TN-VIVER 15 de Setembro de2012
Tádzio França
- repórter

Quem lê, viaja, afirma o certeiro dito popular. Porém, quando não há livros por perto, é preciso fazer com que a leitura "viaje" até o leitor. Iniciativas que facilitam o acesso à literatura existem há tempos, em todas as partes do mundo - como as pequenas bibliotecas nas paradas de ônibus de Brasília e em pontos estratégicos de qualquer grande cidade. Em território potiguar, os projetos na área ainda são poucos,  mas bem articulados. O itinerante BiblioSESC, e o fixo Livro Sem Fronteiras, nas estações de trem, estão próximos de completar um ano de atividades, com bons resultados. Já o programa Arca das Letras tem oito anos de circulação pela área rural do Estado, com grande aceitação. Cada qual, cria um novo capítulo de possibilidades no incentivo à leitura.

Emanuel AmaralBibliotecas itinerantes como a Bibliosesc e Arca das Letras, e fixas como o Livro sem Fronteiras, na estação da CBTU, mostram, cada uma à sua maneira, que é possível levar a leitura para perto das pessoasBibliotecas itinerantes como a Bibliosesc e Arca das Letras, e fixas como o Livro sem Fronteiras, na estação da CBTU, mostram, cada uma à sua maneira, que é possível levar a leitura para perto das pessoas


O BiblioSESC faz parte de um projeto nacional do SESC, e foi lançado no Estado em novembro do ano passado, durante o 3º Festival Literário da Pipa - Flipipa. Natal era uma das poucas capitais do país que ainda não tinha a biblioteca móvel montada sobre um caminhão. De forma itinerante, ela se movimenta quinzenalmente entre determinados bairros da cidade, proporcionando a leitura no local e o empréstimo de livros. O acervo é informatizado, e conta com 3.500 exemplares, entre literatura infantil, adulta nacional e estrangeira, religiosa e potiguar, além de jornais, revistas e gibis. O visitante pode levar até dois livros, ficar com eles durante quinze dias, e renovar se achar necessário.

O acervo é bem selecionado, reunindo clássicos, novidades, best-sellers e alta literatura, para vários gostos. Pode-se achar do Código de Trânsito Brasileiro até a série "Crepúsculo", passando por Miguel Nicolelis, Jorge Amado, Umberto Eco, Ítalo Calvino, Monteiro Lobato, Truman Capote, Neruda, Coetzee, entre outros, além de almanaques, enciclopédias e livros de arte. "Fazemos um trabalho para formar leitores, não é só chegar e ir embora. Nossa intenção é gerar encantamento pelo livro", afirma Ilsa Galvão, diretora de desenvolvimento social do SESC.

Emanuel AmaralTrailer da Bibliosesc com equipe circula pela Grande NatalTrailer da Bibliosesc com equipe circula pela Grande Natal

O caminhão do BiblioSESC recebe uma média de 200 visitas por dia. A unidade móvel conta com um itinerário fixo nos bairros de Mãe Luísa, Rocas, Nova Natal, Cidade da Esperança, Santa Catarina, Conjunto dos Garis e Felipe Camarão, além do presídio feminino em Parnamirim. Ilsa conta que os bairros foram escolhidos conforme levantamento feito para observar suas deficiências quanto a presença de opções de leitura. O raio de ação pode ser aumentado,  enviando um ofício ao SESC da Cidade Alta, afirmando o interesse  de levar a biblioteca até a comunidade. É realizada uma análise técnica para ver questões de trânsito e fiação elétrica.

Ao chegar no bairro escolhido, o BiblioSESC procura fazer parcerias com escolas, conselhos comunitários e igrejas, a fim de obter apoio logístico no local. No caminhão/biblioteca os visitantes são recebidos pela auxiliar Maria Bethania Lima. Ela orienta quanto as leituras, e faz o cadastro dos interessados em pegar um livro emprestado - basta levar identidade e um comprovante de residência. É montada ao lado do caminhão, uma área externa e coberta, com mesas e cadeiras, para quem quiser ler no local. Ela estima que houve até agora 8.500 empréstimos, num total de 13.552 consultas realizadas no mês de agosto.

"É comum os filhos pedirem aos pais para levar um livro também", diz Bethania. As crianças são sempre os visitantes mais entusiasmados, afirma Ilsa Galvão. O pequeno Cauã Morais, de cinco anos, confirmava a afirmação, enquanto se debruçava num livro colorido do acervo. Ele foi trazido pela mãe, a professora Andressa Pinheiro, que estava visitando o local pela primeira vez. "Acho ótimo que existam espaços como esse. Minha mãe, que também é professora, me pôs o hábito de ler, e quero poder incentivar meu filho desde pequeno também. Isso é muito importante", afirma.   

BIBLIOTECAS RURAIS EM FORMA DE ARCAS

O programa Arca das Letras desbrava o interior através dos livros. Criado em 2003, foi implantado no Estado a partir de março de 2004, sob coordenação da Secretaria de Estado de Assuntos Fundiários e Apoio à Reforma Agrária (Seara). É voltado para as comunidades rurais, algumas bastante remotas. Atua em 114 municípios, e fez do RN o estado com o maior número de arcas do Brasil. A arca é um móvel de madeira que comporta até 220 livros. O objeto fica sob gestão da própria comunidade, através dos agentes de leitura escolhidos no local. A secretaria faz um trabalho constante de diagnóstico e revitalização das arcas.

DivulgaçãoCrianças participam de atividades com os agentes de leituraCrianças participam de atividades com os agentes de leitura


"Até o momento temos 669 arcas/bibliotecas em funcionamento. Sempre há demanda, e prova o quanto o programa é bem sucedido", afirma Paula Valéria Ferreira, coordenadora do programa no Estado. Ela explica que o acervo é divido em quatro tipologias: livros infantis, didáticos, literatura adulta, e livros técnicos de agricultura - estes, são selecionados conforme as atividades da comunidade.  A ação dos agentes de leitura é essencial para o bom aproveitamento das arcas. São escolhidos dois, entre as pessoas mais articuladas da comunidade. "O agente faz um trabalho voluntário, e mobiliza a comunidade, faz contação de histórias e oficinas de leitura. A arca pode ficar na casa do agente, ou numa escola, na igreja, numa associação. A gestão é toda da comunidade", explica Paula. A Seara faz o acompanhamento. "Se por acaso não estiver funcionando em determinado local, a gente recolhe e leva para outra comunidade. Mas isso quase nunca acontece", ressalta. O acervo é comprado pela secretaria, mas também está aberto a doações. Para doar, basta procurar a sede da Seara em Lagoa Nova. Tel.: 3232-7267.

Emanuel AmaralAcervo da biblioteca itinerante é um dos mais atualizadosAcervo da biblioteca itinerante é um dos mais atualizados

Leituras enquanto o trem não vem

Uma leitura cai bem enquanto o trem não chega - e depois da viagem também. O projeto Livro Sem Fronteiras, fruto de uma parceria entre a CBTU e a organização Atitude e Cooperação, instalou pequenos pontos de leitura nas estações do Bom Pastor e da Ribeira, onde os usuários do transporte ferroviário podem ler revistas e livros na hora, e também levar emprestado, mediante um cadastro. Até o fim do ano, uma unidade móvel será colocada em funcionamento. O acervo carece de mais doações.

O Livro Sem Fronteiras começou em outubro de 2011, em Bom Pastor. Devido aos bons resultados, foi estendido para a estação da Ribeira em março deste ano. Segundo Raphael Albuquerque, assessor da CBTU, a intenção é estender o projeto para 22 estações, sendo que a maior dificuldade é captar os livros. "Muitas pessoas pegam os livros e não devolvem. Não achamos isso ruim, pois o livro está seguindo seu rumo, mas é preciso repôr. Dependemos das doações", explica.

O projeto conta com dois estagiários para orientar os leitores. A estação da Ribeira tem um acervo de 800 livros, e duas cestas de revistas. Para o empréstimo, basta deixar nome e endereço. "Não estabelecemos prazo de devolução, mas estamos pensando em tornar isso mais rígido ", afirma a pedagoga Jacinta Neuma de Araújo, da Atitute e Cooperação.  O projeto ganhará movimento quando entrar em ação o trailer de livros que circulará por diversos espaços e eventos. Até o fim do ano, entrará em operação. A doação de livros pode ser feita na sede da organização, na Rua Mipibu, prédio da Unimed. Tel.: 3220-6357.