PANDORA

 

Roberto Lima de Souza

 

Quanto eu quisera, mulher,

Que fosses sempre festejada!

Quesó se erguesse, para ti, a mão,

Por um suave aceno,

Que só tocassem em teu cabelo

Por um gesto de carícia

E, ao se elevar,diante de ti, a voz

Que fossesempre para te exaltar!

 

Quanto eu quisera, mulher,

Que, em teu trabalho, te tratassem simplesmente com a justiça,

Pelatua dignidade e pela tua profissão,

Pelo teu valor e pelo teu talento

E, assim, pela beleza do que és, do que sabes e do que fazes...

 

Ah! Quanto eu quisera, mulher,

Que te permitissem sempre o desabrochar livre esuave das flores,

Com direito aos beijos do sol

E às doces descobertas das abelhas e dos pássaros...

 

Quanto eu quisera, mulher,

Que sangrasses apenas pela alegria de te saberes mulher

No sangue sagrado que alimenta a vida,

No fogo sagrado, causaprimeira e bendita,

Que trouxe Pandoraà terra.

 

E tudo isso,mulher, porqueés a força que faz completar a criação,

Porque tens o poder de fazer frutificar

A radiosa esperança de que há um mundo possível a florescer,

Eacalentas o despertar da humanidadepara contemplar essa nova alvorada

Em que a inefável bondade vem triunfar...

 

E tudo isso, mulher, porque ésPandora,

A agraciada pelos deuses com todos os dons,

A encantadora e a encantada do amor e da vida,

Ede muito mais que nãose pode olvidar:

Asuprema fortaleza de ser femina, a que fecunda,

Porque esta é a força da natureza e a essencialidade do humano vigor;

Pois assim como feminina é a terra e a água,

Semas quais que não teriam sentido o sol, nem o calor, nem a semente,

São femininas as virtudes todas, como a bondade, a paz e a beleza;

Como a alegria, a ternura e a delicadeza...

E tudo isso, ó mulher, para tornar possível fecundar o amor...

 



O SORRISO DA MULHER AMADA

 

 

 

O sorriso da mulher amada

Enche a tarde de estrelas,

A noite, de ternuras renovadas

E a madrugada, de arrebol.

 

Seu despertar que descortina claridades

Enche o jardim de mágicas carícias:

Perfuma o jasmim de branco

E iluminacorolas de girassol...

 

A nossa casa é o seu reino transmarino

De descontínua descoberta,

Que se fosse contínua a descoberta

Perderia a essencialidade

De ser descoberta.

 

Para além dos nossos muros,

Há um outro mar imensamente aberto,

Não um mar de tormentas,

Mas oceano novo que começa a navegar.

 

E eu, marinheiro noturno,

Fico esperando manhãs e quase tardes

Até que o sorriso da mulher amada

Venha trazer-me, de novo, as estrelas...