Não devemos baldar-nos para o facto de que todas as tipas são iguais. Diferenças, se as houvera, se calhar estariam na arte da coscuvilhice que até as abéculas percebem. Mas as gajas são todas umas batoteiras do caraças, a meter em sarilhos o ceboleiro que acreditar em suas aldrabices.

E conto-vos para provar que não é banha de cobra o que digo, porque não sou um areolas de chacha, mas um gajo engalinhado que hoje anda à nora e zamboado na boleia da solidão, como um parvo ou como catraio choné, peludo demais e descrente de todas as mulheres, mesmo que giras.

Não sou de engatar as miúdas que gramo com falinhas mansas. De natural, sou medricas no trato com elas. Por isso, apenas de longe estava eu atroços da senhora dona Urraca, a cultivar o meu amor platónico, já que ela era casada e tinha a reputação de ser honesta, a suar as estopinhas para manter limpa a casa e suportar o marido javardo.

Mas uma doença prolongada levou-lhe à senhora o rico maridito. E ao velório fui, e arreliei-me ao vê-la chorar baba e ranho, como as carpideiras, amanhada no aljube da dor recente que a viuvez lhe impusera. Por uma unha negra não lhe disse eu a verdade a respeito do ribaldo que ela cria honesto. Mas, se me afinei com a dor que ela sentia, não ia eu aumentá-la a fazê-la perceber o quanto a trombicava o falecido papa-açorda e aldrabão. E, por mim, pois, pois, por gramá-la à brava, não me apetecia provocar-lhe um vadagaio. Ai, Jesus, mas eu gostava de dizer-lhe tudo… O que fiz foi apenas aproximar-me dela, como um tanso, e contemplar-lhe o rosto vermelho como um braseiro por causa do lume das velas. E tive a lata de dizer-lhe, compungido, em um vincilho, numa escova piedosa:

— Senhor Dona Urraca, ando cá a pensar como o seu marido era um bom ponto, um tipo porreiro, um gajo realmente bestial. E como ele, pá, são poucos os homens que há.

E afirmei-lhe que eu gostava de vê-la de novo feliz. E concluí, como um nabiço:

— Faça o favor, pá, de aceitar minhas sentidas condolências.

E eu chamei-lhe “pá”, por força do hábito, como um mariola; envergonhei-me de minha descerimónia e, sem esperar que ela dissesse nanja, dei às de vila-diogo, com medo de que ela se encanitasse ou me passasse um raspanete.

Mas, bacoco que sou, com minha esperteza saloia, esqueceu-me o facto de que a senhora não era nenhuma vareira que vive a gritar com a canastra à cabeça, aquando as tem, que as sardinhas estão a saltar, porque era dama distinta e não iria armar um trinta-e-um pegado nem por uma data de pacholices que eu dissesse. Mas nem fui ao enterro, e saí de lá na pirisca, porque me ardia no remorso esse “pá” miquelino, como arde a alforreca à mão de quem-na pega.

E passou-se o tempo.

Durante alguns meses pus-me eu à espreita da senhora dona Urraca, sentado sobre a verde alcatifa que ladeava a azinhaga que morria à sua porta, ansioso por vê-la tornar à casa, após a missa, e desejoso de um olhar apenas, frioleira piramidal que me saberia como um prémio mais doce do que a um miúdo lambareiro lhe saberia um rebuçado. Mas um dia veio em que me não contive, apesar do tilicas que sou, e dirigi-lhe piropos a acarar-lhe o meu amor, a garantir-lhe o futuro com o meu aforro e a pôr-lhe termo à solidão de faca e alguidar, com minha ternura e desvelo.

Pois, pois. Mas a garina deixou-me banzado ao revelar-se-me a dissimulada que sempre fora: que ela alinhava comigo para xoinar ou bater patilha, como se fosse minha faneca, porém só aos domingos poderia andar na móina e coisar comigo, ou aquando estivesse apeada, porque, nos outros dias da semana, já a esperava a malta de cabrões lamechas que lhe ocupavam o leito à discrição. E afirmou-me que uns carcanhóis não lhe faltavam nunca, nem solidão sentira em dias da sua vida, nem sequer aquando o marido batera os tarecos.

Fui aos arames com a moscambilha de que fui vítima. Mas, por acaso, a dar-lhe um estalo na focinheira preferi educadamente afastar-me. E, embora ferido, meu coração teima ainda em perder-se no amor desnaturado. Mas eu sou mais forte e consigo naufragá-lo nos copitos de abafado. E nunca mais tornei a vê-la para não reacender a paixão que ainda está a dormitar nos perdidos da minha saudade.

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