendações a todos’ pela primeira vez, ainda na década de noventa, vislumbrei de cara uma peça de teatro. O texto é muito potente e, apesar de ter sido publicado em 1982, está perfeitamente atual – tanto que não adaptamos nada”, disse o ator e diretor Henrique Fontes à reportagem do VIVER durante ensaio realizado na noite desta segunda-feira (14). “Esas ideia ficou 25 anos na gaveta, e como ninguém montou… então resolvemos montar a partir do desejo de usar um pouco dessa acidez, dessa picardia em cena”, emenda.

Para dar forma à adaptação, o Coletivo Atores à Deriva selecionou seis ou sete capítulos do livro de Alex: “deixamos pouca coisa de fora. Alguns capítulos são tão densos que por si só já são outras outras peças. Ficou muito difícil encaixar sem seguir outro caminho. Mas, por exemplo, os três primeiros capítulos condensamos em uma única cena no início do espetáculo – da mesma forma, outro capítulo do livro conduz uma cena inteira”, explicou o ator. O grupo também enxertou fragmentos do texto “Dogmas do Merda”, do dramaturgo carioca Felipe Barenco para arrematar a dramaturgia.

Questionado sobre o elo de ligação entre esses capítulos, Henrique simplifica: ” é um só, o louco, que inclusive é o único personagem do livro. Construímos a narrativa a partir das situações vividas por ele, os cinco atores em cena são as múltiplas faces desse personagem”, adiantou.

A convite da TRIBUNA DO NORTE, Alex Nascimento se submeteu ao ‘sacrifício’ de assistir pela enésima vez o ensaio e concedeu a seguinte entrevista exclusiva:

Alex, quando eles chegaram com a notícia de que seu texto seria encenado, como você reagiu? 

Olha, ao contrário dos políticos eu não alego inocência em nada. Quando eu escrevi, sabia que tinha que fazer alguma coisa, mas não tinha a menor noção de que um dia poderia ser adaptado para uma peça de teatro. Até o dia que esse louco chega lá em casa com esse papo de ‘vamos fazer e tal’ – eu disse: ‘não tenho nada com isso’, mas estou acompanhando o processo. São meus filhos adotivos, maravilhosos, mas só me dão trabalho! [risos] Depois continuei escrevendo, esse foi só meu primeiro livro.

Como ainda não li o livro, até porque está esgotado, e quem tem um exemplar não empresta por mais de algumas horas, pergunto: qual, afinal, é a recomendação? 

Não se trata de recomendações a ninguém. Depois que terminei o livro como uma carta, ‘abraços e recomendações a todos’, peguei as últimas palavras do livro como sendo o título (o relançamento do livro está previsto para o dia 7 de abril de 2012). Depois fiz outro romance que ficou escondido por aí, teve mais três livros de poesia, teve outro para uma editora de São Paulo que escolheu dez autores brasileiros (vítimas) para uma coleção… e outras patifarias por aí. Estava até esboçando um próximo livro aí, que iria ser nem prosa nem poesia – e nem adianta perguntar o que é pois eu sei mas não tenho ideia, ou tenho ideia mas não sei o que é, aí esses meninos me atrapalharam com essa história de teatro aí tirou a concentração. Também fui seu colega na TRIBUNA DO NORTE, provavelmente bem antes de você começar a trabalhar lá, escrevi muito tempo em jornal, mas nunca pensei em fazer peça para teatro.

Como Henrique falou, o livro é ácido, atual. Você foi buscar onde: memórias, experiências… 

Não não, na humanidade. Onde vamos buscar acidez se não na própria humanidade? Laranja não é ácida, mulher não é ácida – aliás, mulher não é um ser humano, é um ser divino, os homens é que são canalhas e têm a acidez todinha.

E há  um contexto, um fio condutor que reflete algum momento específico ou é atemporal e as pessoas vão se identificar em qualquer época? 

Em qualquer época. O ser humano é atemporal, é a mesma merda do começo até o fim e não está muito longe disso. Fui escrevendo o que estava vendo desde o dia em que nasci. Com 11 anos de idade vi que a humanidade é essa porcaria aí começou a ideia de escrever alguma coisa sobre meus semelhantes queridos, e sempre escrevi sem pensar em publicar livros nem nada. 

Júnior SantosAlex e elenco de Recomendações: São meus filhos adotivos, maravilhosos, mas só me dão trabalho

‘Recomendações’ é um texto pessimista? 

Não, é otimista demais, a humanidade é muito pior! Principalmente em Brasília. [risos]

O livro está esgotado há bastante tempo, pensa em reeditar? 

Tem um editor amigo de Henrique, José Correia (Editora Caravela), que já está trabalhando na reedição. Eu mesmo não tinha essa intenção, mas essa turma se juntou com minha filha contra mim para convencer a relançar. [risos] Eles disseram que quando lançam uma peça, as pessoas ficam curiosas para saber de onde veio o texto e tal. Nesse caso sou totalmente inocente.

Você,  que já viu outros ensaios, se enxerga no espetáculo? 

Enxergo qualquer pessoa, não tem ninguém normal com exceção dos repórteres. [risos] Reconheço meu livro, não é literal, palavra por palavra loucura por loucura ideia por ideia, mas tem muita coisa.

Sua personalidade instiga a curiosidade de muita gente, mesmo daqueles que não te conhecem. Como você lida com esse tipo de assédio? 

Sexual?! [risos] Na verdade essa história começou quando eu cursava Engenharia Civil na UFRN. Tive a imensa sorte de estudar ao lado de 29 outros loucos e nossa turma foi a mais escrota de todas as universidades do mundo (turma de 1970). Então, a partir dali, nós todos ficamos famosos em Natal: éramos vistos como loucos, cafajestes daquele hospício. Nesse tempo não fazia a menor ideia de que iria escrever. E foi em 1980 que despertei: escrevi “Recomendações a todos” e passei a colaborar no jornal Dois Pontos e outros jornais e terminei na TRIBUNA. Escrevi uns 20 anos em jornal, e quem escreve em jornal não fica escondido e foi daí que veio essa exposição.

Você  é conhecido por ser notívago. O que a noite tem de  especial? 

A melhor coisa da noite é não ter Sol, é a coisa mais bonita. O Sol esculhamba com qualquer coisa – talvez nesse livro tenha essa frase: ‘o Sol destrói qualquer bonita ideia’, então de noite ninguém precisa ter ideia: uma dose de uísque, uma gata bonita… a noite é encantadora, pra mim sempre foi.

Está  lendo alguma coisa, é leitor compulsivo? 

Não, nunca fui um leitor assíduo, gosto de escutar música: jazz e clássicos acima de tudo. Leitura é uma coisa absolutamente casual.

Filmes? 

Dizer que assisto bons filmes é uma coisa meio maluca. Gostava muito de bang bang, até que Clint Eastwood continuou a sequência por mim. Não gosto de filme de terror nem dessa putaria de hoje com os efeitos especiais. Gosto de “Um Estranho no Ninho” (com Jack Nicholson), desse naipe.

Seu personagem é uma espécie de estranho no ninho? 

Como todo doido que se preza: o cara começa num hospício e termina sendo levado numa camisa de força pelos enfermeiros de volta para o lugar de onde não deveria ter saído. Se ele começa louco e termina louco, não teve cura nenhuma, então é um estranho no ninho.

Usa internet? 

Não.

Futebol? 

Era o grande amor da minha vida. Hoje só se vê o símbolo da Nike e não posso mais jogar – quer dizer, não devo: vai que dou um passe e sofro um estiramento no cérebro aos 64 anos.

Política? 

Querido pula essa pergunta, se não vai ter gente puta da vida comigo! [risos]

Sexo, drogas e rock’n roll? 

Ok, ok, ok. Um uisquezinho, um valiumzinho, craque mesmo só Pelé, Maradona, Neymar…

E Natal? 

Está apodrecendo, só aumentou a velocidade. Hoje só tem prédio, prédio, prédio e buracos. Quero ver quando começarem a destruir tudo para os serviços da Copa do Mundo.