O DIA DAS MOSCAS

Por Anchieta Fernandes

 

Sempre vi em Nei Leandro de Castro uma vocação de narrador, pois embora aprecie o inteligente poeta que ele é, nunca me saiu da cabeça a beleza do conto  que ele escreveu e que a revista carioca “ Leitura” publicou em 1962, “ Delírio na Ponte”, onde aborda a tentação que representa uma Lolita nacional ( Millor Fernandes já escreveu: “ A verdade verdadeira é que as menores seduzidas são sempre muito sedutoras”) em meio ao ambiente medíocre em que  o protagonista central vive.

Tenho agora em mãos o seu primeiro romance, “ O Dia das Moscas”, publicado em 1983 pela Codecri, e que, até prova em contrário, é o primeiro romance de autor norte-rio-grandense que coloca como personagens descendentes do “bravo poti”,  o índio que se batizou com o nome de Felipe Camarão, herói potiguar. Humorístico, sensual, o romance tem também a característica de estar à proporção do leitor sem tempo de hoje em dia, com quem se comunica bem por seus capítulos curtos (embora justamente por isso, tenha a pequena falha de não delinear bem a caracteriologia de alguns dos personagens).

Contando a “ anti-saga de uma pequena família mestiça” – conforme está registrado na parte posterior da capa – “ O Dia das Moscas” poreja sexo, desde as primeiras maravilhosas descobertas infantis (v.p.94). Mas não num sentido vulgar, cassandrariosiano. Porque Nei ( ou Neil de Castro, Como ele assinou o livro) é um construtor de linguagem, que usa aliterações, metalinguagem, paródia, onomatopéias e a escrita pré-ideogrâmica do capítulo final, sem pretender imitar Guimarães Rosa ou forçar esquematizações estruturalistas ( que são a tentação do jovem ficcionista contemporâneo). E além do mais tem aquele capítulo de pura beleza estética, inspirados nas águas do Potengi, o capítulo intitulado “Sóbolo rio” ( os capítulos não são numerados, cada um recebe um título, como se fosse um conto).

Interessante, para se constatar a habilidade narracional de Neil, é ver como ele sabe intercalar determinados momentos de humor com o trágico. Um dos personagens, que, mandado registrar pelo pai com o nome Voltaire, por ironia é um débil mental, um mongolóide, possibilita estes momentos de tragicidade, quando o pai, após aplicar-lhe uma surra violenta de cinturão vai chorar trancado no quarto.

Só temos que nos render a este talento. Nei Leandro ou Neil de Castro é mais um a desmentir o papo furado de que o norte-rio-grandense não dá para a literatura ficcional. Com “ O Dia das Moscas” ou com “ As pelejas de Ojuara”, o seu segundo romance (publicado pela Nova Fronteira em 1986) – ele brilha ao nível de qualquer outro autor nacional. Aliás, “ As Pelejas de Ojuara” trouxe mais um dos aspectos definidores do bom romancista: o de usar a técnica À CLEF, onde personagens da vida real podem ser identificados, tanto pelo próprio nome (v. por exemplo Moisés Sesyon), como por nomes parecidos e comportamentos iguais ( um destes é Franco Jorge, Xeleléu de fazendeiro, garachué, moleque de recados, além do mais fascinado por massa muscular de machos).