“- a Poesia também é feita de clichês”

Entrevista concedida pelo escritor Eduardo Gosson à Thiago Gonzaga

1.Eduardo Gosson, onde você nasceu, e qual sua origem familiar?

 R.  Nasci em Natal/RN, na maternidade Januário Cicco no dia 01 de junho de 1959, portanto faz 53 anos e sete meses. Sou neto do libanês Antonio José Gosson e sobrinho-neto de mais dois irmãos (Abdon e Moisés) que vieram para o Brasil, no longínquo ano de 1925, cumprindo o seguinte roteiro: Líbano, França e Brasil, chegando em 01 de novembro  de 1925 na cidade de Maranguape/CE, após 21 dias em navio.

2.Quais foram suas primeiras leituras?

R.  As minhas primeiras leituras foram as revistas Readers  Digest, que na casa do meu avô, tinha em grande quantidade. Depois, os autores potiguares, editados pela Fundação José Augusto no Governo Aluízio Alves: Palmyra Wanderlei, Dom Nivaldo Monte, Ferreira Itajubá, entre outros.

3-Com que idade começou a escrever seus primeiros poemas?

R.  Por volta dos 17 anos comecei a desenvolver o dom da escrita.

4.Por que escolheu cursar Sociologia na UFRN?

  R. Porque, desde muito cedo, desenvolvi um agudo senso de JUSTIÇA SOCIAL e achava que a Sociologia seria um caminho para transformar o mundo.

5.E seu contato com a literatura potiguar, quando e como começou?

  R.  Conforme respondi logo acima aos 17 anos. A motivação foi que a tia que me criou (Jamyles) gostava muito de ler e tinha diversos autores potiguares em casa.

6.Em meados dos anos70  você editou um jornal mimeografo “Equipe”, fale-nos um pouco dessa experiência  ?

R. EQUIPE foi a minha primeira experiência no campo do jornalismo cultural. Tinha como editor Antonio Nilton Duarte, J. Medeiros e eu. Conseguimos editar 04 exemplares, com artigos que iam de Janis Joplin, Rita Lee e o Tutti-Frutti (entrevista) a vanguarda do Poema Processo.

7.E o suplemento “Contexto” do jornal A Republica, você também escreveu pra ele?

R.  Contexto inicialmente foi editado por Tarcísio Gurgel, com apoio do poeta Sanderson Negreiros, que era Secretário de Governo de Tarcísio Maia. Tarcísio ficou um ano e depois saiu. Eu, Nelson Patriota e J. Medeiros que éramos colaboradores passamos à  condição de editores. Depois, vieram Talvani Guedes e, por último, Racine Santos. Contexto durou quatro anos e alguns meses e foi um marco na editoração de suplemento cultural. Existe uma tese de mestrado defendida em São Paulo pela jornalista Ana  Jatobá sobre este suplemento.

8.Quem eram os seus amigos nessa época?

R.    Eram poucos: J. Medeiros e João Régis Cortês de Lima.

9.Você também foi correspondente de uma revista do Ceará?

R. Sim. O Saco foi um excelente projeto editorial elaborado por novos escritores cearenses e vinha dentro de um envelope: cadernos de poesia, prosa, ensaio, entrevistas e artes plásticas. No RN, fui convidado para ser o seu Correspondente. Com certeza, na década de 80 foi a melhor revista de cultura no Nordeste.

10.Eduardo Gosson também fez poemas visuais? Quando nasceu seu interesse por essa vertente poética?

R. Sim, muito pouco. A dita vanguarda não me empolgou tanto. Até porque seus teóricos pretendiam separar o poema da poesia. E para mim poesia, além do rigor, tem que ter emoção. Não gosto de poetas matemáticos. O meu pensamento é totalmente abstrato.

11.No inicio dos anos 90 você idealizou e coordenou o Curso de Literatura Potiguar, na Fundação Cultural Hélio Galvão, como foi essa experiência?

R. Foi a partir de um convite do poeta Dácio Galvão que era amigo do meu pai. Lá chegando propus um Curso de Literatura Potiguar: uma abordagem sincrônica, que coordenei durante três anos e que cumpriu um relevante papel: aperfeiçoar professores do ensino do 1º e 2º graus para trabalhar com o Autor Potiguar.  

12.Você também atuou no magistério?

R. Ingressei no magistério público no dia 29 de março de 1979, lecionando Inglês para os alunos do Colégio Padre Monte, nas Rocas. Depois, casei e fui morar no Alto Oeste Potiguar: Felipe Guerra e Caraúbas onde desenvolvi um intenso trabalho político, pedagógico e sindical. Nesta época comecei a participar da Associação de Professores do RN e do Partido Comunista Brasileiro – PCB.   

 

13.Eduardo Gosson tem inédito um livro chamado Almanaque da Poesia Potiguar,  nos fale um pouco desse trabalho ,e os motivos dele ainda não ter sido lançado ?

R. Almanaque da Poesia Potiguar foi uma idéia desenvolvida por Aluízio Mathias e por mim. Aluízio ficou com a parte empresarial e eu a redacional. É o maior inventário da Literatura Potiguar já produzido por essas bandas e que precisa ser atualizado e revisado. Não saiu porque Aluízio não teve tempo para fazer a captação que é o nó da questão. Aluízio é um militante de tempo integral dos Direitos Humanos. E eu me envolvi em outros projetos como a organização do memorial do Poder Judiciário e a editoração de outros livros. Entretanto, é um projeto que pode ser retomado a qualquer hora.  

14.R.  Em Abril de 1990 (ano da morte do meu pai) publiquei Ciclo do Tempo pelas Edições Clima do saudoso Carlos Lima. O livro foi medianamente aceito. Teve um crítico que escrevia na revista RN-ECÔNOMICO que afirmou ser um livro entre clichês marxistas e um lirismo demodée. Reitero: a Poesia também é feita de clichês.

15.Você gostou do resultado final o livro? A obra foi bem recebida pelos amigos poetas ? Mudaria alguma coisa nele hoje?

R. Sim. E não mudaria nada. Nunca me arrependo do que fiz e sim do que não fiz...

16.O Ciclo do Tempo foi editado pela Clima Editora, você conheceu Carlos Lima ? Fale-nos um pouco da contribuição dele para a literatura potiguarnos anos 70/80 ?

R. Sim. Carlos Lima foi o maior editor de autores potiguares  muito generoso.Só não cuidava da saúde:  a taxa de diabetes às  vezes chegava a 600. Partiu antes do tempo deixando uma enorme saudade.

       17-Fale-nos de dois trabalhos de pesquisa que você realizou A Historia do Poder Judiciário, e Ministros Potiguares?

Esses dois livros resultaram do seguinte fato: em 1993 meu tio  José Gosson foi promovido ao cargo de desembargador do Tribunal de  Justiça e me levou para fazer parte da sua assessoria (naquele tempo não tinha conversa de nepotismo e não existia o Conselho Nacional de Justiça). Lá chegando constatei quase nada em relação à história da justiça (no TJ tinha apenas a galeria dos presidentes) e Câmara Cascudo escreveu um capítulo sobre o Poder Judiciário no seu livro História do Rio Grande do Norte. Então, comecei a pesquisar e em três anos escrevi a História do Poder Judiciário no RN; com mais dois anos, escrevi Ministros Potiguares, que resgata os potiguares ilustres que fizeram parte de Tribunais Superiores. O RN, por exemplo, é celeiro de dois grandes juristas: Amaro Cavalcanti e Seabra Fagundes. Com mais cinco anos, viabilizamos no âmbito do TJRN, o Memorial Desembargador  Vicente de Lemos que é o guardião da Memória Jurídica do Rio Grande do Norte. Estou providenciando uma 2ª edição do História do Poder Judiciário do RN.

18.Eduardo o que foi o “Sarau Poéticas Potiguares” realizado na década de 00?

R. Foi um projeto desenvolvido nas livrarias da cidade para divulgar o autor potiguar a minha obsessão.  

19.E sua segunda obra poética, Poema das Impossibilidades, algum motivo especial para esse titulo?

R. Sim. Este título é belo e o que é a vida senão a luta das possibilidades com as impossibilidades.

21- Eduardo Gosson além de poeta, também é articulista, agitador cultural, palestrante... Enfim, em que área se realiza mais?

R. Eu sou Poeta. O resto é disfarce

20.-Você também é presidente da UBE-RN, nos fale um pouco do seu trabalho a frente da instituição?

R. A UBE é a quarta mais antiga entidade cultural no RN: 14 de Agosto de 1959. E teve três  mortes e três ressurreições. Dedico-me a ela todo o tempo que tenho: eu e um pequeno grupo  de escritores reconstruímos tijolo por tijolo. Órgão de defesa dos nossos Escritores. Menina dos meus olhos. Mexer  com um Escritor é mexer com uma caixa de maribondos.

21.E o Selo Editorial Nave da Palavra ? Foi idealização sua?Quais os projetos editorias futuros?

R.  Sim.  No ano passado projetamos publicar 12 livros e publicamos 09 com recursos próprios. Tenho a impressão que alcançarei ultrapassar essa meta.

22.Nos seus livros, você também defende  suas raízes familiares, é visível em alguns poemas, parece haver uma preocupação em conservar suas raízes correto?

R. Sim. Quem não valoriza suas raízes não merece viver!

23.Seu livro mais recente é o de poemas Entre o Azul e o Infinito, você acha que há uma maturidade poética nessa obra, comparada aos livros anteriores?

R.Sim.

24. Você está incluso nas principais Antologias Poéticas do estado, como se sente ao saber que esta fazendo parte da Historia Literária do RN?

R. Realizado.

    - Algum poeta potiguar da atualidade desperta sua atenção?

R. Sim. Lisbeth Lima e Lívio Oliveira

26.E o mercado editorial potiguar, mudou muita coisa em relação aos anos 80/90?

R.  Com certeza: é lei na sociedade  e na natureza.

    27.A UFRN abriu recentemente o Curso de Pós graduação em Literatura e Cultura Potiguar, qual a sua expectativa em relação a abertura desse curso ?

R. A melhor possível e que tem raízes no passado com a professora Zélia Santiago (Literatura Potiguar devemos a ela a sua inclusão no Curso de Letras), o  trabalho de Tarcísio Gurgel, o meu (cursos e cursos organizei), os  saraus, a UBE.   

28.E quais os planos literários para o futuro, algum trabalho inédito de Eduardo Gosson ?

R. Em março ou maio estarei publicando Crônicas da família Gosson. Neste livro conto a história da família em forma de Crônicas uma vez que dá um toque de leveza. Não é aquela coisa chata de genealogia.

29- Quem é o poeta Eduardo Gosson?

R. Um operário da Cultura.
(Natal/RN, 31 de janeiro de 2013)