LITERATURA DO RN – 08
Por Anchieta Fernandes

 

Na década de 60, um jovem autor revelou-se no panorama da literatura norte-riograndense: José Humberto Dutra. Seu romance, “Geração dos maus”, publicado em 1965 com a complementação de uma novela psico-política ( “ O Golpe”), é o retrato de nossa “geração perdida”, os chamados “jovens transviados”, que existiram também em Natalentre o fim da década de 50 e começos da década de 60.

Que esses jovens poderiam fazer numa cidade provinciana demais, sentindo o peso da inércia e da falta de diálogo com os pais? Procurar os caminhos da aventura  e das novas sensações, fumar maconha e currar alguma jovem nos caminhos escuros dos subúrbios.

Em sua apresentação, Newton Navarro diz muito bem: “ Geração dos Maus” não esconde nada da vida do nosso dia-a-dia. Mas também não falseia. Mas, ainda mais, não insulta. E da maneira mais superior deixa entrever os tortuosos caminhos onde pode cair, aos tropeços, uma geração que a falsa sociedade  ou a família desajustada pode empurrar numa displicência criminosa”. E sobre o autor: “ Mas não desespere. E o milagroso, na sua idade, é esse não desesperar. Sabe a fórmula chapliniana de suportar o amargo”.

O personagem narrador, Carlos, é o jovem pequeno-burguês, que se deixa seduzir pelo oásis da vida dos play-boys, vestidos de blusões pretos, e fazendo pegas em motos balhorentas, sem respeitar os sinais. Entrosa-se com essa turma em um percurso de liberdade, que o faz também conhecer certos protagonistas da comédia social: industriais cornudos, cronistas sociais afrescalhados.

Em um estilo ágil, quase telegráfico, o então jovem autor vai flashiando o instantâneo do cotidiano de Carlos. Em certos trechos, chega a ser tão sintético que define situações complicadas com uma única palavra, deixando ao leitor a tarefa de certos acontecimentos que poderiam ter acontecido no enredo: “ Roendo. Mulheres. Desgraça.”

É um romance juvenil. Com toda a vitalidade da pessoa jovem.

 

(In  Jornalzinho do Sebo Vermelho)