(Carlos Roberto de Miranda Gomes)

Mais uma vez a síndrome da insônia pressiona e valho-me do santo remédio do computador.

Abro a janela do primeiro andar, onde mantenho o meu companheiro de sonhos e dela recebo a brisa suave da noite, nestes dias de calor infernal. De lá, bem postado para o nascente, acompanho o silêncio do meu Barro Vermelho, suas ruas e ruelas, dos últimos notívagos que retornam ou dos primeiros obreiros que começam a jornada do dia.

De repente, pareço ver algumas figuras tradicionais do bairro, num relance da minha imaginação, mas logo descortino a realidade e vislumbro a majestade dos arranhas céus que já povoam este território e, de quando em vez, um tiquinho de natureza como a nesga que ainda posso ver do velho e histórico campo de esportes do Colégio Marista.

O que fazer agora, apenas deixar as horas passar? Não, prefiro refletir sobre as minhas leituras mais recentes, no caso as crônicas do meu sempre lembrado Edgar Barbosa, em coletânea organizada pelo amigo Nelson Patriota.

É um trabalho primoroso publicado pelo selo da EDUFRN, dentro da série ‘Coleção Nordestina’ – Volume I, compreendendo os artigos e crônicas do período de 1927 a 1938, embora tenha escapado alguma coisa de outra época, como os artigos ‘A política de paz armada’, datado de 01/02/1939, ps. 117/118; Fim de sessão, de 08/02/1939, ps. 127/128 e ‘Grandeza e Decadência’, ps. 147/149 publicado em O Diário, que só foi criado em setembro de 1939 e onde fala em ‘televisão’, novidade desconhecida nas décadas reportadas. Claro que isso não tira nenhum tiquinho do mérito da obra, mas apenas mostra a atenção de um leitor chato como eu.

Não sei dizer o que mais me agradou, dentre os vários escritos enfeixados em temas sobre Livros & Autores, Personalidades, Jornalismo, Cidades, Política, Música e Várias. Contudo, aleatoriamente, grifei algumas frases: ‘Assim é a nossa literatura. Precisa de quem lhe ressuscite e revigore a beleza, escondendo-lhe o viço agreste e o aroma de virgens salvas de que falava o poeta altíssimo. Neste sentido, amando o passado, conseguiremos engrandecer o presente. (A Volúpia do Passado, p. 45). Mais adiante: Diz Nabuco que “o traço todo da vida é para muitos um desenho de criança esquecido pelo homem, e ao qual este terá sempre de se cingir sem o saber”… (Desenho Animado, p. 53).

Também me despertou a atenção, logo no início – p. 16, a indicação final ‘s/d.’ que era a forma como se registrava a pessoa que datilografava um trabalho – quem teria sido s/d? Como tal eu me identificava como ‘/crmg.’ou teria apenas o significado de sem data?

Enfim, tudo me encantou – a erudição, a fidelidade dos registros, as críticas e, de modo especial, o estilo. Neste último caso, vale exemplificar com o seguinte trecho:

Você infincou-se em nosso liguajar com uma audácia de bárbaro turbulento. Agora, em cada avenida, em cada rua tatuada de sol, em todas as casas, em todas as reuniões, o dissílabo indiscreto e íntimo salta dos lábios, dança na boca, corre elegantemente pelos salões como a expressão mais carinhosa do idioma patrício.

Você… Você serve para todos os instantes. Você briga quando quer e enternece quando não quer. Você ainda é um objeto invisível, mas que todos desejam, todos anseiam, todos preferem… Você é ingenuamente espiritual, porém materialmente carinhosa. Você garoteia pelas avenidas gritantes de gente e de automóveis, mas não se atropela, não cai, não escandaliza… e entretanto o vestido de você é bem curto e bem decotado…

Você é moderníssima. Você só declama Paulo Fort e só guncha canalhamente as canções do Quartier Latin, cheirando a Pátio dos Milagres.

Às vezes você adormece nas calçadas como um embriagado que cansou na caminhada geometricamente duvidosa…feita de ziguezagues…de curvas indolentes…de indecisões pedestres…

Aguardo, ansiosamente, os volumes que se seguirão. Sebo na munheca Nelson!

Os primeiros cânticos dos pássaros do meu quintal avisam o fim da madrugada. Nuvens carregadas insistem em disputar espaço com o bocejo dos primeiros raios do sol, ainda pálidos. Preciso descer, antes que a mulher acorde. Já sinto o cheiro do café e já ouvi o soar dos jornais jogados sobre o muro, à moda americana. Vou começar a labuta, aguardando ansioso pela nova madrugada.