​Muitos acreditam na existência de um ser superior, enquanto outros poucos ficam indiferentes ou ignoram, assim como também existem os agnósticos e os totalmente ateus. Mas, o certo (ou não?) é que foi criado um mito pelo medo do próprio Homem. E a essa criação deram o nome de Deus, que se supõe ser uma divindade suprema para amainar o desespero de um povo ou o seu sofrimento. Avaliem, então, se não existisse tal deificação, como não seria esse mundo, hein? Diria até que foi providencial e necessária para os que pretendem vivê-lo. E a presença, então, dessa divinização, se fez evidente. Afinal, já dizia o pensador dinamarquês Kierkegaard que ‘Deus é uma exigência do desespero, um postulado do existente’.                Assim como também o poeta e teórico da arte francesa Charles       Baudelaire polemizava e falava que ‘Deus é o único ser que para reinar não precisa sequer existir’. Mas, a dúvida sempre existirá e o mistério continua a inquietar gregos e troianos. Afinal, o Shakespeare ditou com sobriedade: ‘Existem mais mistérios entre o céu e a terra do que possa imaginar nossa vã filosofia’. Pois é...               Aqueles que tinham grande fé e esperança no universo, como o suposto profeta Isaías, clamando e afirmando achar que ‘a humanidade cessará de obrar mal, aprenderá a proceder bem, desejará a justiça e aliviará os oprimidos’, como também, com euforia e otimismo, dizer   que ‘abaterei a arrogância dos orgulhosos e humilharei a altivez dos tiranos’, nada tiveram de resultado no que afirmaram, já que – apesar do próprio Isaías ter vivido (dizem) no ano 750 a. C. – ainda hoje não procede tal ​visão entusiasta. Pelo contrário, a cada instante vemos mais corrupção, violência, menos justiça e mais ganância ao extremo. Quer dizer, a tão propalada profecia não vingou.    ​E o chamado protetor da humanidade Zoroastro que viveu mais ou menos na época do anterior? Professava ele que ‘é preciso ser honesto, não só em pensamentos, mas em palavras’. E atestando que o ‘nosso dever é ensinar amizade ao inimigo, probidade ao perverso e sabedoria ao ignorante’, detestava a mentira e sabia que ela ajudava ‘a regar a semente da falsidade’. Arrematando depois com sabedoria que ‘o maior inimigo do homem é a sua cobiça, pois ela engendra o ódio, e o ódio gera a violência, e a violência traz a morte’, absorvia-se na visão de um mundo melhor. Foi ingênuo e nada profético quando ditou seu conjunto de princípios, acreditando em seguida que ‘a vida será justa, sem dores e sem morte, livre do medo e da maldade’. Palavras bonitas, porém palavras que viraram somente cinzas. ​Acho que se os dois ditos profetas estivessem ainda vivos, não ​iriam suportar o insustentável peso de suas promessas verbais em vão e ​acabariam por entristecerem-se neste nosso vale de lágrimas.      ​Já o sábio Confúcio também não foi levado em conta, pois dizendo que ‘serão reprimidas as maquinações egoístas, e não terão ensejo de renascer; os ladrões e traidores não infestarão mais a terra...’, teve (e tem) suas palavras totalmente ignoradas pela ação contrária de uma boa parte. Enquanto isso, o mestre em letras Inácio de Loyola, que nasceu no norte da Espanha em 1491, afirmava categórico: ‘a ambição é a mãe de todos os males’.              Ao que o teólogo francês João Calvino, não acreditando muito no ser humano, deu o lembrete falando ser ‘o homem de todo incapaz de salvar a si mesmo, pois ele é totalmente mau’, afirmando depois que ‘o mal é o estado natural da humanidade, porque a soma de bem praticado não poderá resgatar a dívida inteira’. E o mestre citado foi ramificando suas doutrinas, culminando com a exemplar conclusão: ‘se um soberano administra mal, perde o direito de governar’.    ​Se este preceito último fosse levado a sério, não teríamos quase nenhum governante comandando ou administrando uma população, já que as malversações estão aí para se ver. E seria (ou é) um dever de todos governarem sem corrupção ou propagandas enganosas, pois foram colocados ali para isso. Afinal, para que servem os gordos impostos que   pagamos?                E como existem os que não acreditam em nada, também existem aqueles que acreditam em tudo. Contrariando o filósofo aí de cima, George Fox, um dissidente inglês que nasceu no século XVII, disse com certo otimismo: ‘vi que havia um oceano de trevas e de mortes; mas também um oceano infinito de luz e amor, que fluía sobre o de trevas’, propondo aos amigos entre si para ‘ensinar-lhes que só existe no mundo todo um único templo – o coração dos homens’.               Já um sueco do século XVIII, de nome Emanuel Swedenborg, foi ainda mais longe na sua crença ao afirmar que ‘o amor é vida; a vida é amor, o amor é a própria vida de cada homem’, isto porque ‘nada existe na natureza que se não assemelhe à sua origem, o espírito’. Acreditava  que a matéria era unicamente um semblante, uma manifestação de sentimento. Concluía, então, eufórico: ‘a morte é apenas a continuação da vida’.                 Somente como ilustração e curiosidade e um rápido intervalo, citamos aqui um rústico homem nascido nos confins dos Estados Unidos, de nome Brigham Young, aí por volta do ano de 1801. Foi uma figura inusitada, pois no curso de sua vida sustentou nada mais, nada menos, do que vinte e sete esposas e cinqüenta e três filhos. Não era filósofo coisa nenhuma, mas teve uma capacidade extraordinária de meditar na sua procriação.                No começo do século XX, morria Mary Baker Eddy, que nascera de uma família anglo-escocesa de lavradores. Ela dizia que estava ao nosso alcance ‘abolir a pobreza, a enfermidade, a aflição...’   Ensinava aos discípulos, corroborando opiniões anteriores, de que ‘não há vida, verdade, inteligência, nem substância na matéria’. Era uma mulher que difundia diariamente sua cota de orações e súplicas.               E surgiu também, nascido em 1869, Mahatma Gandhi, que, com seu carisma, cumpria uma missão singular. Dizia ele: ‘uma vez que não temos o poder de criar, não nos assiste o direito de destruir’. Numa possível vitória acerca da não-violência, cercava-se de confiança e arrematava de que ‘podem ser necessárias muitas gerações, mas no fim, o triunfo há de vir’. Mostrando-se indignado com governos que iam de injustiça a injustiça, pagou caro pelos seus atos. E foi morto pela fúria de um insano.           Neste mundo de contrastes, opiniões díspares, do bem e ​do mal, do negro e do branco, do bom e ruim, do rico e pobre, das concentrações de lucros, dos poucos que vivem, da desenfreada ganância de uns que somente pensam em si mesmos, dos outros que sobrevivem e dos muitos que apenas vegetam... Neste mundo de expressões ​idiomáticas (e, principalmente, idiotas), do verso, inverso e também anverso, parece não haver espaço para a imparcialidade, a humildade e a racionalidade.   ​       É um mundo onde a cada dia nos decepcionamos com a falta de bom senso. Afinal já dizia Sêneca, um dos mais célebres filósofos e intelectuais do Império Romano: ‘A maior decepção é aquela que vem de quem nunca esperamos’. E completava: ‘Acorrentadas por suas atitudes, as pessoas viram escravas de si mesmas’, para depois finalizar com estilo: ‘Uma grande riqueza é uma grande escravidão’, falando já aí do comportamento do ser (que se diz humano) de ter mais e mais somente para si.           Decepcionamo-nos, portanto, com a usura, a intolerância, a falsidade e o egoísmo de muitos. Poderíamos até dizer, sem freio nas palavras, que vivemos em um mundo imundo.                                                   Bené Chaves