Está feito: o Brasil é mesmo “um cazo cem jeito!” – o MEC acaba de consagrar o “nós vai pegar o peixe” para “nós entrar pra universidadi”.

Como explicar um entendimento tão desastroso a respeito da proficiência em vernáculo? Como aceitar que o MEC oficialize que, depois de passar pelo Ensino Fundamental e pelo Ensino Médio, o jovem possa chegar à Universidade sem estar alfabetizado em vernáculo? Será que o MEC entende a alfabetização como objetivo primeiro do ensino universitário?

EM TEMPO: esse academicismo de falar em “letramento” para impor autoritariamente suas ideias nefastas quanto aos objetivos do ensino superior, é só cortina de fumaça autoritária para esconder seu projeto para as novas gerações. Quem está em “processo de letramento” está, em linguagem sem pedantismo, em processo de alfabetização. Traduzindo em miúdos: quem está em processo de letramento está aprendendo a ler e a escrever em vernáculo; ou seja: ainda não tem proficiência em Língua Portuguesa, que é nosso vernáculo. O resto é conversa mole...

Basta que se leia abaixo: o MEC admite que, depois de passar pelo Ensino Fundamental e pelo Ensino Médio, os jovens candidatos ao ensino superior não estão alfabetizados (na língua do MEC, não estar alfabetizado é igual a estar em processo de letramento).

A coisa é assim: no Brasil, usa-se uma linguagem dita acadêmica e uma terminologia científica para mascarar um projeto pedagógico desastroso: definir que jovens analfabetos terão oportunidade de completar a alfabetização na Universidade. Algum dia, em algum outro nível de formação educacional, esses jovens que entram na Universidade sem proficiência em Língua Portuguesa poderão ter ocasião de entrar no mundo das Ciências, das Humanidades, da Tecnologia, depois de completado o “processo de letramento”.  Quando???

Mas, o MEC, primeiro e último responsável pelo ENEM, providenciou uma redação modelo, para fazer de conta que Educação é assunto de seu interesse e que leva esse assunto a sério. Pura figuração para turista ver. Na tal redação modelo, o texto é perfumado com alusões a Thomas More, a uma “ideia aristotélica” e a Gonçalves Dias, na menção à “Canção do exílio” (no modelo, o título aparece fora das normas da ABNT), como se quem escreve “trousse”(= trouxe), na redação do ENEM que teve nota máxima, pudesse ter uma ideia “rasoavel” (= razoável) de quem foi Thomas More e Aristóteles (o tal da “ideia aristotélica”) ou “enchergar” (= enxergar) algum sentido minimamente “necessario” (= necessário) na tal “Canção do exílio”, já tão fora de moda da trilha sonora das baladas dos candidatos à Universidade.

Isto é: a tal redação modelo não passa de marquetingue do MEC, em sua política de fingimento de seriedade.

Para ver o modelo de redação da vitrine do MEC, que desenvolve uma cretina política educacional, pretendendo divulgar seriedade, qualidade e responsabilidade para com as novas gerações, eis o link http://oglobo.globo.com/vestibular/enem-2012-confira-modelo-de-redacao-feito-por-professores-6633257 - e lá está o faz de conta que quem escreve “trousse” sabe que “hajam” humanistas e que entre os quais está Thomas More, e que pode “enchergar” a importância crítica de Utopia.

Creio que me alonguei nos comentários diante de um crime contra a Língua Portuguesa que faz parte do pacote de mediocrização (neologismo) das novas gerações. Mas não dá para aceitar uma política educacional que consagra “nós vai pegar o peixe” e que “trousse” o erro como prova de proficiência na “Última flor do Lácio, inculta e bela” (Olavo Bilac).  

Na marcha que segue, em pouco tempo, nós vai tá falano e ninguém vão tá se entendeno e só vai restar que nós sofre mas nós goza e nós vota nas próxima eleição porque o MEC fez nosso filho sê doutô.

Não resisto à tentação de perguntar onde estão as sociedades científicas, antigamente comprometidas com a qualidade do ensino universitário, com a pesquisa científica, com a formação das novas gerações de intelectuais, com a inteligência nacional, com o zelo da Língua vernácula: SBPC, UBE, ANPOLL (fui presidente da ANPOLL [1994-1996]), ABRALIN, ABRALINC??? Por onde anda a ABL??? – será que todas “foi pegar os peixe?”

Sônia van Dijck

22:58 Segunda 18.03.2013

Enem 2012: textos nota 1000 têm erros como ‘enchergar’ e ‘trousse’

Lauro Neto (Email · Facebook · Twitter)

Publicado: 17/03/13 - 23h00

Atualizado: 18/03/13 - 8h20

RIO — “Rasoavel”, “enchergar”, “trousse”. Esses são alguns dos erros de grafia encontrados em redações que receberam nota 1.000 no Exame Nacional de Ensino Médio 2012 (Enem). Durante um mês, O GLOBO recebeu mais de 30 textos enviados por candidatos que atingiram a pontuação máxima, com a comprovação das notas pelo Ministério da Educação (MEC) e a confirmação pelas universidades federais em que os estudantes foram aprovados. Além desses absurdos na língua portuguesa, várias redações continham graves problemas de concordância verbal, acentuação e pontuação.

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Apesar de seguirem a proposta do tema “A imigração para o Brasil no século XXI”, os textos não respeitavam a primeira das cinco competências avaliadas pelos corretores: “demonstrar domínio da norma padrão da língua escrita”. Cada competência tem a pontuação máxima de 200 pontos.

Segundo o “Guia do participante: a redação no Enem 2012”, produzido pelo MEC, os 200 pontos na competência 1 são atingidos apenas se “o participante demonstra excelente domínio da norma padrão, não apresentando ou apresentando pouquíssimos desvios gramaticais leves e de convenções da escrita. (...) Desvios mais graves, como a ausência de concordância verbal, excluem a redação da pontuação mais alta”.

O manual aponta, entre os desvios mais graves, erros de grafia, acentuação e pontuação. Na mesma redação em que figura a grafia “rasoavel”, palavras como “indivíduos”, “saúde”, “geográfica” e “necessário” aparecem sem acento. E ao menos dois períodos terminam sem o ponto final.

Em outro texto recebido pelo GLOBO, aparecem problemas de concordância verbal, como nos trechos “Essas providências, no entanto, não deve (sic) ser expulsão” e “os movimentos imigratórios para o Brasil no século XXI é (sic)”. O mesmo candidato, equivocadamente, conjuga no plural o verbo haver no sentido de existir em duas ocasiões: “É fundamental que hajam (sic) debates” e “de modo que não hajam (sic) diferenças”.

Uma terceira redação nota 1.000 apresenta a grafia “enchergar”, além de problema de concordância nominal no trecho “o movimento migratório para o Brasil advém de necessidades básicas de alguns cidadãos, e, portanto, deve ser compreendida (sic)”. Em outro texto, além da palavra “trousse”, há ausência de acento circunflexo em “recebê-los” e uso impróprio da forma “porque” na pergunta “Porém, porque (sic) essa população escolheu o Brasil?”.

Pós-doutor em Linguística Aplicada e professor da UFRJ e da Uerj, Jerônimo Rodrigues de Moraes Neto diz que essas redações não deveriam receber a pontuação máxima.

— A atribuição injusta do conceito máximo a quem não teve o mérito estimula a popularização do uso da língua portuguesa, impedindo nossos alunos de falar, ler e escrever reconhecendo suas variedades linguísticas. Além disso, provoca a formação de profissionais incapazes de se comunicar, em níveis profissional e pessoal, e de decodificar o próprio sistema da língua portuguesa — aponta Moraes Neto.

Claudio Cezar Henriques, professor titular de Língua Portuguesa do Instituto de Letras da Uerj, reitera que, ao ingressar na universidade, esses alunos terão de se ajustar às normas da língua de prestígio acadêmico se quiserem se tornar profissionais capacitados. Ele observa que a banca corretora não usa o termo “erro”, mas “desvio”, algo que, segundo ele, é “eufemismo da moda”.

— A demagogia política anda de braço dado com a demagogia linguística. É preciso lembrar que as avaliações oficiais julgam os alunos, mas também julgam o sistema de ensino. Na vida real, redações como essas jamais tirariam nota máxima, pois contêm erros que a sociedade não aceita. Afinal, pareceres, relatórios, artigos científicos, livros e matérias de jornal que contiverem esses desvios/erros colocarão em risco o emprego de revisores, pesquisadores e jornalistas, não é? — ele indaga.

Logo que o MEC liberou a consulta ao espelho da redação, em fevereiro, o site do GLOBO publicou uma reportagem pedindo que estudantes enviassem redações com nota 1.000, junto com seus comprovantes. O objetivo era expor os bons exemplos no site. Porém, ao ler as redações, a equipe percebeu erros gritantes em várias dissertações. Foram enviadas ao MEC, então, quatro delas. Para não expor os alunos, os textos foram digitados, e as informações pessoais (nome, CPF e número de inscrição), omitidas. O GLOBO perguntou se os desvios não desrespeitavam os critérios estabelecidos pelo manual do MEC, e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anysio Teixeira (Inep) alegou que não comenta redações: “por respeito aos participantes, a vista pedagógica é dada especificamente a quem prestou o exame”.

Segundo o Inep, “uma redação nota 1.000 deve ser sempre um excelente texto, mesmo que apresente alguns desvios em cada competência avaliada. A tolerância deve-se à consideração, e isto é relevante do ponto de vista pedagógico, de ser o participante do Enem, por definição, um egresso do ensino médio, ainda em processo de letramento na transição para o nível superior”.

Sobre os critérios usados na correção da redação do Enem 2012, estabelecidos pela coordenação pedagógica do exame, a cargo de professores doutores em Linguística da Universidade de Brasília (UnB), o Inep informa que a análise do texto é feita como um todo. Segundo a nota, “um texto pode apresentar eventuais erros de grafia, mas pode ser rico em sua organização sintática, revelando um excelente domínio das estruturas da língua portuguesa”.

FONTE:

http://oglobo.globo.com/educacao/enem-2012-textos-nota-1000-tem-erros-como-enchergar-trousse-7866485

MAIS:

http://globotv.globo.com/globo-news/jornal-globo-news/v/ministerio-da-educacao-admite-tolerancia-com-erros-nas-redacoes-do-enem/2467094/

PS: Repassem não só para os amigos, mas para que possa chegar aos representantes ou responsáveis pelas sociedades científicasSBPC, UBE, ANPOLL,  ABRALIN, ABRALINC, ABL e outras muitas antigamente comprometidas com a formação das novas gerações e a memória científica, humanística e tecnológica que o Brasil vinha construído.