Na porta do Sebo Vermelho, uma cadeira de onde Abimael se entrega à leitura e observa o movimento no Centro da Cidade – Fotos: Janaína Amaral


07 de janeiro de 2013 às 14:45

Um dia na intimidade do sebista e editor Abimael Silva

Publicado em Especial

 

Magrinho, fala mansa, letrado, 27 anos de Sebo Vermelho e 21 de editora que leva o mesmo nome. Conversando com Abimael Silva, percebemos logo sua paixão por livros. Como o café da manhã dele acontece em uma das padarias do Centro da Cidade, iniciou a entrevista à jornalista Janaína Amaral na Cia Pão, Rua João Pessoa, às 7h30. Critica livros impostos nas escolas, PT do RN, Capitania das Artes, Fundação José Augusto, principalmente ao seu ex-presidente Crispiniano Neto; fala sobre Aluízio Alves, Ney Leandro de Castro, antigos e novos talentos literários das terra de Poti-Letrado;  o interesse do prefeito Carlos Eduardo Alves; a frequência do ex-reitor Ivonildo Rego; a vaidade letrada e venal; defende boicote às livrarias, sua participação nos programas de Jô Soares e Ana Maria Braga, etc e mais.  Entrevista contundente. Sem meias palavras.

SUA HISTÓRIA

Nasceu em Várzea e foi morar em Tibau do Sul. Filho de carpinteiro naval, seu pai construía barco de pescador e caixão de defunto. Faleceu num acidente de carro em 1950. Dos sete irmãos, duas são freiras – uma, da Congregação Filhas de Santana, mora na África; a outra é enclausurada em Emaús, “coisa raríssima hoje em dia”, diz o irmão orgulhoso.

FORMAÇÃO

Acreditem! Abimael só tem o segundo grau. Seu interesse pela leitura veio na escola, através de Antenor Laurentino Ramos. “Antenor, que considero um dos maiores estudiosos da leitura de Zé Lins do Rego, estimulou-me a ler”.

CRÍTICA LITERÁRIA

“Na maioria das vezes as escolas pedem que os alunos leiam livros distantes de nós, Machado de Assis, Zé de Alencar…A pessoa lê na marra, como um remédio que tem que tomar. Na minha opinião, não vale. A pessoa tem que ler o que gosta. A leitura tem que ter um despertar”. Abimael pergunta à Abelhinha: “Conhece o Instituto Brennand, em Recife? Conheço aquilo lá, é uma coisa fantástica que todo nordestino e todo brasileiro deviam ter obrigação de visitar”.

AS PESSOAS ESTÃO LENDO MENOS OU MAIS?

“Por incrível que pareça, nessa era da internet as pessoas estão lendo mais, muito mais. Acho que isso se deve também ao Harry Potter, alguém pode criticar, mas as crianças criaram o hábito da leitura e depois compram outro e outro. A maior feira de livro do mundo é a de Frankfurt, na Alemanha, e todo ano supera a anterior. Aqui em Natal, por exemplo, tem gente que vende 400 livros numa noite de lançamento. Isso não se deve ao prestígio do autor? Também, mas quando o livro é bom as pessoas leem. Percebo que as pessoas se interessam muito quando o livro tem uma conotação histórica”.

A NET VAI ACABAR COM O LIVRO?

“Na minha opinião, não. Ainda vai se estender por séculos e séculos. Humberto Eco lançou um livro muito bom falando sobre isso já faz uns cinco anos – ‘Não contem com o fim do livro’”.

LIVRARIAS DESINTERESSADAS

“Meu sonho era trabalhar numa livraria da Clima, na Universitária ou na do Campus. Nunca consegui. Até hoje as livrarias de Natal não têm interesse de contratar alguém qualificado. Se chegar um cliente e pedir um livro de um autor da terra eles não sabem de nada. É uma vergonha. Devia ser obrigatório ter um certo conhecimento literário. Eles se espelham nos dez mais recomendados da Veja e pronto. Eu estava de saco cheio de ser bancário, então abri em 1980 o Sebo Vermelho. Meu investimento foi um capital de 600 livros. Sou o primeiro da geração de 80, mas em Natal já existe sebo desde 1930. Inclusive faço uma homenagem a ele na Coleção João Nicodemos de Lima, que foi o primeiro sebista do RN.

 

No Sebo, sua mesa de sinuca

 

O QUE PROCURAR

Das histórias interessantes: dois garis escreveram sobre Ney Leandro de Castro. “Na minha opinião, era para ser notícia nacional. Não acredito que a pessoa encontre por aí garis produzindo livro. Um deles é formado em Letras. Pelo que conheço são pessoas tão sofridas. Uma pena que o RN não se interessou”.

FREQUENTADORES

Revela: “Carlos Eduardo vem muito aqui. Ele para o carro aqui perto e vem andando. Sempre fez isso, antes mesmo de ser prefeito. Ele foi ao lançamento do livro que fiz recentemente sobre a história do Atheneu. Ivanildo Rego, ex-reitor da UFRN, também é frequentador.

 

Livros doados do acervo pessoal do antropólogo Nássaro Nasser

 

LETRADOS versus VAIDADE

Pergunto a Abimael como é a convivência com os letrados: “Boa, mas complicada”. Continua: “Talvez seja a parte mais complicada. A vaidade às vezes é tanta que para não comprometer a amizade peço que procure outra editora. Essa é a parte mais trabalhosa. Tem gente que tem um lado pavão demais. E não é só um, nem dois, nem três, são vários. Não é só talento, a pessoa tem que ter limites”.

BOICOTE ÀS LIVRARIAS

Além do Sebo, Abimael também possui a editora que leva o mesmo nome. Já lançou mais de 375 exemplares. É caro fazer livro? “Alexandre Oliveira é um parceiro que faz as capas dos livros que edito. Um projeto gráfico bem feito é primordial. Depois do conteúdo, a coisa mais importante é a capa. 80% das capas do Sebo Vermelho são dele. Só dois sebos no Brasil editam livros, o meu e um de Belo Horizonte (MG). Todo mês eu lanço dois títulos. Os sábados já viraram ponto de encontro. Uma pena que hoje as livrarias não valorizam a literatura do RN. Sou a favor de criar um boicote a todas as livrarias por não ter obras do RN”.

 

Cliente cativo da tradicional Banca do Tio Patinhas, no Centro

 

BONS DO RN

“(Câmara) Cascudo é unanimidade. Uma pessoa que não gosta de Cascudo não pode abrir a boca para dizer que conhece o Estado. Ele escreveu muito bem sobre tudo, sobre as pessoas, sobre a cidade. Tirando Cascudo, Oswaldo Lamartine de Farias, Zila Mamede e Jorge Fernandes estão acima de todos os literatos do RN”. E escritores vivos? “Ney Leandro de Castro, ninguém pode negar. Sanderson Negreiros, Iracema Macedo, Lizete Lima, são nomes impossíveis dos leitores não se renderem à primeira leitura. Existe também muito desperdício de papel. Não vou citar nomes, mas existem muitos excessos de vaidade por aí”. Sobre escritores novos, afirma: “Ada Lima, filha de Adriano de Sousa. Nossa, a menina é um talento, já lançou dois livros. Jota Mombassa, esse cara é a revelação da poesia do RN. Cada um deve ter uns 20 anos. Fazem poesia de gente grande”.

 

Sem funcionários, ele atende à clientela

 

CULTURA DE MENTIRINHA

“Aqui ninguém leva cultura a sério. Na minha opinião, não deveria existir a Capitania das Artes, nem a Fundação José Augusto. Tenho esse pensamento há 15 anos. A Capitania existe pra quê? Ali é um vergonhoso cabide de emprego. O que produz durante o ano? Nada. Não existe uma política de tombamento e nossa história vai se acabando. Só existem pessoas enchendo bolso de dinheiro através das leis de cultura. Sou totalmente contra as leis de cultura. O poder público é conivente com a desonestidade. O que precisa ser criado é um conselho de cultura remunerado. A lei só existe para uns”, desabafa.

FUNDAÇÃO JOSÉ AUGUSTO

Crispiniano merece um troféu de pior gestor. Hoje a FJA tá publicando livro, mas ainda é muito pouco. E a Biblioteca Câmara Cascudo? “Já vinha em total decadência. O caos mesmo veio na gestão de Crispiniano. Como é que uma pessoa se diz amigo de Lula, é metido a escritor, faz um livro puxando o saco de Lula e não consegue 1 milhão de reais para recuperar um patrimônio daquele? Antigamente tudo da área de cultura, exposições, lançamento de livros, acontecia lá. Hoje ninguém tem nem acesso à biblioteca. Ali, há muito tempo, era para o Ministério Público ter agido em favor do patrimônio histórico”. Cultura do RN? “Nunca vai passar de Parnamirim. Ninguém quer saber de nada. Fui convidado a assumir cargo público. Eu não nasci para ser funcionário público”.

ALUÍZIO ALVES

“A Tribuna (do Norte) foi um presente de Aluízio Alves. Quando o memorial dele estava sendo feito, eu tinha em meu acervo seis livros sobre ele, não queria vender, mas me rendi ao apelo do memorial. Com isso fui agraciado com uma assinatura do jornal.

JÔ SOARES E ANA MARIA BRAGA

“Eu fiz uma carta e pedi para um amigo meu deixar na portaria do programa junto com alguns livros. Depois me ligaram e fizeram uma entrevista por telefone. Gostaram e me chamaram pro estúdio. Bebi uma semana inteira. Comentei que tava fazendo um livro de como preparar caranguejo. Tive que levar os caranguejos. Preparei caranguejos na cozinha de Ana Maria Braga.

 

Seu desejo, seu especialidade

 

PT

“Simpatizo com Lula e Dilma, mas não suporto o PT do RN. Cinco dias antes da eleição, Rosalba citou trecho de minha resenha onde as Casas de Cultura estavam vendendo Avon e outra virou uma pensão”.

 

Acervo de Nássaro Nasser

 

Almoço do Restaurante A Macrobiótica, também no Centro

 

Ajudando comerciantes a encontrar livro de autor de Campina Grande (PB)

 

O dentista aposentado Gilvan de Carvalho à procura de bons livros

 

Ajuda ao cliente Joaquim Medeiros, ex-bancário e amante da literatura

 

Ana Maria Ubarana, ex-funcionária dos Correios, apreciando uma tela deixada pelo “poeta peripatético” Volonté

 

Hora de leitura

 

Fonte:http://blog.tribunadonorte.com.br/abelhinha/um-dia-na-intimidade-do-sebista-e-editor-abimael-silva/91254