Carlos Costa

Dona Glória, que só tem “glória” mesmo no nome no registro de nascimento, a senhora não teria necessidade de acorrentar seu filho pelas pernas e braços e expô-lo publicamente em rede nacional de TV, se o Governo Federal já tivesse implantado um programa de saúde pública e com acesso a todos os que necessitam tratar seus dependentes químicos. Como está sendo muito difícil o Governo Federal entender que custa financeiramente menos prevenir e tratar o início os dependentes químicos, as cracolândias vão se espalhando pelo Brasil. Só o Ministério da Saúde não percebe que a dependência química já é um problema de saúde pública, envolvendo milhares de famílias em um mesmo problema: a dependência química.

 

Também a senhora não precisaria passar pela humilhação de ver seu filho, dependente químico de crack desde seus 15 anos, hoje adulto de 25 anos, transportado de carro para uma clínica particular por falta exclusiva de política pública para tratamento desses doentes. É humilhante ver pelas ruas, jovens de ambos os sexos, viciados em crack. E o pior é que tudo isso ocorreu em Brasília, capital da República. Seu próprio filho lhe pediu para a senhora acorrentá-lo na perna para poder permanecer dentro de casa; se viu sem as correntes, fugiu novamente para adquirir crack e a senhora o encontrou “chapado” como falam as pessoas doentes que precisam de tratamento.

 

Isso é terrível para uma mãe e, mais ainda ,para o Brasil que quer se tornar uma economia forte, mas que não cuida e nem trata como deveria atender seus dependentes químicos, enfrentando seus problemas de saúde internos que afetam e destroem famílias inteiras! Os turistas que virão para a Copa das Confederações e depois para a Copa do Mundo não desejarão saber que o país não enfrenta seus problemas internos de saúde, mas investe muito dinheiro para ter uma copa do mundo! A FIFA, que exige tantas coisas de um país sede, também deveria exigir que o Brasil também cuidasse da saúde de seu povo, com o mesmo nível de exigência que faz para a infra-estrutura no entorno dos Estádios que receberão os jogos.

 

“Eu sou mais pedir para botar essa corrente na minha perna, para eu ficar dentro de casa e aguentar aqui, mesmo que eu fique sentindo mal, com a fissura do negócio, do que sair para a rua e ser arriscado a morrer”. Dona Glória, a declaração de seu filho, poderia ter sido outra bem diferente, mas parece que o Governo Federal não quer ver que ele precisa urgentemente tratar os dependentes químicos e não deixar unicamente essa responsabilidade para Estados e Municípios porque a desintoxicação, o período de crise de abstinência, precisa ser enfrentada com terapias e remédios e isso a presidente Dilma Roussef, nem seu Ministro da Saúde ou outros Ministros que cuidam da área social da população, querem ver.

 

Dona Glória, o que seu filho pediu e a senhora atendeu, foi por puro ato de desespero porque toda a família adoece junto com o dependente químico, também, e precisa enfrentar juntos o período de recuperação do paciente.

 

Quando estava dentro do carro, sendo levado a clínica particular que aceitou tratá-lo, seu filho disse em alto e bom tom para todos ouvirem:”vou falar para quem tiver ouvindo essa reportagem: não entre nessa droga aí, não. É raiva, é ódio, é tudo junto, é cinco segundos de céu quando usa, e o resto, tudo de inferno”.

 

Mesmo assim, dona Glória, seu filho não teve forças suficientes para enfrentar seu vício e voltou para “os cinco segundos de céu (...) e o resto, tudo de inferno”.  Ou seja, o inferno do crack, local para onde todos irão se o Governo Federal não tomar a decisão rápida, firme e corajosa de tratá-los enquanto é tempo, admitindo que o problema existe e criar um programa de saúde pública de tratamento.

 

Também sei o quanto é difícil esse tratamento, dona Glória! Paz para a senhora e força nesse momento porque o tratamento pode levar meses e pode não levar à total de recuperação. Mesmo assim, foi um dia de glória para a dona Glória, ver seu filho sendo levado para uma clínica particular de reabilitação!

 

 “A gente cria um filho para viver uma vida de sucesso, aí de repente você... é como se puxasse seu tapete. Ele vai sair disso”, desabafa Maria da Glória das Graças, mulher guerreira e determinada como tantas outras glórias anônimas que vivem no Brasil, contaminado pelas pedras de crack, mas sem coragem para se expor, sofrendo caladas.  

 

É, dona Glória, seu filho sairá desse vício, se Deus quiser e seria melhor ainda se o Governo Federal criasse e implantasse um programa nacional de tratamento para dependentes químicos que não expusesse às famílias de “glórias” anônimas dessa maneira!