Francisco Alves da Costa Sobrinho

 

A poesia (e o poema) do Rio Grande do Norte tem sido  marcada por momentos de grande significação no cenário brasileiro, embora sem  repercussão na mesma dimensão da sua importância e grandiosidade.

Tida por boa parte da critica, a principio, como uma poesia reverencial, contemplativa e modorrenta,  eivada de conformismos e choramingas,  marcada por falta de atitudes e dubiedades, dúctil e sem opinião, chegando a ser mencionada como “uma poesia a reboque de poetas de outras regiões do pais”,  entende-se que a poesia potiguar foi adquirindo personalidade própria ao longo do tempo, ao revelar poetas de grande expressão, sobremaneira a partir da expressão poética de Jorge Fernandes.

Para o critico Moacy Cirne,  “a poesia, no Rio Grande do Norte, apresenta dois momentos de maior plenitude literária (e anti-literária): a publicação do LIVRO DE POEMAS de Jorge Fernandes, em 1927, e o lançamento local da Poesia Concreta, em 1966.  Com o seu posterior desdobramento no Poema Processo (...) no espaço literatizante inaugurado por Jorge Fernandes, ao levantar a problemática da vanguarda, ou seja, da poesia (abstração: sentimento) ao poema (concreção: fisicalidade).”

E, ainda Moacy Cirne: “O poema jorgiano contém, em seu bojo, a simbolização onomatopaica (vide: Manhecença..., Briga do teju e a cobra, Viva o sol! ...Tetéu, etc.), o recurso caligramatizante (Rede), o espaçamento verbal (Tetéu),  a metacrítica ao parnasianismo. No meio de tanta versalhada, que então se publicava, o nome de Jorge Fernandes — cuja poesia, até 1959/1960, ainda seria bastante atual — é um monumento literário. Nas palavras de Mário de Andrade, seu Livro de poemas conserva uma memória guardada nos músculos, nos nervos, no estômago, nos olhos, das coisas que viveu”.

No entanto, em contraponto, a poesia do Rio Grande do Norte revelou e apresenta grandes nomes de repercussão nacional, em categorias diversas, tais como Auta de Souza, Edinor Avelino,   Fabião das Queimadas,   Ferreira Itajubá, Fagundes de Menezes, Homero Homem, Jayme Wanderley, Dionisia Gonçalves Pinto (Nisia Floresta), Isabel Gondim, Romulo Wanderley,  Lourival Açucena, Moyses Sesyom, Renato Caldas, José Bezerra Gomes,  Newton Navarro, Miriam Coeli, Luiz Carlos Guimarães, Walflan de Queiroz, Zila Mamede, dentre outros, além dos atuais poetas e poetisas de significativa importância no cenário local e nacional, como Nei Leandro de Castro, Adriano de Sousa, Avelino Araujo, Carmem Vasconcelos, Dorian Gray, Deifilo Gurgel, Diógenes da Cunha Lima, Iaperi Araujo, Diva Cunha, Jarbas Martins, Rizolete Fernandes, Carlos Humberto Dantas, Vicente Vitoriano,  Livio de Oliveira, Franklin Jorge, Marise de Castro, Miguel Cirilo, Fernando Pimenta, Nivaldete Ferreira, Sanderson Negreiros, Marcio de Lima Dantas, Manoel Fernandes Volonté, Paulo de Tarso Correia de Melo, Marcos Cavalcanti, Antonio Francisco, Antonio de Pádua Borges (Borginho, de Sta. Cruz), Iara Carvalho e Maria Maria,  Falves Silva, J. Medeiros,  e o próprio Moacy Cirne, secundados por um sem numero de escritoras e escritores contemporâneos dedicados ao fazer poético no Rio Grande do Norte.

 

E tudo começou lá no forte

 

         A maioria das pessoas que prestigiam o dia 14 de março em Natal mal sabe quando e como começou essa identificação da cidade com a poesia. Para o artista visual e militante dos movimentos de esquerda nas décadas de 60/70, Venâncio Pinheiro “a ideia de fincar a bandeira de homenagem aos poetas numa data especial surgiu durante os célebres Festivais de Arte do Forte (ou Festival de Arte de Natal), que ocorriam nos anos 1970 no Forte dos Reis Magos porque, segundo Pinheiro, era a única área liberada da cidade. “Era uma loucura. E tinha de tudo: cinema, música, poesia... o Forte era a única área em que a polícia não ia. E nós estávamos querendo demarcar um dia que fosse nosso! Se tanta coisa tem um dia especial, porque a gente não podia ter?”.      

 

         Por outro lado, há um registro de que a primeira comemoração desta data aconteceu em 1977 - com o projeto Poesia Viva de autoria de Paulo Bruscky (PE) e Unhandeijara Lisboa (PB).

         Registra-se também que, em Natal, em dezembro desse ano, a equipe poema /processo Jota Medeiros, Falves Silva e Anchieta Fernandes, realizaram a Expoética 77 na galeria da Biblioteca Câmara Cascudo. Também que, em 14 de Março de 1978 os poetas Jota Medeiros e Eduardo Alexandre comemoraram em Natal o Dia Nacional da Poesia com o projeto poesia por telefone, iniciativa que  foi censurada estando no ar um dia antes em caráter experimental.

         Assim,  esta data, que foi escolhida em homenagem ao poeta Castro Alves e ao cineasta Glauber Rocha, nascidos em 14 de Março, passou a ser comemorada anualmente em Natal, transformando-se em um evento tradicional celebrado por vários artistas e poetas de todas as tendências em todo Estado do RN.

 

 

Opinião do escritor Carlos Fernandes:

 

“Desconheço registros históricos que definam o dia 20 de outubro como dia do poeta, mas há uma grande quantidade de publicações que se referem a esta data como tal.”

E continua: “oficialmente sabe-se que o Dia Nacional da Poesia foi escolhido para ser comemorado todo 14 de março porque foi quando nasceu o grande ícone da literatura brasileira, o poeta brasileiro Antônio Frederico de Castro Alves (1847-1871).

Contudo, o Dia Mundial da Poesia no resto do mundo é comemorado no 21 de março. Essa data foi estabelecida em 16 de novembro de 1999, na XXX Conferência Geral da UNESCO. “

 

- Portanto, observamos que esta iniciativa da UNESCO deu-se mais de vinte anos após a escolha – e das comemorações em Natal - do dia 14 de março como o Dia Nacional da Poesia, em homenagem a Castro Alves (o  poeta da Abolição).

 

A COART, O FAN (ou “Festival do Forte”) e o Dia Nacional da Poesia:

        

         Em verdade, a primeira grande manifestação (e comemoração) coletiva do DIA NACIONAL DA POESIA, sem duvida,  ocorreu em Natal (e há noticia de  ocorrência no Rio de Janeiro e em João Pessoa),  fruto de grande mobilização feita a partir dos movimentos de resistencia cultural da época, todos advindos do Festival de Artes de Natal – FAN – também denominado de “Festival do Forte dos Reis Magos”, e todos convergindo para a COOART – Cooperativa dos Artistas de Natal, a qual colocava-se como uma espécie de grande ponto da cultura, abrigando demcraticamente todas os grupos, associações e movimentos, como era o caso da Associação dos Artistas Plasticos, do GRUPHQ, do Cine Clube Tirol, e das campanhas e movimentos dos atores, escritores, editores, sebistas, arteeducadores e tantos outros.

 

O 14 DE MARÇO COMO MARCO E O FOCO DA RESISTENCIA CULTURAL EM NATAL

 

         - Figuras que participaram, em Natal, das primeiras comemorações do Dia Nacional da Poesia:

 

Alex Medeiros, Ana Dubois, Ana Maria Jatobá, Aluizio Matias, Augusto Lula, Blackout, Carlos Gurgel, Cleudo Freire, Claudio Damasceno, Dorian Lima, Eduardo Alexandre (Dunga), Francisco Alves da Costa Sobrinho, Fon, Jarbas Martins, J. Medeiros, João Barra, João da Rua, Lelé Alves, Lola, Lucinha Morena, Miranda Sá, Novenil Barros, Plinio Sanderson, Rejane Lopes Cardoso, Reinaldo Azevedo, Rose Marry, Venâncio Pinheiro.

 

        - Locais de colocação das garrafas com a “poesia flutuante”:

 

NO RIO E NO MAR:

 

-Trampolim da Praia de Areia Preta

-Jogadas da Ponte de Igapó

-Jogadas do Forte dos Reis Magos

-Cais da Pedra do Rosário, no Rio Potengi

-Poço do Dentão, na Praia do Meio

-Praia de Ponta Negra

 

NAS RUAS, PRAÇAS E LUGARES (10 pontos):

 

-Praça do Estudante (Grande Ponto) -> Recital e distribuição de poemas impressos (todos)

-Café São Luiz (Grande Ponto) - Todos

-Livraria Universitária (Gonzaga, Luiz e Capistrano)

-Atheneu (Sezildo, Juliano, Erivan)

-Frei Miguelinho (Anchieta e Mara)

-FJA - Sala dos Grandes Atos e Faculdades (Chico Alves)

-Casa do Estudante (Emanuel, Ivaldo Caetano e .......)

-Cine Clube Tirol (Gorete Lucena)

-Biblioteca Câmara Cascudo (Zila Mamede)

-Praia dos Artistas (Dunga – Galeria do Povo)

 

- Na ocasião, foram escolhidas as poesias, impressas e distribuídas como torpedos poéticos de inúmeros poetas brasileiros, conhecidos / consagrados ou não, inclusive os potiguares, como os que se encontram nesta incompleta lista nominal rôta e sem data, que ainda tenho, em ordem alfabética:

 

Ana Dubois, Carlos Gurgel, Carlos Humberto Dantas, Celso da Silveira, Dailor Varela, Deifilo Gurgel, Dorian Gray, Diógenes da Cunha Lima, Dunga (Eduardo Alexandre), Emanoel Bezerra, Francisco (Chico) Alves, Gilberto Avelino, Jarbas Martins, J. Medeiros, Jaumir Andrade, João Lins Caldas, Jorge Fernandes, João da Rua, João Gualberto, José Bezerra Gomes, Luiz Carlos Guimarães, Marcelus Bob, Miriam Coeli, Miguel Cirilo, Nei Leandro de Castro, Newton Navarro, Pedro Pereira, Plinio Sanderson, Rubens Lemos, Sanderson Negreiros, Venâncio Pinheiro, Zila Mamede.