QUATRO ANOS DEPOIS, NOVO SECRETÁRIO SE PREPARA PARA ASSUMIR NOVAMENTE A DIREÇÃO DA CAPITANIA DAS ARTES; O OBJETIVO, PORÉM, É CRIAR A SECRETARIA DE CULTURA

Rafael Duarte
DO NOVO JORNAL


Dácio Galvão, novo titular da Funcarte

Dácio Galvão está bem à vontade. Embora não pareça afeito a clichês, esse filme ele já viu. Com um cenário um tanto diferente, é verdade, mas o roteiro é basicamente o mesmo. O jeito tranquilo também não mudou de quatro anos para cá. A sandália havaiana e a estampa de Rita Lee na camiseta branca revelam muito da personalidade do futuro secretário municipal de Cultura. Ex-hippie e fã incondicional de Caetano Veloso, o segundo filho mais novo do advogado Hélio Galvão, um conservador à moda antiga, vai reviver uma experiência que lhe esgotou no passado a ponto de ter desmaiado cinco vezes nas últimas semanas de trabalho. Mas no final deu tudo certo. Ufa!

Aos 55 anos de idade, Dácio Galvão assume a Capitania das Artes (Funcarte) pela segunda vez a partir de 1º de janeiro. Por pouco tempo. A intenção do prefeito eleito Carlos Eduardo Alves é criar, ainda em 2013, a Secretaria Municipal de Cultura, órgão mais sólido do ponto de vista jurídico e com orçamento garantido.

“A secretaria seria criada em 2009, na continuidade da gestão, mas perdemos e tudo o que fizemos e o que deixamos encaminhado eles não continuaram”, diz o futuro secretário, que garante não olhar pelo retrovisor daqui para frente. “O prefeito Carlos Eduardo já disse que vai fazer uma auditoria nas contas da prefeitura. E nós vamos olhar lá na frente”, comenta.

Dácio Galvão diz que ainda não se debruçou sobre a questão financeira, mas pediu e Carlos Eduardo já deu o aval: seguindo a orientação da Unesco, a cultura receberá 1% do orçamento geral do município. Em valores absolutos, porém, esse percentual representará algo em torno de R$ 20 milhões neste primeiro ano.

Dácio está na fase de formatação da equipe e da formulação dos projetos para apresentá-los diretamente ao segmento artístico. Galvão é reservado quando questionado sobre os planos de trabalho. “Ainda não sou secretário, fui anunciado, mas não sentei na cadeira. Então fica difícil de falar sobre algo que ainda não aconteceu”, diz.

Apesar do receio de falar como titular da pasta, Dácio sabe que o trabalho do passado liderado por ele na cultura municipal foi importante para a aprovação da gestão de Carlos Eduardo agora. Reconhece, porém, o valor de toda a equipe. Formado em Letras pela UFRN, procura sempre falar na primeira pessoa do plural e pede para que, durante a edição da entrevista, se o ‘eu’ escapar, que seja substituído pelo ‘nós’. “Não fui eu que fiz as coisas sozinho, o trabalho foi coletivo, de um grupo obstinado”, frisa.

Embora tenha ideia do que pretende fazer nos próximos quatro anos, o futuro secretário diz que não quer impor nada. Espera ouvir os artistas e produtores da cidade, mas adianta que acatará sugestões desde que haja disposição para o diálogo. “Não vou chegar com uma ideia pré-concebida. Tenho o que dizer, mas quero reunir o segmento artístico numa conversa e ouvi-los. Tem que haver diálogo, não pode ser por imposição”, afirmou.


Calendário volta e secretário faz balanço positivo

A primeira gestão de Dácio Galvão à frente da Funcarte ficou marcada por uma programação fixa de eventos na cidade. A prefeitura descentralizou o carnaval ao criar polos em bairros diferentes, o Dia da Poesia foi institucionalizado, o calendário junino também foi reformatado, o Encontro Natalense de Escritores (Ene) pintou como novidade em meio ao boom de feiras literárias pelo país e o período natalino virou vitrine a partir dos investimentos na produção dos autos de Natal e da realização de shows musicais com artistas da casa e nacionais. 

Dácio foi aplaudido pelas iniciativas, mas também recebeu críticas. A repetição de algumas atrações de fora, ainda que populares, foi motivo de queixas. A disparidade entre os valores dos cachês de artistas locais e nacionais alimentou a eterna polêmica sobre o assunto. 

“Eu acho esse debate sobre cachês uma bobagem. Quem regula isso é o mercado. No Rio Grande do Norte mesmo você tem artistas que podem cobrar R$ 10 mil e outros que valem apenas R$ 2 mil. Quem define o preço é o mercado”, afirmou o futuro titular da Funcarte, que adiantou que a prefeitura não vai padronizar os cachês dos artistas de Natal que se apresentarem em eventos organizados.

Já em relação à repetição, na época, de artistas nacionais em shows abertos ao público, ele afirmou que aceita as críticas. Porém, justificou que, num cargo de direção, a vontade do chefe nem sempre prevalece. “Você tem que analisar a opinião de várias pessoas, e não apenas a sua. O resultado final nem sempre bate com o que você pensa”, disse. 

De bastante apelo popular, eventos como o Natal em Natal, que tinham na produção dos autos e dos grandes shows os pontos altos, também provocaram debates no meio artístico. A função desse tipo de evento chegou a ser questionada. Dácio discorda. Para ele, os autos, principalmente, foram importantes e contribuem tanto para a formação do público como dos artistas. Ele lembra que implementou um rodízio da cadeia produtiva dos espetáculos que contaram, de várias formas, a história do nascimento de Jesus Cristo. 

“Mudamos os diretores, os autores, os artistas e os músicos que fizeram as trilhas sonoras. Esse rodízio foi muito importante. E não é sempre que você acerta. Você tem que ter cuidado também para, com uma mudança, não mexer demais e passar do ponto. Fizemos algumas experiências boas e outras nem tanto. Mas o sistema de rodízio foi muito importante”, recorda.


Internacionalização do ENE e prioridade para o carnaval


Foto: Eduardo Maia/NJ.

Dácio Galvão, novo titular da Funcarte

A ideia é reativar tudo o que a gestão Micarla de Sousa parou. A prioridade máxima, até pelo pouco tempo, é o carnaval. Dácio Galvão vai manter o mesmo esquema de polos descentralizados nos bairros, mas ainda não fechou a programação. Embora não saiba quanto de verba terá para investir, sentiu disposição do futuro prefeito para pagar a festa. “O prefeito Carlos Eduardo pediu para a gente montar uma programação que ele iria buscar os recursos junto a parceiros na iniciativa privada. Já comecei a conversar com algumas pessoas, quero ter um coordenador que pense o carnaval com a gente”, disse. 

O Encontro Natalense de Escritores (ENE), outro projeto vitorioso da gestão dele, também deve ser ampliado. Galvão pensa em internacionalizar o evento trazendo escritores de língua espanhola e portuguesa. Um entrave que ele espera resolver é a questão da tradução simultânea. “Temos esse problema, tem que ver custo de equipamento, isso ainda vamos analisar para saber como funciona. Mas a ideia é trazer gente de fora, escritores de língua espanhola, fica mais fácil de entender”, comentou. 

Outra novidade da gestão será a incorporação do artesanato à cultura. O segmento estava sendo organizado pela secretaria municipal de Trabalho e Assistência Social (Semthas), mas ficará sob a guarda da Funcarte a partir de agora. Segundo Dácio Galvão, a ideia é dar protagonismo aos artistas que fazem artesanato em Natal. “Você muda essa realidade no artesanato dando protagonismo aos artistas. A população não conhece os artistas daqui. Trazendo para a cultura vamos desenvolver um trabalho voltado para esse segmento específico”, disse. 

A região mais populosa de Natal também deve receber apoio e incentivo. Dácio pensa em ir além do espaço cultural Chico Miséria, criado em sua gestão. Para ele, o corredor cultural elitizado da cidade que vai das Rocas até Ponta Negra, absorvido especialmente pela classe média, não é acessível aos moradores da Zona Norte, por exemplo. A ideia é desenvolver ações na região. “Somente o espaço cultural Chico Miséria é muito pouco. Fui com minha filha a uma consulta lá na Zona Norte e fiquei pensando como aquela região é grande e mesmo assim recebe tão pouco investimento em cultura.Tirando aquele corredor cultural elitizado que vai das Rocas a Ponta Negra, não existe mais investimento em outras regiões”, analisou.

 

Ex-hippie e apaixonado pelo tropicalismo

Dácio Galvão fazia as próprias botas que calçava e se vestia com as cores da rebeldia. Os cabelos eram longos, assim como a barba. O Woodstock era o cenário mítico, a poesia o escape do real. As experiências eram fecundas. Os versos começaram a aparecer aos 12 anos. Ser hippie, na primeira metade dos anos 70, era o sinal dos tempos. 

O tropicalismo foi o movimento que lhe arrebatou de primeira e Caetano Veloso é, ainda hoje, o mito. “Caetano foi o artista que mais trabalhou a música como poesia”, diz hoje, mais de 30 anos depois. Naquela época, Dácio mergulhava entre os discos e livros trancado no quarto. Filho do historiador e advogado Hélio Galvão, conservador identificado com os Alves e estudioso de manifestações populares como o romance e o coco de zambê que ainda se mantém em Tibau do Sul, a relação dos dois preservava o espaço de cada um. Quando o pai morre, em decorrência de diabetes, Dácio tinha 24 anos. “Foi um baque grande. Meu pai sempre percebeu minha ligação com essa área da cultura. Nessa época, quando ele morre, estávamos nos aproximando mais, conversando mais”, recorda. 

Uma das preocupações deixadas em testamento por Hélio era em relação à biblioteca. Os filhos atenderam ao pedido de não trancar os livros e criaram a Fundação Hélio Galvão. “Papai queria que a biblioteca fosse aberta. Os 11 filhos doaram a parte daquela casa onde funciona a Fundação hoje. Cada um podia ter ficado com sua parte e viajar para a Europa, que está na moda, mas todo mundo entendeu e criamos a Fundação”, conta. 

Por indicação de um cunhado, Dácio trabalhou da TV Universitária como câmera man e editor de imagens. Lá entrou em contato com artistas e fez várias experiências visuais. Também foi revisor da Tribuna do Norte, onde também assinou uma coluna no início dos anos 90. Dácio saiu de Natal para morar fora uma única vez. Foi quando, já casado, precisou levar um dos três filhos para fazer um tratamento no hospital Sara Kubitschek, em Brasília. Na capital federal, trabalhou no gabinete do deputado federal Henrique Alves (PMDB). De volta a Natal pouco tempo depois, continuou trabalhando com o deputado até chegar a Fundação José Augusto. Amigo do prefeito Carlos Eduardo, Dácio foi convidado para assumir a Funcarte na primeira administração. Durante a boa gestão que realizou na cultura municipal, os comentários de que Dácio tinha carta branca do prefeito ainda hoje o deixa irritado. 

“Eu nunca tive privilégio, todos os secretários tinham o mesmo valor. Agora Carlos Eduardo sempre valorizou a cultura. Eu chegava com uma ideia, apresentava, ele analisava e dizia o que achava. Deu muito apoio”, afirmou.