Por Thiago Gonzaga

T.G. Lívio Oliveira, fale um pouco da sua infância, onde nasceu, e como foram seus primeiros anos da juventude?

L. O. Nasci nesta ensolarada Natal, numa manhã de 16 de agosto de 1969, segundo dia do Festival de Woodstock rolando lá nos EUA (acontecimento em que eu gostaria de ter dado os meus berros inaugurais, em coro com Janis Joplin). Minha infância se desenvolveu em meio às boas molecagens com os meus irmãos e a meninada lá do Barro Vermelho e, também, nas férias que passava na Fazenda Poço da Pedra, do meu avô materno, além dos passeios e temporadas na Alameda Faraco, Avenida Índio Arabutã e Tambauzinho, em João Pessoa/PB, onde moram diversos componentes das famílias paterna e materna. Na rua Segundo Wanderley (primeiro nome de poeta que conheci) subia em árvores, telhados e muros altos (e também caía vez ou outra. Sempre fui meio atrevido, incauto, não sei nem como sobrevivi – risos), brincava de “polícia e ladrão”, “garrafão”, “peia-quente”, “31, alerta!”, jogava Banco Imobiliário e War e era (e ainda sou, cada vez mais) um perna-de-pau no futebol. Iniciava ali as minhas primeiras leituras, escritos enviesados e garranchos (adorava desenhar e acho que desenho até bem). Olha, tem um dado meio curioso na minha infância: fui Prefeito-Mirim de Natal aos 11 anos de idade. Uma experiência bem legal que marcou a minha infância e da qual me lembro com algum carinho e humor hoje em dia. Já pensou um moleque com aquela idade passeando de carro preto pela cidade com a primeira-dama por uma semana inteira, falando em rádio e fazendo discurso em escolas? (risos). Depois, vários anos depois, participei de alguns partidos políticos de centro-esquerda, chegando a ter quase quatro mil votos numa aventura eleitoral pelo PDT. É verdade, né mentira não, Thiago! Mas, me desiludi com essa história/estória de política potiguar. Isso não dá pra mim não, meu irmão!


T.G. Quais suas primeiras leituras?

L.O. Monteiro Lobato, Mark Twain (“Aventuras de Tom Sawyer” e “Aventuras de Huckleberry Finn”, em traduções de Monteiro Lobato, que tenho até hoje), Maurice Druon (li “O Menino do dedo verde” numa tarde), contos diversos adaptados (irmãos Grimm, La Fontaine etc), trechos da enciclopédia Barsa e Delta Júnior, além de muitos gibis. Adorava os heróis Marvel, principalmente. Mas, lembro-me bem da revista “Recreio” e também de todos os personagens Disney e de Maurício de Souza. Vez ou outra me aventurava, também, nas conhecidas Zagor e Tex, apesar de não terem sido de minha predileção. Depois, Revistas Realidade e Manchete, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade (que conheci primeiro como cronista numa coleção chamada “Para gostar de ler”), José Lins do Rego, Graciliano Ramos, autores de literatura policial como Agatha Christie, etc. Somente mais tarde conheci os dois autores que mais me apaixonariam: Fernando Pessoa e Guimarães Rosa. Esse foi o primeiro cenário que avistei nessa terra louca e cheia de delícias da Literatura.


T.G. E seu contato com a literatura potiguar, como aconteceu?

L.O. Além da pequena biblioteca de papai, acredito que a primeira vez que tomei conhecimento da literatura do RN foi através de um programa na TVU, apresentado por Tarcísio Gurgel, Josimey Costa e Inácio Sena. Na terrinha, as minhas primeiras leituras importantes foram as crônicas de Serejo (eu as colecionava num caderno), a poesia de Marize Castro (“Marros Crepons Marfins”) e os textos sobre autores e livros de Américo de Oliveira Costa (“A biblioteca e seus habitantes”, que tenho com autógrafo que me foi dado na Aliança Francesa de Natal). Hoje aprecio inúmeros autores de nossa terra. São muitos e não quero citar pra não ferir suscetibilidades. São mais que cento e um autores...rs.


T.G. Lívio, e o período do Curso de Direito na UFRN, como foi? O que o levou a escolher a área jurídica como profissão?

L.O. Foi um período de grande crescimento humano e de conscientização social. Minhas melhores experiências de juventude, muita aventura em todos os campos. Fui presidente do Centro Acadêmico Amaro Cavalcanti, quando tive a honra de organizar um importante evento jurídico em homenagem e com a presença de Miguel Seabra Fagundes, grande figura intelectual e humana potiguar e que brilhou nacionalmente. Poucos sabem, mas também fiz – posteriormente à minha formatura em Direito – um ano de Filosofia na UFRN e tive grandes professores nessa área. Ainda penso sobre como se procedeu a minha escolha profissional e sei, hoje, que o Direito é mesmo o caminho que escolhi seguir e vou em frente, lutando, persistindo, trabalhando, estudando.


T.G. Você já foi professor, lecionava que disciplina?

L.O. Tive essa boa experiência, por alguns anos, na UnP. Lecionei, destacadamente, “Teoria Geral do Estado” e “Direito Constitucional”. O contato com alunos é algo estimulante e bem complexo, uma lição de relacionamento humano. Dei um tempo pra priorizar a família, a Procuradoria Federal e esse meu gosto pela literatura. Pretendo retomar um dia. Hoje, como Conselheiro da OAB/RN, tenho estado em contato com muitos advogados-professores, o que tem me estimulado a pensar no assunto da volta. Vamos ver no futuro.


T.G. Fale-nos um pouco do seu livro de estreia, O Colecionador de Horas, como foi a experiência de publicar esse livro, quais eram suas influências nesse período?

L.O. Foi um início muito satisfatório, através das mãos do saudoso Franco Jasiello, que aprovou a publicação do livro pela A.S. Editores, pertencente à Livraria A.S. que ficava ali perto do Natal Shopping. Lembro-me do lançamento festivo em que vendi mais de cem livros. Fiquei entusiasmadíssimo (risos). Infelizmente, Jasiello já nos deixou e aquela livraria/editora não existe mais.


T.G. O Colecionador de Horas foi dedicado ao grande poeta potiguar Luís Carlos Guimarães, você o conheceu, teve contato com ele?

L.O. Fui apresentado a Luís pelo contista Manoel Marques Filho. Foi ele, Luís Carlos Guimarães,  quem me deu a honra do aval para a publicação dos meus primeiros poemas no jornal O GALO. Nelson Patriota encampou a idéia, aceitou meus poeminhas. Gostava de ouvir uma frase simpática de Luís Carlos Guimarães: “– Poeta, escreva o seu livrinho”. Se Luís Carlos Guimarães estivesse vivo hoje, eu lhe diria: “–Ainda estou tentando, caro Luís. Ainda estou tentando...”. Penso, ainda, em escrever uma biografia intelectual e de vida de L.C.G.

T.G. Lívio, você também foi colaborador do “O Galo”. Conte-nos um pouco dessa fase e da importância cultural desse jornal?

L.O. Foram meus primeiros passos quanto à publicação de meus textos. Muito importante para mim. Todos sabem da importância desse veículo cultural, que nunca deveria ter acabado. Infelizmente, a descontinuidade tem sido uma marca de nossa realidade cultural e político-administrativa.


T.G. Como era o mercado editorial na época do lançamento do seu primeiro livro? Há muita diferença para o mercado atual?

L.O. Muito parecido. Mas, naquele momento, tive a sorte de ter uma editora lançando o meu livro por sua conta: a A.S. Editores, que já não mais existe. Hoje, há mais editoras e selos editoriais em Natal. Mas, o mercado continua muito complicado. Precisamos crescer muito mais nesse aspecto. Precisamos valorizar a “prata da casa”, termo que Manoel Onofre Jr. muito aprecia.


T.G. Seu segundo livro de poemas, o belo “Telha Crua”, foi vencedor do  Prêmio Luís Carlos Guimarães e  Othoniel Menezes,  você esperava esse reconhecimento já na sua segunda obra poética?

L.O. Se não esperava, eu desejava...e muito! (rs) Trabalhei pra isso e aconteceu. No entanto, isso me deu mais responsabilidade. Ressalto que esses dois nomes merecem todas as honras e, nessa linha, permanente e contínua leitura. Sempre.


T.G. E o livro “Bibliotecas Vivas do RN”? Como surgiu a ideia?

L.O. Da minha paixão pelo objeto livro e pela leitura e de uma grande curiosidade em conhecer os homens por trás dos seus livros, ingressando naquele que, para mim, é um dos ambientes mais íntimos de uma casa: a biblioteca.


T.G. Como foi interagir com personalidades da nossa literatura que amam os livros?

L.O. Sempre é bom conhecer pessoas interessantes e inteligentes, principalmente se reveladas suas personalidades através de suas escolhas bibliográficas.


T.G.  Bibliotecas Vivas do RN, terá  um segundo volume ?

L.O. Pretendo, sim. Mas, com diversos aspectos novos. Um dia, contarei meus planos quanto a isso.


T.G.  Fale-nos do livro “Pequeno Manual Poético da Arte do Xadrez”. Você desistiu de lançá-lo ? Ou aproveitou  os poemas em outros livros?

L.O. Gosto muito desse jogo complexo, que também é uma arte, a arte de Caissa. Ainda estou elaborando mentalmente o roteiro desse livro. Mas, deverá ser um dos meus principais textos no futuro. Acho que é uma ideia que pode dar muitos e bons frutos.


T.G. Como concilia sua profissão de procurador federal com a literatura?

L.O. Com muita disciplina e responsabilidade. E algum sofrimento e muita correria...rs. Sou um inquieto, um cara que dorme pouco e vive na eletricidade. Sou um frenético e ansioso cumpridor de prazos. Mas, tenho a sorte de ser muito organizado, beirando o excesso, também nesse item (risos). Hoje, sou apenas um operário das palavras, sejam elas literárias ou jurídicas. As coisas se complementam.


T.G. Você foi membro de uma comissão de analise dos Prêmios Othoniel Menezes, Luís Carlos Guimarães e Zila Mamede. Como é o exame e a escolha de um bom poema? Como funciona? Há algum critério ou é algo subjetivo?

L.O. Só posso dizer que dá um trabalho danado (rsrs). E critérios tem que haver, evidentemente: o domínio e a correção da linguagem, as soluções criativas e originais, o ritmo, a eventual musicalidade do poema, o estilo... Também, resta claro que a subjetividade do julgador está em qualquer decisão, inclusive nas sentenças judiciais. Na poesia, dá-se o mesmo. Não seria diferente.


T.G. Algum novo poeta potiguar lhe desperta atenção na atualidade?

L.O. Tem sempre gente nova no pedaço, mas estou apreciando muito o pessoal de Currais Novos, que possui um trabalho prolífico e sistemático nesse campo. O Seridó é sempre um celeiro de tudo o que é bom. Mas, confesso que o meu interesse poético atual está voltado para um passado glorioso: o tempo e a voz de Ferreira Itajubá, sobre quem tive a honra de falar e prestar homenagem comemorativa ao seu centenário, por ocasião da Flipipa 2012, juntamente com a excelente pesquisadora Mayara Pinheiro.


T.G. Seus livros tem uma característica em comum,  beleza e qualidade gráfica. É você que escolhe/define as capas das suas obras?

L.O. Sempre opino, dou uns pitacos, uns palpites. Acredito que tenho um olho bom pra essas coisas. Sou vidrado por fotografia e por artes plásticas. Tento ajudar no projeto gráfico, para que o conjunto seja apresentável. Tem dado certo, com os “capistas” excelentes que tenho encontrado, como Fernando Chiriboga, Alexandre Oliveira etc.


T.G. Você foi membro do conselho editorial da FUNCARTE. Como foi essa experiência?

L.O. Foi um momento de boa convivência com figuras inteligentes das letras e, principalmente, foi o início da minha amizade com um cara que muito admiro e que pensa a nossa cultura como poucos: Dácio Galvão.

T.G. E sua fase na presidência da UBE-RN foi positiva?

L.O. Muito positiva. Além da ótima convivência com os escritores e de alguns eventos em prol do resgate da entidade –  importante entidade que ajudei a consolidar e que está sendo bem conduzida por Eduardo Gosson, meu dileto sucessor – consegui fazer a Lei do Livro e do Autor Potiguar, unindo deputados da oposição e do governo de então. Por sinal, essa Lei precisa sair, definitivamente, do papel e se tornar efetiva e eficaz.


T.G. Em 2007 você publicou  “Pena Mínima”,  livro de haicais e poemas curtos, com surgiu a ideia do livro, a obra teve boa receptividade ?

L.O. Mais um dos meus experimentos. Gostei do resultado. Descobri algo da cultura oriental que pude transpor para minhas soluções ocidentalíssimas.


T.G. Em 2009, mais uma novidade, “Dança em Seda Nua”, com poemas eróticos. Fale um pouco dessa experiência poética.  O poeta Lívio Oliveira gosta de fazer experimentações poéticas?

L.O. É disso que me alimento, meu amigo. Mas, o meu erotismo é meio sutil, nada desbragado. Não consegui transpor os limites em direção ao pornográfico. Alguns dizem que este foi um erro. Outros dizem que foi onde acertei. Ninguém consegue agradar a todos, não é?


T.G. Você já manteve um blog, fale um pouco dele, o que tratava?  Temos blogs com bons conteúdos literários e culturais?

L.O. Chamava-se “O Teorema da Feira”, nome que veio batizar o meu mais recente livro de poemas. Foi uma experiência muito prazerosa, mas que não deu pra dar continuidade por total falta de tempo. Hoje, tento compensar contribuindo com outros blogs e escrevendo nas redes sociais, com menos compromisso de atualização diária. Para mim, os dois blogs mais importantes e que me dão mais prazer de leitura, hoje, são o “Substantivo Plural” (www.substantivoplural.com.br), de Tácito Costa (espaço que, apesar da zona conflituosa, é um dos nosso mais importantes instrumentos culturais), e o Infâmia” (www.jairolima.org), do grande poeta pernambucano/potiguar Jairo Lima. Há, ainda, outros blogs bem legais, como o de Sérgio Vilar (“Diário do Tempo”), o de Alex Gurgel (“Grande Ponto”) e vários outros.


T.G. Você lançou recentemente o livro de poemas “O Teorema da Feira”. Houve uma mudança perceptível no seu fazer poético, em relação aos primeiros livros. você considera Teorema da Feira seu melhor trabalho até agora?

L.O. Sim. Não tenho dúvidas quanto a isso. É o meu livro mais maduro e com o qual consegui as melhores soluções poéticas, as que mais me agradaram e que, de uma certa forma, condensam e melhor sistematizam as diversas opções poéticas que fiz ao longo desse tempo em que estou na estrada. Ademais, o título do livro é auto-explicativo.


T.G. Ficou satisfeito com o resultado de “O Teorema da Feira”?

L.O. Sim. Pelas razões já expostas.


T.G. Vamos falar de música. Fale um pouco do CD Cineclube, projeto com Babal, que foi lançado em 2009?

L.O. Simplesmente, uma de minhas maiores realizações pessoais. Um deleite. Principalmente no período da gravação, em que ficava horas e horas acompanhando a turma em estúdio, às vezes até alta noite. Babal e Joca Costa se transformaram em bons amigos e grandes mestres. Sou louco por música. Tenho muitas saudades de ouvir, como ouvia, quase que diariamente, a guitarra de Joca Costa e as vozes e instrumentos maravilhosos que compuseram o disco, dentre eles, Geraldo Azevedo, Khrystal, Valéria Oliveira, Liz Rosa, Di Stéfano, Luciane Antunes etc. E tem o fato de termos unido as letras e a música ao cinema, arte que amo profundamente.

T.G. Lívio Oliveira prefere cinema, poesia ou música?

L.O. Sou um amante de todas as formas da grande arte, mas, se minha poesia se transformar em música, ficarei completamente feliz. E o cinema é a minha fantasia mais completa. Fellini, Buñuel, Bergman, Woody Allen, Glauber Rocha, Lars Von Trier, Scorsese, Hitchcock, Antonioni, Coppola, Bertolucci, Almodóvar, dentre muitos outros, são os grandes feiticeiros da minha vida. Encontro infinita magia naquilo que foi feito por esses caras. É orgânico. É visceral. Está em mim, essencialmente, como os meus sonhos estão. Talvez somente Freud ou Lacan expliquem.


T.G. Quais os planos literários para o futuro, algum livro inédito?

L.O. O maior dos planos é prosseguir na estrada e cuidar da escrita, melhorando o que deve ser melhorado. E livros...claro! Sempre temos mais um na cabeça e/ou no prelo! Também pretendo experimentar e aprofundar coisas na prosa: ensaios, crônicas, novelas, uma peça de teatro...quem sabe? Tudo é possível. Tudo é permitido nessa seara, se tomarmos os devidos cuidados no caminho. Por que não experimentar?


T.G. Quem é o escritor e o ser humano Lívio Oliveira?

L.O. Alguém que crê no valor da arte e um cara que já acertou algumas vezes e se equivocou outras tantas, mas que sempre buscará o caminho mais acertado, ética e esteticamente. Aprendi a pedir desculpas pelos meus erros e agradecer pelo que recebo através da generosidade dos outros. Tento fazer o bem e nunca faço o mal de caso pensado. Mas todos incomodamos, em um momento ou outro. Faz parte da natureza humana, que conheço melhor, mas que ainda me traz enigmas. Confesso, ainda, que – antes de tudo – este escritor é alguém que se sente melhor como leitor, em meio ao colorido e os cheiros de uma boa biblioteca. Aceito e trabalho razoavelmente o mundo digital e as suas novidades, mas ainda amo apaixonadamente um bom livro posto sensualmente entre as mãos e com suas palavras impressas reluzindo diante dos olhos.



(www.101livrosrn.blogspot.com.br, 17.02.2013)