Viver é despedir-se – digo eu. “ Viver muito é doloroso porque a gente vai enterrando os outros” – diz o Mestre Oscar Niemayer. Essas duas citações vieram à mente depois que um ciclo de mortes se abateu sobre a nossa família, aniquilando toda uma geração: foi inaugurado por meu pai Elias Antonio Gosson, em 27 de fevereiro de 1990, vítima de infarto agudo do miocárdio, e encerrado agora no dia 27 de maio último com Fausto Gosson, meu filho. Seis irmãos e um filho partiram na Nau da Eternidade: Elias(1990) Francisco(1996), Hulimase(2002), Jamyles, José,  Jorge(2011) e Fausto(2012). Passarei a falar sobre cada um deles porque é preciso sarar o luto, enterrar os mortos e evitar o esquecimento.”Morrer não dói, o que dói é o esquecimento”, proclama um guerrilheiro da Nuestra América: o Subcomandante Marcos.


                                            Elias Antonio Gosson. Exatamente numa terça-feira de Carnaval morria meu pai; daí, em poema, eu ter escrito: “Meu pai morreu numa terça-feira de Carnaval/para não ver a quarta-feira de Cinzas.”. Duas metáforas: morreu moço, aos cinqüenta e dois anos de idade e evitou estender a melancolia que nos acompanha no ocaso da vida.Era natural de Maranguape/Ceará, filho de Antonio José Gosson e Sofia Hamaney Leide, ambos do Líbano, que ultrapassaram fronteiras em busca de novos horizontes. Os árabes ocuparam o Nordeste brasileiro nos primeiros trinta anos do século passado. Os Gosson (significa Árvore Frondosa em Árabe) que para cá vieram eram três irmãos: Antonio, Moisés e Abdon. Fixaram-se em no Ceará, em Maranguape, terra de Chico Anísio. Após alguns anos o mais moço – Abdon- veio para o Rio Grande do Norte; depois, o meu avô Antonio; Moisés preferiu ficar em Maranguape/CE constituindo família. Na velhice sempre vinha nos visitar e guardo na lembrança a seguinte imagem: aquele senhor costumava botar os pés numa bacia de água morna e começava a barbear-se e a filosofar: “ – meu sobrinho, essa vida sem uma ilusão é uma merda!”, num português arrastado.
Meu pai , dos seis irmãos, era o que tinha mais vocação para o comércio. Foi um misto de funcionário público, comerciante e jornalista. Escrevia semanalmente crônicas para os jornais, tinha um programa semanal na Rádio Trairi e foi presidente por longo 12 anos da Federação de Umbanda do RN. Na hierarquia do Candomblé chegou a ser babalorixá, o equivalente à cardeal no Catolicismo. Foi candidato a vereador na legenda do MDB nos idos de 1970 em dobradinha com Antônio Câmara, obtendo em torno de 152 votos. Foi quando compreendeu que a nossa Democracia é de araque: só ganha quem tem e quem sabe gastar dinheiro na compra de votos. Tinha três qualidades que agradam a Deus: 1. Humildade; 2.simplicidade;3.honestidade. Hoje, mora na Nova Jerusalém, ao lado da resplandecente estrela da manhã!