Maria Dantas de Araújo, mãe

 

De olhos florestais

E cabelos cor de  mel,

Amava-nos.

 

Entre nós grandes silêncios!

 

No meio, a “Rua do Motor

com urubus e carniças”.

Agora, a Nova Jerusalém celestial

Onde Deus

Espera-lhe

Entre o azul e o infinito.

 

 

 

 Maria Dantas de Araújo era natural de Jardim do Seridó/RN, filha de Belizário e Cipriana (avós maternos). Ele, pedreiro; ela, do lar. Mamãe conheceu meu pai aos 14 anos de idade e ele com 16. Aos 20 anos, ela me pariu. Fui o primeiro neto, o primeiro sobrinho. Nasci na Maternidade Januário Cicco e morei durante dois anos e oito meses na Rua do Motor, localizada entre a Avenida Sylvio Pedroza e o Hospital Universitário Onofre Lopes. De origem humilde, viveu 12 anos com o meu pai (nunca casaram formalmente) e sofria de problemas psiquiátricos, diagnosticado por Dr. Franklin Capistrano como transtorno bipolar.

 

 Após a separação, foi passear na Bahia, uma vez que lá morava sua irmã  Marleide. Após algum tempo, resolveu conhecer o  Brasil. Demorou 10 anos nesta travessia e a única forma de comunicação com ela era através de carta:

 

                 “Entre nós grandes silêncios!”

 

 Quando as suas cartas chegavam,  eu me trancava e passava um dia inteiro lendo-as e relendo-as. Quando cansava, colocava-as sobre mim. Era uma forma de evitar o esquecimento e uma forma enlouquecida de dizer:

                “Mamãe, apesar da distância, eu te amo”.

 

 Voltei a reencontrá-la dez anos depois, em estado de extrema pobreza: morava no pé do morro, lá no bairro do KM-6. Por essa época começava a participar das lutas comunitárias: saía de casa em casa com a primeira esposa que era médica. Ela, consultando o povo; eu, tentando organizar politicamente a comunidade em parceria com a Igreja Católica, através das Comunidades Eclesiais de Base – embrião da Teologia da Libertação.

                  Passei ajudá-la: pagava a conta da água, da luz e do gás. Até que a mesma arranjou um trabalho de Auxiliar de Enfermagem no leprosário São Francisco de Assis, aonde veio a se aposentar. Para completar a renda, vendia roupa de porta em porta e criava porcos.

              De temperamento agitado dizia o que queria.  Protestante da Assembléia de Deus durante dez anos,  aborreceu-se com o pastor por causa da rigidez no vestuário: gostava de se arrumar e de usar maquiagem. Ao ser patrulhada,  retrucou:

 

“Maria: o senhor paga a minha feira?”

 

“Pastor: não!”

 

“Maria: então vá tomar no cu...”

 

Nunca mais botou os pés lá!

 

                      No ano passado, sentiu um dor na parte inferior do ventre por volta de 23h, quando meu irmão levou-a para o hospital Walfredo Gurgel. Lá foi diagnosticada com diverticulite (inflamação nos intestinos). Após autorização dos filhos (eu e Sérgio), foi operada pela madrugada. A operação correu normal e ela ficou em observação no pós-operatório por dois dias até que seu quadro de saúde piorou e ela veio precisar de uma UTI. Todas estavam lotadas. Fiz de tudo para conseguir uma vaga com o Dr. Renato, que trabalhou com minha esposa na Secretaria Municipal de Saúde, e estava respondendo pela Direção Geral. Passei uma tarde inteira no Walfredo juntando documentos para ingressar na Justiça com uma Ação de Obrigação de Fazer. Por volta de meia-noite, a petição estava pronta para de manhã dar entrada. Às  duas  horas da madruga, veio a óbito. O serviço social ligou para mim e para meu irmão (este não teve coragem de ir liberar o corpo) e eu fui. Foi o pior lugar que entrei na minha vida: pouca luz, fétido e muita gente morta!

                 

“No meio, a Rua do Motor

com urubus e carniças”

 

“agora a Nova Jerusalém Celestial

Onde Deus

  espera-lhe

Entre  o  azul  e  o infinito”

 

Eu não sabia que doía tanto!