Carlos Roberto de Miranda Gomes, advogado e escritor

Nas minhas divagações existenciais, uma das manias que tenho é o cinema. Nesta semana tive o privilégio de assistir, dentre outros filmes, duas pérolas da 7ª arte, ambas envolvendo como centro da história a figura de um cavalo.

“O cavalo de Turim” é uma película oriunda da Hungria, em preto e branco, quase sem diálogo, mas exuberante nos ritos dos integrantes do drama. Teria se passado no longínquo ano de 1889, tempo em que vivia o polêmico filósofo Friedrich Nietzsche, que protagonizou o episódio entre um cavalo e o seu dono, onde este, pela teimosia do animal, o chicoteou severamente. Não suportando o ato Nietzsche teria interrompido aquele ato brutal abraçando-o. Levado do local por pessoas amigas, teria meditado por dois dias em sua casa, após o que quebrou o silêncio e exclamou para a sua mãe: “Eu sou um tolo”. A narração se encarrega de completar que o filósofo teria vivido por mais 10 anos, entre calmo e louco, aos cuidados de sua mãe e irmãs.

A história agora se desenvolve sobre o destino do cavalo, seu dono e sua filha, numa rotina onde o silêncio era constante e os gestos comuns e repetitivos, numa rotina que deixa o expectador numa dúvida atroz sobre o significado daquele drama, desenvolvido com a perfeição dos atores e efeitos das tomadas de cena.

 

Em seguida deleitei-me com “O Cavalo de Guerra”, produção atualíssima, tendo a sombra do monstro sagrado do cinema Steven Spelberg e uma história banal, mas desenvolvida com extraordinária beleza, a par da produção de efeitos técnicos exuberantes. É um dos meus preferidos para ganhar algum Oscar na solenidade de amanhã.

A história data de 1914, no raiar da 1ª Grande Guerra Mundial, onde se registra a grande amizade entre um adolescente, Albert e um cavalo, a quem chama de ”Joey”, o qual foi por ele domesticado e que, por circunstâncias diversas é vendido para servir ao Exército Britânico que o leva para o “front”. O jovem, ainda que pretendesse, não poderia acompanhar o seu animal por falta de idade.

Daí por diante o cavalo entra na frente de guerra, conduzido por um oficial que, sendo morto em batalha, deixa “Joey’ a mercê do destino e cai nas malhas dos soldados alemães e destes para um fazendeiro solitário, que vivia com sua neta, sendo novamente confiscado pelo Exército Alemão, voltando ao “front” para servir a outra bandeira. Nesse ínterim Albert se alista e vai para a frente da luta quando, em uma determinada batalha, “Joey” se assusta com os canhões e sai em disparada enlinhando-se em armadilhas de arame farpado, prostrando-se imobilizado pelo arame.

Quando em uma breve trégua noturna nas trincheiras, os soldados de ambos os lados notam o desespero de um animal e um soldado, movido por um espírito humanitário, levanta-se da trincheira e com uma bandeira branca caminha para salvar o cavalo, sendo respeitado e correspondido pelos soldados inimigos que o ajuda a desvencilhar o animal de sua tortura, fazendo-o retornar às trincheiras britânicas, bastante ferido a ponto de ter sido ordenado o seu sacrifício, sustado pelo milagre da presença de Albert, ferido, com a visão provisoriamente comprometida e que, acompanhando os assobios ou outras formas de atrair o cavalo, emite um som especial que fazia com as mãos desde o tempo em que domesticou “Joey”. Este pressente o seu antigo dono e vai em sua direção, interrompendo a sessão do sacrifício. Todos se compadecem e passam a cuidar das feridas do animal, coincidindo com o término da guerra, com a determinação da venda do espólio disponível do Exército, inclusive os animais. No leilão, os soldados se cotizam para garantir a posse de “Joey”, mas este é adquirido por um lance imbatível de um velho pecuarista (o velho avô da fazenda por onde o animal foi tratado pela sua neta, já então morta). Vencido pela fatalidade, Albert vai se despedir do amigo e sensibiliza o velho, que lhe devolve um troféu que sempre acompanhou o cavalo (uma prenda de guerra do pai de Albert) e, agradecido pelo gesto, já em retirada, o velho o chama e devolve o cavalo. Termina o filme com o retorno dos amigos à sua morada originária, recebido com emoção pelos pais.

Vamos acompanhar pela televisão a entrega dos Oscares e conferir o que dirão os jurados para essa película recheada de amor e humanismo.