Nati Cortez.

Em 1923, com nove anos de idade, tive como professora de pintura, a senhorita Sara de Paula, hoje dona Sara Freitas, viúva do Sr. Sérgio Freire, aproveitando os  meus pendores artísticos, mamãe tratou de botar-me numa aula particular localizada na rua P. José da Penha, na praça Leão XIII, próxima a Igreja do Bom Jesus. Dona Sara, ótima criatura, muito paciente, ensinou-me a arte da pintura que imortalizou Miguelangelo, Rafael, Murilo, Leonardo da Vinci... As aulas sempre funcionavam à tarde. Consegui pintar belas aquarelas tendo por modelos cartões postais daquela época que por sinal eram lindos. Principiei pelo “crayon”, depois ao “nanquim”. Passando pelas aquarelas, cheguei à pintura a óleo. D. Sara. Era o tipo da artista, da pintora exímia. Muito simpática, atraente, de olhos vivos, possuindo um belo físico, conquistou logo o coração da gente. Sempre percuciente, alegre e satisfeita, filha do casal Joaquim e Paula Barbosa, possuía todos os predicados da moça cristã coisas nos tempos de hoje. A residência dela, perto do Bom Jesus, além de grande, possuía um jardinzinho na frente. As lições de pintura, d. Sara gostava de ensinar ao ar livre, e o quintal da casa, com frondosas mangueiras prestava para esse fim. Cheguei a pintar lindas paisagens em alto relevo. Uma delas, um judeu insistiu tanto, que mamãe vendeu-a pela irrisória importância de 70 cruzados. Contudo, naquela época, representava muita coisa. Hoje, não sei o nome do judeu a quem mamãe vendeu a minha “obra prima”. Cheguei a pintar em vidro, o que achava um pouco difícil. Ainda hoje possuo um quadro a óleo que se salvou dos meus “perdidos”. Interessante: este quadro reproduz quase fielmente a casa da “Fazenda Liberdade” que pertenceu aos meus sogros. Esta casa de fazenda fica encravada ao pé da Serra de Santana, que fica localizada no município de Currais Novos. Assim, numa antevisão do futuro, pintei a casa onde morou o meu futuro marido. O pátio da casa é idêntico. Parece até que vamos para o “Alívio” (Alívio era o nome da fazenda do finado Alcindo Salustino, primo do meu marido.). Os demais quadros se perderam na voragem dos tempos. Muito  menina ainda naqueles tempos, não tive o devido cuidado de zelar pelas minhas pinturas. Sei que em João Pessoa, existe um quadro. Um dia, talvez consiga reaver este quadro a alto relevo.

D. Sara, quando ensinava a gente, conversava bastante. Nos termos de hoje, era um “bom papo”. Falava sempre num sobrinho dela que era caricaturista. Chamava-se o dito rapaz de Erasmo (naqueles tempos as revistas da época, Fon-fon, Malho, Careta já estampavam as caricaturas do Erasmo. Uma grande esperança o Erasmo. Infelizmente morreu cedo, um gênio da pintura precocemente apagou-se, um astro que brilhava com grande intensidade. Parece até que os gênios morrem cedo. D. Sara não cessava de falar no sobrinho, mostrava fotos, toda orgulhosa, satisfeita em possuir um sobrinho do valor de Erasmo. Certa vez, d. Sara inventou de criar um veadinho. Ai como eu gostava de admirar o minúsculo animal! Como o bichinho saltava! pulava, pulava, saltava! Por esta época, d. Sara apareceu com um namorado. Para despistar, ela me dizia que o rapaz vinha admirar o veadinho...

Às vezes, eu levava para d. Sara lindas e saborosas graviolas, frutas do meu pomar... Ela, toda sorridente, agradecia e me dizia: “vou guardar, Nati, depois saboreio”. Eu gostava de ouvir aquela expressão: “depois eu saboreio”. Que sabor ela acharia naquela fruta que eu detestava? Não topava com graviola, nem com açúcar!...As minhas graviolas eram enormes e como lá em casa poucos gostava, eu vendi-as por um cruzado a unidade. Hoje vale uma fortuna... É muito apreciado o sorvete de graviola.

Muitas vezes, antes do catecismo, terminadas as minhas pinturas, eu chamava uma colega para ajudar-me a conduzir os meus quadros para casa. Tinha quadros tão grandes que a gente conduzia-os deitados. Uma pegava numa ponta e a outra noutra extremidade.