Por Anchieta Fernandes

Moacy Cirne é a melhor vocação de crítico do Rio grande do Norte, embora com atuação mais destacada no sul do país. Sua abordagem crítica é séria, metodológica, marxista.
Publicado em 1979 pela Fundação José Augusto, o livro “ A Poesia e o Poema do Rio Grande do Norte” faz a primeira análise abrangente da produção poética do Estado. Dividido em quatro ensaios e uma antologia radical do poemário norte-rio-grandense inicia colocando o aparelhamento teórico-doutrinário em que se firma o autor valorizando a prática de vanguarda: “ Para nós, a vanguarda, superando qualquer formulação meramente estética, e o resultado de uma prática experimental a partir do social com suas particularidades culturais, determinando o lugar de sua vigência histórica”.
O primeiro ensaio intitulando:  “ De Jorge Fernandes ao poema/processo” – dando então para sentir como o crítico baliza o começo da poética do RN, não a partir do referencial cronológico e sim a partir de uma escolha crítica sincrônica, pois “a poesia no Rio Grande do Norte a rigor, começa com Jorge Fernandes. Isto é a poesia entendida como produção de signos concretos (no caso, verbais) em busca de uma dada linguagem fundada no ato poético da invenção literária”.
E a poesia ante de Jorge Fernandes? Diz MC: “ O que temos é o período mais romântico de toda a literatura do Estado, com a poesia a reboque de poetas de outras regiões do Brasil.”
Depois de Jorge Fernandes, MC destaca José Bezerra Gomes e outros, historiando na seqüência o grande salto criativo dos movimentos da poesia concreta (1966) e do poema/processo do RN (1967) – que chegaram no momento exato, quando na prática literária do Estado vivia-se “sob o domínio do impressionismo literário, sem maiores ousadias formais e/ou contextuais”.
Além de capítulos-ensaios específicos sobre Jorge Fernandes, José Bezerra Gomes e Falves Silva – o autor inclui o ensaio “ Teses Sobre o Modo de Produção do Poema/Processo”, que fora publicado originalmente no suplemento “ contexto” , do Jornal “ A República”, em 1977.
Na parte da antologia, estão incluídos poemas em verso e visuais – estes representativos da produção experimental de Vanguarda nascida com o Poema/Processo. Em páginas finais, o autor menciona outros poemas que, embora não selecionados para a antologia, merecem ser registrados por atingirem,  “ às vezes através de elementos gráficos, surpreendentes resultados significantes”.
Como se vê, a crítica moacycirniana é, além de expressivamente contemporânea em sua substância analítica, forjada na justiça isenta de qualquer preconceito.