Caro Eduardo Gosson,

 

Perdoe-me a ausência minha no início e no final deste evento que, para mim, foi maravilhoso. Revi pessoas que já estão aos poucos se tornando familiares, afáveis e, cada vez mais tocadas pela poesia. Tentei, o máximo que pude, falar da dor cortazariana de forma suave, diante da dor tão intensa que vi estampada em seu ser. A sua dor está para além dos seus olhos. Eu, que tive um aborto (nem conheci a face do meu filho), fiquei dilacerada, posso medir a intensidade da sua, gravitando entre o azul e o infinito. A sua dor, maior mesmo que você,  está canalizada, sublimada pela poesia e pelo encontro com amigos. A prova é o sucesso, se não de público (nunca devemos esperar muitos, quando o assunto Literatura), mas de organização, de seleção de conteúdos que passaram por nós e que ficarão guardados em nossas memórias e até revertidos em muita prosa boa e muita poesia. A partir de hoje, vou chamá-lo Eduardo Gosson, pensando que a doçura vem do primeiro e a fortaleza do segundo. E sempre que a dor doer, não a pessoana, mas a dor que deveras sente, leia a letras desta música de Gilberto Gil, de quem gosto muito:

“Se os frutos produzidos pela terra
Ainda não são
Tão doces e polpudos quanto as peras
Da tua ilusão
Amarra o teu arado a uma estrela
E os tempos darão
Safras e safras de sonhos
Quilos e quilos de amor
Noutros planetas risonhos
Outras espécies de dor

Se os campos cultivados neste mundo
São duros demais
E os solos assolados pela guerra
Não produzem a paz
Amarra o teu arado a uma estrela
E aí tu serás
O lavrador louco dos astros
O camponês solto nos céus
E quanto mais longe da terra
Tanto mais longe de Deus”

Forte abraço

Valdenides Cabral