Desafios para o setor exigem ação continuada e integrada entre poder público, artistas, sociedade civil e iniciativa privada. Parceria com a educação deve ser considerada estratégia fundamental  Chico Pelúcio *  Não é possível almejar a sustentabilidade na arte e na cultura sem criar uma profunda, consequente e continuada relação entre educação e cultura. Essa afirmação, que parece tão óbvia, é, na verdade, a mais esquecida nos debates e nas ações que envolvem os atores desses dois segmentos.  É inegável a evolução da realidade da cultura em nosso país nos últimos 10 anos. Certamente, o amadurecimento das discussões e a participação da sociedade civil têm levado o poder público a implementar ações consonantes com os seus compromissos constitucionais com a arte e com a cultura. Entretanto, se levarmos em consideração a afirmação acima, veremos que tudo se torna paliativo, frágil e sujeito a retrocessos tão comuns na nossa vida política. Se não buscarmos um ambiente em que a arte e a cultura passem a fazer parte do cotidiano do cidadão, falar em sustentabilidade é inócuo e inútil. Essa realidade só será conquistada a partir do momento em que o diálogo entre educação, cultura e sociedade (com ênfase aos artistas e produtores) aconteça e encontre caminhos de se inter-relacionarem de forma profunda e continuada. Esse cidadão somente terá a arte e a cultura como fundamentais em sua vida se, desde criança, dentro e fora de escola, for incentivado a olhar o mundo de forma mais humana e sublime. O espírito da arte, o belo, hoje não encontram espaço no vocabulário “político-economês”, em que só os índices e os números são relevantes e considerados determinantes para construção de uma sociedade sadia. Faz muito sentido um novo parâmetro já existente de avaliação de um país onde se mede a felicidade das pessoas e não só os critérios hoje considerados pelo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Voltando aos avanços conquistados, podemos dizer que foram setorizados, desordenados e incapazes de propor caminhos de forma ampla e transversal. Já é passado o momento de pensarmos estratégias de médio e longo prazo que conduzam a cultura a uma realidade de maior sustentabilidade.   Hoje, a arte e a cultura dependem fundamentalmente do Estado, de suas leis e editais. O mercado é capaz de absorver apenas uma parte ínfima da nossa produção artística. Assim, ficamos visceralmente dependentes do Estado, que não consegue responder à demanda da arte e a cultura do país. Portanto, é necessário buscar a diversificação das fontes de recursos para a cultura.  A meu ver, as discussões e, consequentemente, as ações sofrem da incapacidade de articular, no mesmo pensamento, quatro instâncias que considero fundamentais para que isso, de fato, aconteça: 1) O poder público; 2) O segmento artístico; 3) A iniciativa privada; 4) A sociedade civil organizada. Obviamente, é fundamental que se busque ancorar as ações relacionadas a essas quatro instâncias em políticas de Estado, em leis que não só garantam sua permanência, como também criem formas de diálogo, complementaridade e transversalidade. Só assim poderemos vislumbrar a construção de caminhos sólidos para nossa cultura se desenvolver. O poder público  Cabe ao poder público o papel fundamental de capitanear a articulação dessas quatro instâncias em busca de uma política pública articulada para a cultura. Compete ao Estado antecipar-se na promoção, na discussão e na elaboração de novos pensamentos, convocando os setores à reflexão, promovendo a integração entre eles, estimulando as redes de comunicação e de compartilhamentos.  Hoje, o poder público se limita a responder com precários orçamentos e uma estrutura operacional ineficiente às demandas e reivindicações dos diversos setores culturais. Obviamente que o resultado está infinitamente aquém do mínimo esperado. O pouco conquistado em determinadas esferas públicas não oferece garantias de continuidade, de aperfeiçoamento e, muito frequentemente, como já mencionado, desaparece sem que nada aconteça. Reféns, ora de bons, ora de maus gestores, quase sempre padecemos da falta de políticas de Estado e de falta de interesse e conhecimento do Legislativo. Outro aspecto a ser considerado é a inconcebível falta de diálogo entre as instâncias federal, estadual e municipal. Esse isolamento, quase sempre consequência de interesses políticos menores, certamente não leva em consideração o cidadão e a sociedade. Voltando ao nosso tema, mais incompreensível ainda é o isolamento entre os órgãos de cultura e de educação. A cultura deveria ser tratada em sua transversalidade, porém, e estamos distantes disso. Como diz Ariane Mnouchkinepretora de teatro francesa, “cada ministério, cada secretaria de um governo deveria ter um departamento de cultura”. O segmento artístico  Do lado dos artistas, o que se verifica é uma paralisia atávica, muitas vezes, resultado de disputas partidárias e ideológicas. Sofremos também do mal da descontinuidade de nossas ações, de uma visão parcial da realidade e da incapacidade organizacional e representativa. Usualmente se pensa somente o próprio segmento artístico e não o setor cultural em sua totalidade. Volto a dizer: raramente estão em nossa pauta metas de médio e longo prazo.  Frequentemente as discussões se limitam aos financiamentos e às verbas e, agora como nunca, aos editais públicos. Os editais públicos são, sim, a melhor forma de se estabelecer uma relação do poder público com a demanda cultural. Entretanto, isolados e únicos, são insuficientes para resolver os problemas da produção artística. A seguir assim, continuaremos dependentes somente do balcão do Estado. É importante entender e reconhecer que a demanda da cultura (aliás, da saúde, do transporte, da educação, da segurança...) é infinitamente maior do que a estrutura e o orçamento públicos são capazes de atender.  Portanto, ficar unicamente dependente dos órgãos de cultura do poder público pode ser um erro estratégico, equivalente a colocar todos os “ovos num cesto só”.  Artistas, produtores, entidades e agentes de cultura deveriam buscar formas de colaboração conjunta que pudessem fortalecer sua relação com todos as outras instâncias citadas acima, criando redes de colaboração e sustentabilidade visando sempre o fortalecimento do elo entre a arte e o cidadão. Essa incapacidade de articulação tem impossibilitado a elaboração de uma pauta mínima de revindicações perante os poderes executivos e legislativos, enfraquecendo demasiadamente nossa atuação política. Temos de ser capazes de propor projetos consistentes e de continuidade. Temos que provocar o Estado a pensar a articulação da cultura com a educação. Temos de ser mais proativos e competentes. Gostaria novamente de destacar a importância das ações de continuidade. Não é possível pensar em sustentabilidade sem continuidade. Insisto nessa ideia, pois parece que vivemos a “era dos eventos”. É necessário mudar os conceitos norteadores das políticas públicas para a cultura na direção não do eventual, mas das ações continuadas e estruturantes. A iniciativa privada  Talvez essa seja a instância menos comprometida com a cultura e com o futuro do país. Aqui, de modo geral, somente se veem oportunidades, ou melhor, oportunismo. Essa também sofre do mal do imediatismo e é incapaz de ver que sua própria sustentabilidade será tanto maior e melhor quanto mais educada e preparada for a população do país. Afinal, não é desse mal que sofre toda a cadeia produtiva do Brasil nos dias de hoje? O crescimento sustentável de nossa economia não está dependente da melhoria da educação e formação dos nossos profissionais? Quando digo educação, essa está longe de ser a praticada pelo modelo vigente, que tem como objetivo a formação de indivíduos “úteis” para os tempos modernos. No atual sistema, eles querem qualquer Charles e nenhum Chaplin. Querem que sejamos eficientes como uma máquina, uma empilhadeira, mas certamente menos críticos, menos cidadãos, menos brasileiros, menos preparados para a democracia, menos sonhadores e menos tolerantes. Aqui se faz necessária uma ação conjunta entre o Estado e o setor cultural organizado. Tanto empresas como pessoas físicas precisam ser orientadas e conscientizadas, cobradas e levadas a se comprometerem com um país mais cidadão e educado.  Infelizmente, as iniciativas privadas têm em sua imensa maioria somente utilizado das leis de incentivo, fato também verificado em empresas estatais. Dentre elas, são raros os casos de investimento próprio na cultura.  A sociedade civil  Entre as instâncias citadas, a sociedade civil organizada pode ser uma grande aliada da cultura. Entendida como as associações de bairro, sindicatos, igrejas, ONGs, partidos, agremiações estudantis, organizações da sociedade civil de interesse público (oscip) e movimentos diversos, têm tido um maior diálogo com a arte e com a cultura. Objetivos como a democratização do acesso aos bens culturais, a descentralização da produção e da exibição, a preservação da diversidade, da identidade e dos valores simbólicos encontram nessa parceria um campo fértil para prosperar. Essas organizações, em sua maioria, buscam a melhoria de vida do cidadão, e consideram cultura uma prioridade. Assim, creio ser possível firmar parcerias fecundas e estabelecer projetos de colaboração que certamente terão maiores resultados.  É importante verificarmos que a mais forte interseção de interesses das quatro instâncias acima abordadas é na educação, por isso, certamente por meio dela temos mais chances de sensibilizar e despertar interesses de todas elas. É com essa parceria entre educação e cultura que poderemos alcançar, a médio e longo prazo, os resultados mais sólidos na direção a um país desenvolvido, sustentável e cidadão. Lamentavelmente, esse ainda é um terreno abandonado e sem nenhuma atenção. Vale lembrar: uma sociedade que não sonha é uma sociedade doente. * Chico Pelúcio é ator e diretor de teatro, integrante do Grupo Galpão e diretor do Galpão Cine Horto.   Estado de Minas 14/07/2012  (IN SITE CONTEÚDO LIVRE)