Por Franklin Jorge l

 

É histórico: entra e sai governo, no Rio Grande do Norte, e desse fatigante e interminável vaivém não tem resultado senão esse jogo choco e repetitivo que agrilhoa a Cultura a esquemas medíocres ou opacos. Essa cultura negativa que contamina as gestões que se pautam pelo comodismo e pela falta de imaginação tem agravado o relacionamento entre instituições e artistas que vivem há anos em um estado de beligerância e permanente tensão.

Gestões burocráticas infensas ao diálogo, alienadas da confiança dos cidadãos e execradas a um tempo pelos artistas e a opinião pública que desaprovam o tratamento dispensado à Cultura por gestores que empurram as urgências com a barriga, menosprezando o recurso mais precioso de que podiam dispor para o sucesso, isto é, para realizar e promover a grande virada cultural por todos desejada – o recurso humano.

Há muito, por falta desse elemento que faz a diferença, nossa Cultura está submetida a um permanente e infecundo estado de estagnação, caminhando em círculos sem jamais alcançar o alvo e sem chegar a lugar nenhum. Repartições inchadas de inoperantes, contratados por apadrinhamento político ou por laços de simpatia mútua, reproduzem sistematicamente os mesmo erros, como uma fatalidade que expõe a falta de planejamento, a incapacidade de solucionar problemas e o concurso efetivo de quem é do ramo.

Falta, sobretudo, um norte filosófico que incentive e direcione ao trabalho produtivo e às realizações que resultem numa Cultura real, em tudo diversa do oba-oba institucionalizado desde sempre por gestores ditatoriais que, sem serem advindos nem terem manuseio com o ramo e incapazes de ouvir e de integrar-se à vida da Cultura que não se faz em gabinetes nem depende da vaidade ou dos interesses dos que se regem pela necessidade de encobrir sua inépcia com eventos espalhafatosos; incapazes de pensar a Cultura em sua complexidade e imanência, pois constitui um acervo que está sempre a construir-se e a renovar-se com a experiência e a contribuição de todas as gerações.

Essa falta de investimento nos recursos humanos é sintomática do pauperismo da cultura oficial que se faz nos gabinetes, sem concurso público, isto é, sem a participação dos artistas ou do público interessado em fruir os bens culturais dos que produzem e colhem os frutos de seu trabalho nessa seara onde há poucos operários e um milhão para engessar e manter a cultura encabrestada, expondo desta forma a essência coronelesca e escravocrata que coordena as ações de gestores açodados e ineptos; eternos colecionadores de fracassos que por sua teimosia e reincidência passaram a fazer parte dessa cultura de retalhos e do improviso, pois não há continuidade na forma nem nas ideias que deveriam balizar um plano geral de Cultura, repito: não há um planejamento a médio e longo prazo que circunscreva uma área sócio-antropológica capaz de fixar paradigmas da memória, do modo de vida da comunidade ou delinear um perfil do que nos caracteriza como grupo social.

Ora, a fragmentação dos eventos que se observa em toda a parte, corrobora a ausência de pensamento, filosofia de trabalho e realidade que não podem faltar a uma gestão bem sucedida e pensada, não por surtos de entusiasmo e euforia, mas com os pés no chão e a exigência de qualidade no alto de nossas cabeças.

Há, pois, assim, uma cultura do atordoamento, da dispersão, da falta de pensamento que reflete a ausência de continuidade e reforça o paradigma de uma cultura de retalhos, fragmentária, de uma cultura que não é pensada democraticamente e que menospreza o bom senso e as necessidades dos cidadãos pelo desfrute da Cultura que é informação e conhecimento, não pagodeira às custas dos contribuintes. Enfim, não basta forçar muito o raciocínio: é necessário compreender piedosamente que muitos não sabem nem o que estão praticando como Cultura.

GREGOTINS
O nome de Nilto Maciel [Baturité, Ceará, 1945-] evoca perseverança, talento e generosidade. Desde que surgiu no cenário nacional das letras, em 1976, ao publicar O Saco que agregou grande parcela de escritores ainda desconhecidos naquela época, não parou mais e com o seu trabalho nunca esmorecido amealhou uma fortuna critica notável, como criador literário, leitor exemplar e, juntamente com dois ou três outros nomes daquele tempo – Zanoto, em Minas Gerais; e Leila Míccolis, no Rio, em sua onipresente arte da epistolografia -, tornou-se nilto Maciel um desses amantes das letras que dedicam sua vida a propaga-las. E agora nos dá, como o leitor antenado que é, o seu Gregotins de desaprendiz, um livro que é o sumário de suas leituras no curso dos anos.

Nilto, padroeiro e dispensador de lenitivos a escritores de pequenas tiragens ou somente conhecidos e divulgados em suas províncias natais, inesgotável divulgador de uma plêiade de autores que não se tornaram best-sellers ou não tiveram os favores da crítica. Nesse livro, recém-publicado, reúne Nilto uma pequena parte do que tem lido e publicado sobre seus companheiros de faina literária. Criador versátil e leitor sagaz, evoca, alguns nomes que leu e forneceu-lhe o combustível para o divulgador constante e incansável, presença ativa na cultura contemporânea.

Transcrito do Novo Jornal, Natal 21 de Abril de 2013