Fabiana Moraes

Darcy Ribeiro, noventa anos hoje se um câncer não o tivesse matado em 1997, foi moderno demais para o Brasil. Moderno demais porque não estávamos – nem estamos – acostumados a ter entre nós um intelectual que não se privava da vida política, tampouco um político que não se privava do pensamento reflexivo. Esse aspecto é sem dúvida um dos pontos-chave para se entender a importância desse homem que, de maneira encantadora e descarada, tanto amou o País onde nasceu. Tinha uma obsessão comovente pelos seus filhos: índios, pretos, misturados, gaúchos, sertanejos, litorâneos. Formavam ilhas de brasileiros que juntos formavam o Brasil, que juntos formavam Darcy. Ele, ministro da Educação de João Goulart em 1962, tinha apenas 29 anos, espantava-se: porque cargas d’água não dávamos certo? Ou melhor: porque é que o Brasil deu errado?
Autora de Sociologia de um indisciplinado e coordenadora do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC/FGV), a socióloga Helena Bomeny diz que essa pergunta está no fundo de toda a produção intelectual do autor. Para ela, ele nunca deixou de questionar a responsabilidade da elite sobre nossa formação e situação, nossa má vontade em pensar uma educação integral, a estranha e recaldada aversão pela mestiçagem. Tais fenômenos, porém, não permaneceram na cabeça e na escrita de Darcy Ribeiro, que, munido de um saber excepcional, lançou-se às ruas. “Ele foi um intelectual público”, diz a pesquisadora, para quem o também ex-ministro-chefe da Casa Civil (aos 30, em 1963) faz parte de um momento nacional, localizado nos anos 60 e 70, onde o pensar acontecia fortemente ao lado do agir. “Celso Furtado e Florestan Fernandes também fazem parte de uma geração que pensou profundamente o desenvolvimento do Brasil, a travessia nacional de um local para outro. Eles apostaram energicamente nessa realidade”.
Essa convivência tão aproximada com a materialidade da política – e do seu pensamento – provocaram, é claro, fissuras e abismos na relação entre o antropólogo e o mundo. Uma delas se deu justamente entre ele e Florestan. Professora da pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco (PPGS/UFPE), a também socióloga Eliane Veras diz que, amigos de longa data, os dois pensadores divergiram e romperam relações no final da vida “por discordarem dos rumos que deveriam ser seguidos na elaboração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional”. No artigo Florestan Fernandes e os dilemas intelectuais contemporâneos, ela escreve que, segundo Heloísa Fernandes, filha de Florestan, os olhos de seu pai marejavam quando se mencionava o nome de Darcy.
Para Veras, Darcy Ribeiro é o intelectual que elabora uma teoria, propõe um programa político cultural de identidade nacional, coloca em prática suas idéias. “Os diversos momentos de sua trajetória são pautados pela produção de algo novo: a atuação no Serviço de Proteção aos Índios (SPI), a criação da Universidade de Brasília, dos Centros Integrados de Educação Pública (Cieps), da Universidade Estadual do Norte Fluminense, entre tantos outros projetos colocados em prática”, escreve. Helena Bomeny diz que as máculas deixadas pelo Darcy político no Darcy intelectual são próprias – e comuns – no processo de união das duas esferas. “Nem sempre política e cultura andam juntas. É só lembrar de Fernando Henrique Cardoso, que disse ‘esqueçam o que eu escrevi’ quando tornou-se presidente. Ele não podia ser cobrado como intelectual naquele cargo.”
Outra característica forte desse socialista moreno, do homem que pensou em um marxismo apropriado para a realidade nacional (um marxismo para índios, pretos, misturados, gaúchos, sertanejos, litorâneos) era sua produção exuberante, que fez Antônio Cândido escrever sobre “sua incrível capacidade de viver muitas vidas, enquanto a maioria de nós mal consegue viver uma”. Autora de O lugar do arquivo: a construção do legado de Darcy Ribeiro (Contra Capa/Faperj, 2012), a pesquisadora Luciana Heymann, também CPDOC/FGV, foi a responsável pelo projeto de organização do arquivo de Ribeiro, estimado em dezenas de milhares de documentos. “Mais do que explorar a documentação exaustivamente, minha pesquisa buscou analisar o lugar do arquivo na construção da memória, ou do legado, do personagem”, diz. Para Luciana, o arquivo, de certa maneira, contradiz a imagem do homem público que o próprio Darcy, que ocupava uma cadeira no Senado quando morreu, construiu para si, a de um intelectual inquieto e múltiplo, sempre envolvido com um novo projeto. “Analisando a documentação de seu arquivo percebe-se que alguns temas e projetos foram perseguidos por ele ao longo da vida toda, aparecendo em versões diferentes, separadas no tempo por décadas. Assim, por meio do arquivo foi possível entrever o caráter repetitivo da sua ação e o compromisso com a sistematicidade.”


Publicado no Jornal do Commercio, Recife, 26/10/2012