Eduardo Gosson

Cinqüenta e quatro anos depois da realização da 1ª Semana de Arte Moderna, em São Paulo/SP, ocasião em que ficou consagrado definitivamente nas nossas letras o polêmico, belíssimo e controvertido movimento de renovação: Modernismo. Essa conseqüência surgiu da necessidade urgente de inovação estética, filosófica, cultural e social, pois em época alguma um movimento durou tantos anos.

Desde 1950 novas tendências estão surgindo, como: Poesia Concreta, Literatura Práxis, Poema-Processo, etc.

A Poesia Concreta caracteriza-se por uma estruturação: ótico-sonora, ótico-verbal. Os teóricos do movimento são: Mallarmé, Ezra Pound, Joyce e Cumming, devendo-se salientar que Jorge Fernandes foi o primeiro, embora, talvez intuitivamente. No seu Livro de Poemas, editado em 1927 aqui em Natal, podemos observar no poema Rede, sinais de Concretismo.
Eis alguns exemplos de Poesia Concreta: de Jaumir Andrade, poeta da terra, um poema interessantíssimo:

1) Do Nosso Amor
Nosso amor foi uma estória sem amor
U e c e u q u o l n E
ro
lou
pela
escada

t r i
t u r
o
-
u s
e

2) eixoôlho
polofixo
eixoflor
pesofixo
eixosolo
ôlhofixo

À medida que o leitor ler o primeiro poema, vai tendo a idéia do que ele significa. (Isto é, a palavra ENLOQUECEU, desordenadamente dando a idéia de loucura). ROLOU PELA ESCADA, dá a idéia de uma escada e a palavra TRITUROU-SE, dando a impressão de uma coisa toda esfacelada ou melhor dizendo, triturada.
Outro movimento é a Literatura-Praxis, tendo como nome principal Mário Chamie.
O Poema-Processo, este para melhores informações trouxe um dos melhores críticos de arte do Brasil, como também um dos idealizadores do movimento, ANCHIETA FERNANDES.

Como surgiu a idéia do Poema-Processo?
Em 1966 um grupo de poetas jovens estava comemorando os dez anos de Poesia Concreta (isto é, os dez anos comemorativos da 1ª primeira exposição de Poesia Concreta no Brasil). Passado um ano, através de debates de grupos e também através de correspondências trocadas com poetas de vanguarda do Rio de Janeiro/RJ (Moacyr Cirne, Álvaro de Sá, Wladimir Dias Pino) chegou-se a conclusão da necessidade de uma evolução poética do estado puramente verbal para o estado da pesquisa Semiótica (isto é, pesquisas dos sinais não exclusivamente verbais).

Qual a diferença entre Poesia Concreta e Poema-Processo?
Poesia Concreta se limita ao poema gráfico impresso, a passo que o Poema-Processo implica outros níveis comunicativos, tais sejam: o objeto-poema, a ação-poema (uma passeata dos poetas-processos num festival de poesia em Pirapora/MG foi considerada em si como um poema). Outra diferença: é que o Poema-Processo tem a teoria das versões a qual diz que um poema não é único, não se esgota em sua primeira materialidade, e sim pode existir versões outras construídas ou pelo próprio autor inicial da idéia ou por outro autor. Daí que o Poema-Processo democratiza a idéia da realização coletiva não limitando ao egoísmo do copy-right.

Onde e quando foi a 1ª Exposição?
Inaugurada aqui em Natal/RN no dia 10/12/1967 no Museu do Sobradinho.
Como o público sentiu as novas tendências poéticas?

A princípio foi um choque na própria sensibilidade habitual, que não estavam acostumados a ver aquela nova maneira de dizer que algo era poema. Posteriormente, enquanto os intelectuais prosseguiram dizendo que nada daquilo era poema, teve-se a notícia dos seguintes fatos: 1) um operário no Rio de Janeiro, ao ver o poema 1822 de Nei Leandro de Castro, exclamou: “-puxa! Isto diz mais coisas que um livro de quinhentas páginas;” 2) uma lavadeira de roupas em Cataguases/MG, fez ela própria uma versão do poema EDUCAÇÃO de José de Arimatéia S. de Carvalho; e 3) aqui no RN o camponês Apolinário F. de Carvalho declarou entender das teses e das propostas do Poema-Processo.

Quais os principais poetas-críticos do Poema-Processo?
Foi boa a ligação dos termos (poeta e crítico) porque atualmente só se admite um poeta consciente que seja um crítico também. Então no Poema-Processo cita-se os nomes de: Moacyr Cirne, Álvaro de Sá, Falves Silva, Hugo Mund Júnior, Enoch, Wladimir Dias Pino, Dailor Varela, Deise Lacerda, Samaral, Ronaldo Pirassu.

Para uma visão maior do problema, quais os livros que você indicaria?
Processo: Linguagem e Comunicação de Wladimir Dias Pino; Poesia de Vanguarda no Brasil de Antônio Sérgio Mendonça; Explosão Criativa dos Quadrinhos de Moacyr Cirne; Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro de Gilberto Mendonça; Semiótica e Literatura de Décio Pignatari; Introdução à Semiánalise de Júlia Kisteva.

(In Jornal Equipe, ano 1, nº 1, dezembro/1975, págs. 4 e 5, Natal/RN)