Paulo Jorge Dumaresq

Telefone toca. Repórter atende. Paulo, é o Marcio. Tudo bem? Olha, aquele papo sobre política no final da entrevista, escreve na matéria que eu voto na Marina (Silva). Outra coisa: acrescenta que o meu partido é o Partido dos Torcedores do Flamengo. Quase dois dias depois, liga novamente e pede para trocar o Partido dos Torcedores do Flamengo pelo “Partido da Torcida do Flamengo”. “Fica mais claro”, argumenta.

Argumentos não faltaram no encontro com Marcio Otavio Saes Ferreira, no Nalva Melo Café Salão, numa quinta-feira de calor africano em Natal. Paulista de Campinas radicado na capital papa-jerimum há 20 anos o ator, cenógrafo e encenador se define como um homem de teatro. Tímido e sem referência das artes cênicas – a mãe fizera teatro na adolescência passagem que fica sabendo já homem feito – somente desperta para o palco em São Paulo. Ainda criança, vai com os pais para o município de Araçoiaba da Serra, distante 123 Km da Pauliceia. Até os 14 anos leva vida bucólica, morando em fazenda. Depois parte para Sampa no intuito de estudar e prestar o vestibular para Comunicação Social. Não obtém êxito.

Impõe-se afirmar que 1969 provocou mudanças na vida de milhões de jovens no mundo inteiro. A de Marcio Otavio também sofreu reviravoltas. Naquele ano de grandes transformações políticas, sociais, culturais e sexuais, assiste no Teatro Oficina, ao espetáculo Na Selva das Cidades, terceiro texto de Bertold Brecht e direção de José Celso Martinez Correa, com Ítala Nandi despida em cena. “Foi o primeiro nu frontal no teatro brasileiro. Eu fiquei enlouquecido”, exclama. Com seus olhinhos infantis, ainda confere Blow-upO Balcão. Resultado: aprovado. Começava no Teatro Ruth Escobar a longa cumplicidade de Marcio Otavio com a arte de representar. (1969), de Michelangelo Antonioni, filme revolucionário tanto no conteúdo como na forma. Para se manter em São Paulo, labuta numa loja de queijos e vinhos e depois trabalha de garçom. Encantado pelo teatro faz teste para o espetáculo

 

O Balcão

Peça do dramaturgo francês Jean Genet, O Balcão estreou no Teatro Ruth Escobar em 1969. O ambiente era iluminado por meio de um espelho parabólico, escavado no concreto do porão, cinco metros abaixo do palco, uma espécie de concha elipsoidal com plástico espelhado, desempenhando função semelhante a de um farol de automóvel.

Havia ainda um módulo que subia e descia. Neste palco móvel passavam-se a maioria das cenas, mas os atores distribuíam-se por todo o teatro, inclusive nos passadiços inclinados em que o publico ficava. Dos urdimentos, descia uma rampa em espiral com nove metros de altura, sendo utilizada em alguns quadros. Além disso, foram instalados cinco elevadores individuais e dois guindastes suspendendo duas gaiolas, onde um par de atrizes contracenava.

Os atores também usavam plataformas, na verdade pequenos palcos individuais, verdadeiros trampolins. Tinha também uma mesa ginecológica que entrava no módulo sem ajuda humana. Finalmente uma parte da estrutura metálica se abria para a entrada dos revolucionários. Um colosso arquitetônico-cenográfico concebido por Wladimir Pereira Cardoso, com o beneplácito do diretor argentino radicado na França, Victor Garcia.

São Paulo na época de O Balcão fervilhava culturalmente. Mas a repressão do regime militar e a ferocidade dos seus apoiadores não davam tréguas ao pessoal de teatro. O exemplo mais marcante é o episódio envolvendo o espetáculo Roda viva, de Chico Buarque, em 1968, quando 20 integrantes do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), portando cassetetes, invadiram o Galpão – a sala de cima do Teatro Ruth Escobar – espancando quem encontravam pela frente, depredando poltronas, quebrando refletores, instrumentos musicais e, por fim, subindo aos camarins, espancaram as atrizes, tiraram suas roupas e praticaram atos de sevícia com elas.

Com O Balcão também não teve moleza. Uma atriz que fazia o papel de revolucionária foi presa acusada de ter hospedado Carlos Lamarca. A vida imitara a arte. Ou teria sido o contrário? “Mesmo com toda a repressão do regime se gozava uma liberdade que não se tinha normalmente. Liberdade de pensamento e sexual. O meio teatral era saudável, mesmo com alguma ciumeira ou picuinha ali e acolá. Mas a classe era unida contra a ditadura, o nosso inimigo em comum”, ressalta Marcio Otavio.

No final dos anos 1960, Ademar Guerra, Antunes Filho, Celso Nunes e José Celso Martinez Correa eram os grandes revolucionários da direção teatral.  Na dramaturgia, Antonio Bivar, José Vicente e Plínio Marcos começavam a dar as cartas, mas sob forte censura. Para dar vida aos textos se destacavam Raul Cortez, sua mulher Célia Helena, Antônio Fagundes, Carlos Augusto Strazzer, Ney Latorraca,Tony Ramos e outros jovens atores. Cenografia era sinônimo de Flávio Império.

O Teatro de Arena, o Oficina e o Ruth Escobar abrigavam os novos da cena paulistana. A “grande mãe” Ruth Escobar – la gran putaO Balcão rala três anos. Faz figuração pelado e depois interpreta o Repórter, entre outros papéis. Com pouca vivência teatral, o espetáculo “funde a cuca” do ator. Após aquela experiência impactante adquire outra visão de mundo. na expressão de Victor Garcia – movimentava essa cena. Marcio Otavio trabalha cinco anos com a atriz e empresária. N’

O diretor Victor Garcia teve influência direta na formação teatral de Marcio Otavio. Ao contrário do que muita gente poderia imaginar Garcia não era um diretor rigoroso, um ditador travestido de artista. Não. Sua maior virtude residia na magia teatral, no modo de armar a cena. A aproximação do argentino redunda em convite, tempos depois de O Balcão, para Marcio ser seu assistente de direção em O homem e o cavalo, de Oswald de Andrade. Após semanas de ensaios o espetáculo implodiu. Victor Garcia brigara com la gran puta.

Ainda sob custódia de Ruth Escobar, Marcio trabalha em Romanceiro da Inconfidência (1972), adaptação teatral do livro de poemas de Cecília Meireles e direção do potiguar Rofran Fernandes, substituto de Raul Cortez em O Balcão. Também representa em Missa Leiga (1975), dirigido por Ademar Guerra. O espetáculo cumpre carreira internacional e o ator tem a oportunidade de conhecer e trabalhar em Portugal e África. Na sua visão, Ruth Escobar tinha um magnetismo que imantava as pessoas, conquistando-as ao primeiro contato. “Quando você via estava carregando a bolsa dela. Era uma mulher inteligente e esperta. Emocionalmente instável, podia ser mel ou fel. Carente de afeto dedicava-se totalmente ao teatro”, registra.

Natal

Da amizade com Rofran Fernandes surge o convite para trabalhar numa produção teatral natalense sobre a vida e a obra do poeta paraibano Augusto dos Anjos subvencionada pelo Governo do Estado. Marcio veio com mais quatro atores aos quais se juntaram oito potiguares, entre eles Amaro Lima, Sérgio Dieb e Fátima Arruda. O espetáculo fica em temporada no Teatro Alberto Maranhão e se reveste de sucesso com direito à presença do governador da Paraíba. “Quando eu vim para trabalhar no espetáculo de Augusto dos Anjos fiz laboratório com Carlos Furtado que era o máximo em direção teatral na cidade”, relembra.

Concluída a temporada, retorna a São Paulo, onde dá continuidade à carreira. Volta a pisar o chão natalense como assistente de direção de Rofran no primeiro Auto de Natal da cidade, encenado no Palácio dos Esportes, no último ano da gestão do ex-governador Cortez Pereira. No regresso à Pauliceia atua em diversos trabalhos com o grupo do dramaturgo e diretor José Antônio de Souza. No cinema, participa dos longas Pecado sem Nome (1978), dirigido pelo argentino Juan Siringo, e O Encalhe – Sete Dias de Agonia (1982), de Denoy de Oliveira.

Por meio de Rofran Fernandes, Marcio Otavio conhece e priva da amizade de outra celebridade da cultura nacional, a poetisa, contista e dramaturga Hilda Hilst, que morava numa fazenda no município de Campinas. Ao voltar baratinado da viagem à África, uma experiência mística que mexeu com o interior do ator, Hilda percebendo o transtorno do novo amigo, convida-o para passar um “tempo” na fazenda. Marcio fica um ano. “Defino Hilda como uma mulher de verdade. Linda e inteligente, era credora do amor, do ser humano e muito mística. Acreditava até em disco voador”, revela.

Fixar residência em Natal, só vem mesmo no fim da década de 1980, como contratado da construtora RC Engenharia. Acabou não dando certo. Contudo não quis mais voltar para o caos urbano de São Paulo. Finca raízes em Natal. O primeiro trabalho já radicado na cidade é À Luz da Lua, os Punhais, com dramaturgia de Racine Santos e direção de Moncho Rodrigues.  Os mais experientes hão de se recordar de participações de Marcio Otavio no programa Cabugi Verão, da TV Cabugi, no qual fazia o papel de um surfista desajeitado. Dos trabalhos teatrais em Natal, na qualidade de ator, destaca À Luz da Lua, os Punhais, Os Desencantos do Diabo, do dramaturgo Ronaldo de Brito e direção de Moncho Rodrigues, e A Farsa do Poder, texto de Racine Santos.

Por culpa do ator, o diretor Marcio Otavio só desabrocha tardiamente. Antes de encarar a direção faz assistência para o mítico Fauzi Arap no espetáculo Rua Dez (1986), sobre o sistema prisional. “Fauzi é iluminado. Ele dirige com a alma. Capta a essência do ator. É um maestro. Eu gosto de direção. Ainda vou aprender. Dá tempo”, brinca o ator de 66 anos. Em Natal dirige O Congresso das Borboletas, na década de 1990, e Elvira do Ipiranga (2009).

Marcio Otavio também é o único profissional de teatro do Estado a fazer curso no Espaço Cenográfico de José Carlos Serroni, considerado um ícone mundial da cenografia. Tudo graças à Bolsa Virtuose do MinC. O curso dura um ano e o ator tem a oportunidade de ficar em São Paulo. Esnoba Sampa. Mas quis o destino que um infarto o obrigasse a voltar outra vez à Pauliceia. Daquela feita para colocar uma ponte de safena no Hospital das Clínicas.

Planos

Homem de teatro com larga experiência no tablado, Marcio Otavio idealiza dirigir dois espetáculos no Café Salão em 2010. Jozú, o Encantador de Ratos, conto de Hilda Hilst, e O Frango Nosso de Cada Domingo, texto de Lenício Queiroga. Ainda confessa que sempre teve vontade de interpretar Calígula, do texto homônimo de Albert Camus, após presenciar “deslumbrado” uma leitura de Fauzi Arap. Mas agora com as rugas de expressão teatral faria outro personagem.

O cego Tirésias do Édipo Rei, de Sófocles, também habita seu imaginário. A admiração pelo personagem se concretiza depois de ter visto o filme de Pier Paolo Pasolini no qual o ator norte-americano, Julian Beck, do lendário grupo The Living Theatre, interpreta Tirésias. Marcio Otavio lembra que Ruth Escobar hospedou o famoso ator e a mulher Judith  Malina na casa dela. Depois o grupo cumpriu compromisso no Rio, antes de seguir viagem para Ouro Preto e entrar em cana. Os 21 integrantes do Living Theatre são presos por causa de uma armação. Forjaram porte de drogas. Resumo da ópera: trupe “engaiolada” no Dops de Belo Horizonte. O caso teve repercussão internacional.

Mesmo tendo convivido com grandes estrelas do teatro brasileiro, Marcio aponta alguns atores natalenses da sua predileção. Cita João Pinheiro, César Amorim e João Antônio Vale. Das atrizes, destaca Bárbara Cristina, Quitéria Kelly e Titina Medeiros. Na direção teatral, ressalta as qualidades de João Marcelino e Fernando Yamamoto. “O japonês é bom. Muito bom”, desaba em risos.

Desencantado com os gestores públicos da área cultural, o ator faz coro aos que acreditam não haver política cultural em Natal e no Estado, apenas política de eventos. Em relação às últimas diretoras do Teatro Alberto Maranhão nomeadas pelo(a) governador(a) de plantão, assinala que, antes de assumir o cargo, elas deviam ser sabatinadas pela classe teatral com questionamentos tais como: política de ocupação do TAM, tempo de trabalho disponível, vivência artística, além de perguntas técnicas sobre um teatro.

No campo metafísico, o virginiano Marcio Otavio é devoto de Nossa Senhora das Graças e do Menino Jesus. Nos dias de hoje não se considera mais místico. Mas já foi budista. Com Deus mantém certa distância, porque é muito “pecador”. No ser humano, acredita. Com a política partidária e os políticos, desencantou-se. Mas, até segunda ordem, votará na senadora Marina Silva (PV-AC) para presidente da República nas próximas eleições.

A cor do seu teatro? “Azul”, responde convicto, mesmo tendo a fachada da casa pintada de verde e rosa. Para concluir, pergunto a Marcio Otavio com quantos paus se faz uma cenografia. Não titubeia: “Um é suficiente. O resto é coreografia”, ri a bandeiras desfraldadas.