Por Franklin Jorge

Desde menino, acalentou-me a lírica inesgotável e sempiterna de Palmira. Desde o meu amanhecer inesquecível, à sombra de veneráveis oiticicas e carnaubais farfalhantes, seu nome exprime o êxtase universal de uma expressão nova, diante da velhice da poesia.

Musa, deidade, regina poetarum, Palmira está implantada no centro de um culto oficioso que a integra apaixonadamente ao nosso panteão literário. E, como uma bendição prodigada pela voz de minha avó materna, cantando para embalar-me, os versos votivos com os quais Palmira agraciara o cancioneiro popular, para sempre associados a essa querida voz de contralto, cálida e referta dessa espécie de doçura melancólica tão próxima da nostalgia da infância.

Suscitada pelo estro olímpico e algo pagão da jovem e grácil lapidadora de “Esmeraldas”, essa magia ilusionista criada pelo fato estético, propaga-se, entre nós, num modo particular e afetivo de religião doméstica.

Palmira se faz ouvir por toda a cidade com a mesma avidez de quem descobre um tesouro, cifrado numa sintaxe, num sentir e num ritmo que se disseminam em odores, imagens e sabores surpreendentes, persuasivos e voláteis, através de écrans muito vivos, inebriados de maldisfarçado e latejante sensualismo.

Como autora e sugestão de poesia, Palmira habita o século e, com a primazia dos poetas investidos do privilégio de nomear e amaldiçoar as coisas, dons atribuidos por Apolo, abençoa e encarece a mitologia natalense, idolatrando a terra e as “cousas natais”. Portanto, o que escreve – às vezes impregando-se de melancolia e entusiasmo dionisiaco – tem muita força. Alcança o âmago do silencio e o gosto secreto e misterioso da sedução literária.

Arraigada á vida, sua magnificência transparece dos olhares que lança sobre a cidade do sol ainda submersa entre dunas e hortos primitivos, como a poesia, sempre verde e pobre. O olho alado da donna móbile, acariciador e cheio de feitiço, infiltra-se nos sítios solenes e sobrenaturais da infância, revelando-nos, como uma das facetas do seu talento, um mundo agrário e ecológico que subsiste teimosamente no urbano.

Impressionista, através de um registro poético, sensorial e plástico, Palmira capta a luz e, imbuída de panteísmo, edifica a cidade mítica em versos que constituem desde então o breviário sentimental de gerações de leitores afinados com a sua lírica.

Porém, faltava à glória de Palmira um monumento capaz de redimensionar a sua própria fabula. Um monumento, além da arte poética que a consagra, que a trouxesse para o plano humano e que fosse o sinal da nossa estima e gratidão a um dos gênios tutelares de Natal, cidade prodigiosamente surgida, em suas brumas mitológicas, sob o signo da natividade.

Erigido em palavras por Anna Maria Cascudo Barreto, esse monumento leve e alado revigora o culto de Palmira e a um tempo introduz oficialmente a autora de tal façanha numa plêiade  de admiradores devotados da poetisa norte-rio-grandense, dentre os quais já se destacam críticos e estudiosos do quilate de José Livio Dantas, Nilo Pereira, Edgar Barbosa, Gerardo Dantas, Maria Arisnete Câmara da Cruz, Isabel Cristina Machado de Carvalho Veras, Diva Cunha, Constancia Lima Duarte, Maria Eugenia Celso e Luis da Câmara Cascudo.

Neblina na Vidraça” consagra a justiça devida por todos a autora de “Roseira Brava”, esclarece e amplia tudo o que até então sabíamos acerca dessa que é um dos outros nomes da poesia. E, sobretudo, prova-nos a imortalidade do seu nome, testificando a capacidade e o talento de Anna Maria, a quem a própria Palmira distinguiu com o seu afeto gratulatório.

Devemos assim, à sensibilidade e ao altruísmo duma mulher que, criada e educada no exemplo do seu ilustre pai, tem se revelado uma consciência ativa em defesa dos nossos valores. Creio, portanto, que não seria exagerado dizer após a leitura ainda em rascunhos deste livro, que Anna Maria Cascudo Barreto anistia Palmira do limbo a que foi atirada pela nossa indiferença nos seus derradeiros anos de vida, restituindo-a ao patrimônio cultural do Rio Grande do Norte.

Quando alguém, num futuro remoto, estudar em profundidade a literatura local, saberá que “Neblina na Vidraça” pôs fim ao exílio de uma deusa.