TN: 04 de Novembro de 2012 (Quadrantes)

 Nelson Patriota  - Escritor 

Um aforismo de Walflam de Queiroz me ajudou a entender, ainda jovem, as dimensões do feminino. Ei-lo: "Uma mulher pode ser um abismo, como também uma flor na montanha". A frase continua: "No meu caso, encontrei um abismo. Mas somente no abismo encontra-se a verdade". E, à maneira nietzschiana, conclui: "Os deuses amam a profundidade, não o tumulto, dentro da gente". 

Quem trazia sempre à lembrança esse verso, a pretexto de tudo e de nada, era o meu amigo Djason Cunha (hoje Della Cunha e, como Walflam, também poeta, afora atributos de formação técnica em psicanálise), leitor antenado, à época, no "Livro de Tânia" (onde se acha o citado aforismo). De fato, essa obra vale como um repositório das tribulações sofridas pelo poeta em busca de amadas vaporosas e arredias, ainda distantes, em termos provincianos, das conquistas libertárias do feminismo.

Cheguei a conhecer Walflam e aprendi a discernir sua voz tonitruante, a que uma enfermidade do espírito elevou a imprecações impublicáveis, em fins de manhãs ou de tardes distantes, delimitadas no espaço estreito do festivo Café São Luiz, à época. Em momentos de calma lucidez, ele chegou a me distinguir com sua palavra em torno de um interesse comum, a língua inglesa, e de seus "divines", como gostava de se referir aos líderes espirituais ingleses, em sentido largo.

Graças à reedição de seus dois primeiros livros - "O Tempo da Solidão" (1960), e "O Livro de Tânia" (1963), reunidos em volume lançado este ano pela Editora Sol Negro, sob a chancela do poeta Márcio Simões, a poesia de Walflam de Queiroz volta a fluir em toda a sua placidez e tormenta em nossos dias, com os quais mantém uma forte e surpreendente afinidade. 

De fato, a leitura quer de um, quer de outro livro, se prova necessária à nossa literatura, em primeiro lugar, pelos méritos próprios e indiscutíveis do autor, leitor culto e refinado de poesia, em que dialoga com poetas da estirpe de um Poe, de um Rilke, de um Rimbaud e de um Crane. Em segundo, porque é indispensável reabilitar essa poesia que transborda hipérboles e elipses, rodopios à beira do abismo e convicções cambiantes. Mais tarde, a poesia encaminharia Walflam de Queiroz a planos espirituais irrespiráveis, onde só os místicos estão à vontade, razão por que os poetas contemporâneos aí não se aventuram. Os primeiros versos de "Poema" (em "O Tempo da Solidão"), dizem-no de modo incontroverso: "Procuro um alquimista que transforme meu tempo em eternidade e meu silêncio em diálogo".

Num simulacro de prefácio que escreveu ao seu "Livro de Tânia", Walflam faz uma profissão de fé na beleza, escolha que o aproxima sintomaticamente de Edgar Allen Poe e de sua definição de poesia como "criação rítmica da beleza". Essa busca, o levaria, em seguida, a John Keats, que estabeleceu como princípio que "uma coisa bela é uma alegria infindável" ("A thing of beauty is a joy forever"). Walflam o repetirá, no poema "Para Keats" ("O Tempo da Solidão"): "[...] Quero que todos saibam que, como Keats, a quem amo, / Verei para sempre, em todas as coisas, o princípio da Beleza". 

Isso não impediu que Walflam percebesse que algo daquela ideia de poesia como criação estética, com que comungava, estava em mutação, e que ao poeta não cabia mais decidir-se entre ser romântico ou simbolista. Nem mesmo ser modernista, mas simplesmente moderno, ou seja, aberto às demandas de seu tempo e "valorizando a tradição, porém não esquecendo a experiência do momento, a emoção que vem do contato permanente e constante com a vida".

É possível que Walflam tenha sobrevalorizado a parte final dessa sentença tão elucidativa de suas realizações poéticas: "o contato permanente e constante com a vida", pois, afinal, confessaria: "Sou como Heráclito. Todo fim representa um princípio. Tudo flui num ritmo eterno".