Murilo Melo Filho [ escritor da ANRL e da ABL ]

Com muita honra e com saudade, sou um natalense da gema, entre “xarias”, da Cidade Alta, do peixe nobre e “canguleiros”, da Cidade Baixa,  comedores de cangulo.

Nasci há 84 anos na Av. Tavares de Lira, onde está um depósito desta “Tribuna do Norte”.

Morei depois na Rua das Virgens, hoje Câmara Cascudo, paralela à Dr. Barata e ao comércio de então, quando ouvi o pipocar dos tiros da Revolução Comunista de 1935, que, segundo Graciliano Ramos me diria depois, não foi uma revolução, mas sim uma doidice.

Tinha apenas 14 anos de idade, quando comecei a trabalhar, sucessivamente, nos jornais “A Ordem”, de Otto Guerra, Ulysses de Góes e Nazareno de Aguiar; no “Diário de Natal”, de Djalma e Luiz Maranhão; e em “A República”, de Danilo, Antônio Pinto, Newton Navarro, Rivaldo Pinheiro, João Wilson, Aluízio Alves, Veríssimo de Melo e Valdemar Araújo.

Estudei no Atheneu, com os Professores Câmara Cascudo, Gentil Ferreira, Clementino Câmara, Esmeraldo Siqueira, Celestino Pimentel, Monsenhor João da Mata, Cônsul Luís Vanderley, Padre Monte, Luís Torres, José Gurgel, Hostílio Dantas e Véscio Barreto.

Aquela era a emoção própria de um jovem de 17 anos, que emigrava daqui de Natal, para, sozinho, enfrentar, no Sul do País, os perigosos desafios da vida.

Hoje em dia, transcorridos tantos anos, volto o meu pensamento para as angústias e sofrimentos que enfrentei na assustadora megalópole do Rio de Janeiro.

O môço tímido das peladas nos areais do bairro do Tirol, em Natal, via-se, de uma hora para outra, aterrorizado ante a Cidade Grande, tendo diante de si apenas uma opção e uma alternativa: vencer ou vencer.

Relembro, então, as madrugadas na redação dos jornais, as aulas noturnas na Faculdade de Direito, geralmente dormindo sobre as carteiras, vencido pelo sono e pelo cansaço, o escasso dinheiro para a média com pão e manteiga e para a passagem do bonde; as penosas marchas dos domingos, na Infantaria do C.P.O.R.

Agora, vejo que tudo aquilo valeu a pena: os espinhos da juventude, como as flores de François Malherbe, desabrocham agora na Maturidade, quando já damos um balanço sobre o passado e vemos, felizes, que de nada temos para nos arrepender:

1.Nem do casamento que, há 60 anos, celebrei com esta mesma mulher, Norma, companheira admirável até hoje.

2. Nem da religião, que abracei desce criança e que até hoje professo com tanto fervor.

3. Nem do jornalismo, de Carlos Lacerda, na “Tribuna da Imprensa” e de Adolpho Bloch, na “Manchete” e na “TV-Manchete”, que proporcionaram tantas compensações: de acesso    a reis, rainhas, príncipes, chefes de Estado e de Governo – entre muitos outros: Kennedy, Nixon, Reagan, De Gaulle, Nasser, Fidel Castro, “Che” Guevara, Selassiê, Gromiko, Allende e Peron – homens todo-poderosos, que escreveram a história do mundo no Século XX, por mim entrevistados pessoalmente, ao longo de 30 anos, em 15 viagens à Europa, 13 aos Estados Unidos, 5 à África, 4 ao Japão e às guerras do Vietnã e do Camboja.

4. Nem das Academias Norte-Riograndense e Brasileira de Letras, para as quais me elegi, respectivamente, há 16 e há 11 anos, nas quais tanto tenho me esforçado para honrar, dignificar e respeitar o Rio Grande do Norte e o Brasil.

5. Nem da afeição e do carinho de muitos conterrâneos, nesta minha querida Cidade de Natal, confiada às mãos de um admirável Prefeito, da qual sinto hoje, e sentirei sempremuita falta e saudades imensas.