Por Horácio paiva

 

                         Na seção anterior, apresentamos Kaváfis, um clássico grego dos tempos atuais. Agora, trazemos, de Roma (ou dos montes Sabinos?) Horácio, clássico latino da antiguidade. Agrada-nos manter a alternância entre novos e antigos.

 

 

                                                                        Enquanto a poesia de nosso contemporâneo Kaváfis  -  embora singular, original (não se filiou a qualquer escola ou modismo)  -  não traz inovações formais, Horácio, além de grande mestre na expressão verbal e em sua precisão (muitos de seus versos se tornaram verdadeiros provérbios), foi um inovador em sua época. Ele mesmo o diz, no memorável poema “Aere Perennius”:

 

                                               “Sim, hão de celebrar-me

                                               por ter sido o primeiro

                                               a usar o metro eólio na poesia itálica.”

 

            Sobre ele escreveu o poeta e tradutor Péricles Eugênio da Silva Ramos: “Horácio é poeta de notável acabamento formal e de uma felicidade de expressão que tornou proverbiais muitas de suas frases. Sua influência tem sido poderosamente ampla na poesia ocidental, de um de cujos assentos bem altos ele continua inarredado; dos líricos de Roma, é talvez o único de nível realmente helênico.”

 

            Com efeito, o “nível helênico” advém de sua própria formação, da esmerada educação que recebeu em dois avançados centros da civilização antiga: Roma e Atenas. Dos gregos herdou, também, o seu perfil filosófico, notadamente epicurista, sem faltar-lhe, entretanto, sobretudo em escritos de cunho político ou patriótico, fundamentação estóica.

 

            E é certo que a sua influência até hoje é constatada na literatura ocidental. Tomemos como exemplo notável, transcorridos dois mil anos, o nosso Fernando Pessoa, das odes horacianas de Ricardo Reis (um de seus famosos heterônimos).

 

            Filho de um liberto, certamente agregado à tradicional gens Horácia, que dera a Roma, no passado, alguns de seus ilustres heróis: Horácio Cocles, que defendeu, sozinho, uma ponte romana assediada pelo exército inimigo, e os três célebres irmãos Horácios que representaram Roma, com vitória, na disputa contra Alba Longa.

 

            Nasceu o poeta Horácio em Venúsia, no ano de 65 a.C., e faleceu em Roma, no ano 8, também antes de Cristo, faltando-lhe poucos dias para completar 57 anos. Viveu o fim da República e o começo do Império. Era republicano e pela República lutou (como tribuno militar e comandante de uma legião romana) e foi derrotado ao lado de Brutus, em Filipos, Grécia (42 a.C.). Anistiado, tempos depois, retornou a Roma, reconciliando-se com o então imperador Otávio Augusto, através dos amigos comuns Vergílio e Mecenas. Mas a partir daí preferiu, à agitação de Roma, a vida do campo, recolhendo-se à sua propriedade rural (que lhe presenteara Mecenas) nos montes Sabinos, onde escreveu grande parte de sua magnífica obra poética.

 

QUINTUS HORATIUS FLACCUS (n. 8/12/65, Venúsia; m. 27/11/8, Roma  - a.C.):

 

POEMAS  – Livro I – Ode 11

 

 

                        NÃO INDAGUES, LEUCÓNOE

 

 

Não indagues, Leucónoe, ímpio é saber,

            a duração da vida

que os deuses decidiram conceder-nos,

nem consultes os astros babilônios:

            melhor é suportar

            tudo o que acontecer.

Quer Júpiter te dê muitos invernos,

            quer seja o derradeiro

este que vem fazendo o mar Tirreno

            cansar-se contra as rochas,

mostra-te sábia, clarifica os vinhos,

            corta a longa esperança,

que é breve o nosso prazo de existência.

            Enquanto conversamos,

            foge o tempo invejoso.

Desfruta o dia de hoje, acreditando

o mínimo possível no amanhã.

 

 

 

                                   (Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos)

 

 

                        -x-x-x-

 

 

NOTAS: Fiz uma tradução livre e quase literal da Ode (mas o latim é insuperável, sobretudo na concisão). Eis os dois textos, o original e a minha tradução:

 

(1)

 

CARMINA  -  Liber Primus

 

 

                        11

 

Tu ne quaesieres (scire nefas) quem mihi, quem tibi

finem Di dederint, Leuconoe, nec Babylonios

temptaris numeros. Vt melius quicquid erit pati!

Seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,

quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare

Thyrrhenum, sapias, vina liques et spatio brevi

Spem longam reseces. Dum loquimur, fugerit ínvida

aetas: carpe diem, quam minimum credula postero.

            POEMAS – Livro I

 

            ODE 11

 

Não indagues (ímpio é saber), ó Leucónoe,

qual fim reservarão, a mim ou a ti, os Deuses,

nem te prendas à numeralogia babilônia.

Melhor tudo suportares, quer te dê Júpiter muitos

invernos ou apenas este último que agora

se desfaz nos penhascos do mar Tirreno.

Sê sábia, o vinho decanta e ajusta

a longa esperança à vida breve.

Enquanto conversamos, foge invejoso

o tempo: colhe o dia de hoje, crendo

o mínimo possível no amanhã.

 

 

(2)

 

            Esses dois últimos versos (onde se vê a expressão “carpem diem” (colhe ou aproveita o dia) são ainda muito citados, mesmo na mídia atual e até em propagandas de produtos comerciais. Mas atenção para o seu correto entendimento que nos traz a leitura do conjunto da obra de Horácio. Horácio situava a regra do bem viver no meio termo  encontrado no conjunto das oportunidades apresentadas. A felicidade estaria no equilíbrio (no viver “medíocre”, palavra tomada em sua acepção original, isto é, no viver com moderação) e não no prazer instantâneo, aproveitado sem consideração a qualquer consequência ou custo moral. Neste caso, era um adepto das teorias do grego Epicuro e não um hedonista. Interessante: numa comparação distante, e de índole religiosa, mas não despropositada, lembra-me Buda, que ensinava a sabedoria encontrar-se no caminho do meio. E pergunto-me que influência teria acaso exercido o cristianismo sobre Horácio, falecido pouco antes do nascimento de Jesus Cristo, se vivido em período posterior ao seu advento?

 

(3)

 

            A propósito da reflexão sobre a longa esperança, excessiva à breve duração da vida, diz, noutro poema, “Ad Sestium”, dedicado a esse amigo:

 

“Ó feliz Séstio,

a brevidade da vida

nos impede alimentar

uma longa esperança.

Em breve a noite pesará sobre ti,

e os Manes da fábula,

e a casa estreita de Plutão,

aonde uma vez tenhas chegado,

não sortearás pelos dados

o reinado do vinho...”

 

            (Trad. livre, de José Lodeiro)