Num reino à beira do rio, de Rachel Jardim. Editora José Olympio, 184 páginas.
R$ 32
Por Elias Fajardo*



Houve um tempo em que as moças faziam cadernos de poesia, nos quais copiavam os versos de sua predileção. No início da década de 1920, a pedido da jovem Maria Luiza de Carvalho, seu amigo, o poeta Murilo Mendes, copiou 37 poemas num álbum que, com a morte de Maria Luiza, passou às mãos de sua filha, a escritora Rachel Jardim. Murilo ainda não tinha publicado poesia, o que viria a fazer alguns anos depois. Mas sua paixão pela literatura já era grande e diversificada, conforme se pode ver por aquilo que escolheu e transcreveu.

Além dos originais dos textos com a letra caprichada de Murilo, “Num reino à beira do rio” traz um relato memorialístico de Rachel Jardim, que passeia por tempos e espaços da Juiz de Fora de antigamente, e ainda a análise crítica dos poemas com um breve perfil de seus autores, feita por Alexei Bueno.

Na época em que o álbum foi escrito, Maria Luiza tinha 17 anos e Murilo 18, e Rachel encontrou nele elementos para reconstruir sua cidade natal, “traçar seus contornos urbanos, visualizar a forma de viver de uma sociedade hoje bastante transformada”. A viagem da autora em torno dos manuscritos tem momentos de sensibilidade e de resgate carinhoso do passado, como se pode ver neste trecho: “Em cima do pátio na casa da rua da Imperatriz onde a imagino lendo, nuvens grossas como asas de anjos certamente percorriam o céu mineiro. Esse mundo de irrealidades cobria também a cabeça de Murilo quando caminhava pelas ruas da cidade e, numa noite, seus olhos contemplaram o cometa Halley. Aqueles sons, esses instantes, as sensações, todo um mundo secreto e paralelo aproximaria aqueles dois seres jovens, cada qual na sua calçada, em suas casas uma em frente da outra. A poesia de Murilo, a vida de minha mãe estariam, para sempre, impregnadas desses instantes”. Rachel Jardim, que já fizera de sua mãe um dos personagens do romance “O penhoar chinês” (José Olympio/Funalfa), um clássico da literatura memorialística brasileira, se apropria agora também da figura de Murilo, visto por ela como um jovem vanguardista e transgressor com físico de monge pintado por El Greco, que frequentava piqueniques e dançava nas festas nas fazendas vizinhas.

E a Juiz de Fora que emerge das páginas desta antologia é a Manchester mineira, uma metrópole dinâmica, com casas e fábricas de tijolos vermelhos e um clima bem diferente daquele da soturna Ouro Preto. Suas elites costumavam praticar a gentileza: as manhãs eram uma festa, com criadas levando quitutes embalados em toalhas de linho de uma casa à outra. Eram presentes que as famílias se davam. Segundo Rachel Jardim, frutas da estação, sequilhos e biscoitos de polvilho eram transportados com humildade, orgulho e nobreza. No centro da cidade moravam matriarcas de pulso firme como a avó de Rachel, que comandava uma casa onde viviam seus 16 filhos, além de parentes e empregados. O texto termina com uma elegia da autora à sua cidade natal: “Minha Minas de ferro é esta, a das duras ferramentas de tuas velhas fábricas hoje mortas, vivas nas camadas em que te desenterro. Ao emergir do sono, às vezes, me sinto em ti, te encontro e perco em fração de segundos. Mas tudo isso é falso, jogo dos sentidos. Porque jamais te perdi. E o tempo o que é? Fluxo constante em que passeio em ti”.


Sonetos refletem imaginário da época

Segundo Alexei Bueno, o conteúdo do álbum de Maria Luiza reflete o gosto popular em relação à poesia na década de 20. Alguns textos caíram no gosto do povo e se tornaram clássicos. Quem frequentou a escola nos anos 50 e 60 possivelmente deve ter copiado em cadernos ou recitado estes versos de Vicente de Carvalho: “Deixa-me, fonte!” Dizia/ A flor, tonta de terror./ E a fonte, sonora e fria,/ Cantava, levando a flor.” O crítico lembra ainda que a seleção contempla desde poetas menores a autores de qualidade cuja produção, em termos de escolas literárias, poderia ser situada entre o romântico, o parnasiano e o simbolista.

São 22 brasileiros, cinco portugueses e os alemães Goethe e Heine. Entre eles podemos citar Álvares de Azevedo, Olegário Mariano, Guimarães Junior, Martins Fontes, Gonçalves Crespo, Raimundo Correa, Antonio Nobre, Francisca Júlia. O soneto é uma das formas mais presentes, alguns deles recheados de expressões exaltadas e de lugares comuns do imaginário da época. Por outro lado, pode-se encontrar momentos inspirados, como estes pequenos versos de Guerra Duval: “Para rimar o riso da tua boca/ Palavras tilintando como guizos”.

Os perfis dos poetas nos revelam que muitos foram figuras exóticas, com longas cabeleiras e ar desencantado. Suas vidas também merecem a atenção de quem se interessa por literatura. Francisco Mangabeira, por exemplo, deu seu último suspiro num navio entre Belém e São Luís, exclamando: “Como é que morre um poeta de 25 anos!” Já Batista Cepelos viveu um drama: às vésperas de se casar, seu futuro sogro matou a filha e se suicidou. Os boatos da época informam que o poeta seria irmão de sua futura noiva. “Num reino à beira do rio” nos coloca em contato com a produção de autores pouco editados, além de, segundo a apresentação de Pinho Neves, “reverenciar o tempo, seus personagens e a cidade”.


*Elias Fajardo é jornalista e autor do romance “Ser tão menino” (7Letras)