"Os escritores, pelo menos os bons, são grandes leitores"

Publicações semanais de autores potiguares, quase uma dezena de eventos literários realizados em Natal, um sebo com lançamento recorde de livros no Brasil. Os fatos denotam produção e consumo literário pungentes. Mas a realidade é quase oposta, e indiscutivelmente difícil: pouco incentivo e consumo de livros de autores locais, pouco espaço reservado a esses escritores e seus produtos nas livrarias e, até pouco tempo, nenhum edital para a área literária. Pensar em literatura potiguar ou interesse de jovens por essa pretensa literatura é cair quase no vazio. Por isso, o escritor Carlos Fialho foi quem intermediou esse encontro de escritores no Contemporâneo. "A escola é muito organizada e comprou livros nossos para trabalhar em sala de aula antes de nossa ida. Nossa participação ocorrerá na noite de sexta-feira (10 de agosto) e vai ser um bate-papo animado com a garotada sobre leituras, escrituras e suas impressões sobre nossos livros".


Qual o seu conceito do que seja um escritor? Ou pelo menos o que você poderia falar disso para um aluno de segundo grau?

Sabe que eu talvez nunca tenha pensado nisso? Não costumo teorizar muito sobre a atividade. É difícil estabelecer uma meritocracia e dizer quem merece ser chamado de escritor mais do que outro, uma vez que qualquer juízo de valor que eu possa aferir se baseie única e exclusivamente no meu gosto pessoal. Os escritores que estarão lá no Contemporâneo têm textos publicados e leitores. Acho que esse pode ser um bom critério: leitores. Se o escriba tem pessoas lendo e gostando do que ele escreve já pode ser considerado um "escritor". Se é bom ou ruim, aí vai da opinião de cada um. Sobre falar com os alunos, gosto de passar pra estudantes que eles têm escolha. Eles podem escolher leituras com as quais se identifiquem, leituras que os divirtam, que os entretenham. Podem, inclusive, escolher ser não-leitores, como a grande maioria das pessoas. Mas se eles optarem pela leitura, encontrarão muita coisa legal pela frente.

O jovem natalense não lê ou sequer conhece o nome de mais de três escritores potiguares. A reportagem de O Poti verificou isso em pesquisa em quatro escolas de Natal. Esse triste dado se deve a que, na sua opinião? 

A leitura é passada na escola como matéria qualquer para a qual se estuda a fim de passar no vestibular. Dessa forma, eles associam a uma coisa chata. Pergunta pra essa mesma garotada que não nos conhece o que eles acham dos livros "As crônicas de gelo e fogo" (que deu origem ao seriado Game of Thrones) ou dos livros da saga "Crepúsculo". Eles adoram porque são publicações associadas ao entretenimento, a algo legal. É nossa missão ir atrás dessa juventude e mostrar que a leitura é muito mais do que os clássicos que tentam fazê-los ler pro "vestiba". Antes de chegar a um Machado de Assis, que é ótimo, eles podem passar por estágios mais leves, como Pablo Capistrano, Patrício ou Márcio Benjamin. Se a garotada só conhece três autores potiguares, vamos tentar fazer com que um desses nomes conste nessa lista.

Você acredita que a escassez de prosadores-romancistas - teoricamente de leitura mais atrativa - e uma maioria de poetas, reforça esse dado?

Pois é. Escrever prosa é mais difícil, né? Tem que fazer sentido (risos). Pode ser, não sei. A leitura da poesia exige uma maturidade maior que a prosa não pede. Acredito que, pra jogar o anzol, fisgar leitores, a prosa funcione melhor num primeiro momento.

O Jovens Escribas promove um evento literário mais ou menos com esse formato de contato de escritores com alunos. Qual o resultado que você viu nas duas edições do evento?

Ainda não mudamos a cidade, mas estamos tentando. Realizamos duas edições do evento que, em 2013 passará a se chamar "Ação Sesc de Incentivo à Leitura". Os resultados práticos dos eventos chegam a curto e médio prazo. Primeiro através da reação entusiasmada do público e depois com a consolidação de um público leitor. A proposta consiste em levar escritores às escolas e deixar livros destes autores nas bibliotecas destas escolas. Um projeto de conclusão de curso de um aluno de Letras confirmou entre os alunos do Colégio Estadual Anísio Teixeira (primeira escola contemplada pelo evento) que os meus livros foram lidos por boa parte dos alunos das turmas com as quais tive contato. Todo o evento é registrado em documentários de vídeo, fotos e descrito em textos por jornalistas contratados. O alcance é limitado porque fazemos tudo com uma verba de cerca de R$ 30 mil, mas creio muito nesse modelo, até porque deu certo em Passo Fundo (RS), Passos de Minas (MG) e vamos fazer funcionar em Natal.

Pela sua experiência, qual a maior ânsia, curiosidade ou dúvida que o aluno tem com relação a atividade de escritor?

O que os adolescentes mais perguntam é: "como você se sente sendo um escritor?" É engraçado. Nem sei como responder a isso. Eles querem saber de onde vêm as ideias, como a gente imagina as histórias, essas coisas. É bom porque a resposta mais uma vez cai na leitura. Os escritores, pelo menos os bons, são grandes leitores. Aí dá pra dizer: quer contar uma história, leia os homens e mulheres que sabem fazer isso bem. Esse é o melhor caminho.

Claro, o incentivo à leitura é dos mais eficientes métodos para formação de um escritor. Mas quais os acréscimos necessários, já que nem todos que leem muito são escritores?

Não tem. Ser escritor é uma escolha tão natural quanto ser leitor. Você pode ser um grande leitor, mas não sentir a necessidade de passar as histórias da sua cabeça para a tela do computador. É de cada um.

A pouca remuneração à atividade de escritor seria outro empecilho para o jovem tentar a carreira?

Você pode trabalhar com a palavra sem ser escritor profissional. Pode ser professor, jornalista, redator publicitário, advogado. 99% dos autores faz isso. Aí você faz como eu: ganha dinheiro na sua profissão pra perder na literatura (Risos).

Qual escritor você indicaria para um aluno de 15 anos se iniciar no universo da leitura?

Luís Fernando Veríssimo.

Por quê?

Porque comigo funcionou. 

(In DN/O POTI-MUITO, 05.08.2012)