Folheando os "Ensaios de literatura ocidental", do crítico alemão Erich Auerbach (Duas Cidades/ Editora 34, tradução de Samuel Titan Jr. e José Marcos Mariani de Macedo), esbarro, por acaso (sempre o acaso), em um inspirador apêndice sobre o tema da paixão. É o ano do centenário de Vinicius de Moraes, sobre quem escrevi a biografia "O poeta da paixão" (Companhia das Letras, 1993). 2013 mal começou e minha agenda já está cheia de compromissos para falar sobre a figura e a obra do poeta carioca. Nesses diálogos, uma pergunta é quase inevitável: "Por que poeta da paixão?"

          Lembra Auerbach (1892-1957) que o termo "páthos" ("passio" em latim) significava, originalmente, "um ataque ou um acesso". Acrescenta o crítico alemão: "Conservou sempre as conotações de sofrimento e passividade, bem como sua neutralidade ética: ninguém poderia ser elogiado ou reprovado por causa de seu 'páthos' ". Bastam-me essas primeiro cinco linhas e já me detenho um pouco. O que me detém?
A idéia, de que não compartilho, da "neutralidade ética" da paixão.

          Basta ler, ler mesmo, para valer, Vinicius de Moraes. Ler Vinicius (1913-1980),
sobretudo, com nossos olhos gélidos do século 21. A paixão não é neutra: em nosso milênio pragmático e normativo, ela se torna um motor de resistência e de indignação. Ela impõe, sim, uma ética: aquela que recoloca a vida _ singular, instável, precária _ acima dos valores da objetividade e da praticidade. Se não é prática, a paixão é feroz _ e
isso se aprende lendo Vinicius. É desestabilizadora ("um ataque ou um acesso", como recorda Auerbach), logo nos serve para interrogar as verdade prontas, as normas consagradas e os clichês.

          Há, sim, uma ética na paixão: a da liberdade. Os poemas de Vinicius nos mostram isso: ela nos empurra para lá e para cá, faz do sujeito "gato e sapato", impulsiona-o em direções ditas perigosas, desvia-o do "lugar onde deveria estar". Se o prende _ e prende, pois é uma espécie de possessão benigna _, ela o liberta também _ pois o lança em
terrenos que nunca pisou, o joga nos braços de amores que nunca imaginou, lhe entrega pedaços da vida que nunca teve a chance de provar.

          Lembra Auerbach que, com o avançar do tempo, "o termo 'passio' adquire um significado fortemente pejorativo: há que se evitar, na medida do possível, qualquer contato com a agitação do mundo". Impõe- se, em contraposição, a figura do sábio impassível, que levita acima do real e que não pode ser atingido por suas turbulências. Ocorre _ e Vinicius nos mostra isso com clareza _ que essas duas figuras, a do homem apaixonado e a do sábio indiferente ao prazer e à dor _ não se excluem. Ninguém se torna poeta, grande poeta (Vinicius), sem um tanto de sabedoria. Mas leiam Bandeira, Drummond, Cabral. Leiam Orides Fontella, Manoel de Barros, Adélia Prado, Ana Cristina Cesar, Hilda Hilst. Quem pode pensar em poesia sem paixão?

         O reencontro com Vinicius e sua obra, hoje, não deve ser só a festa de um centenário. É algo muito mais grave: o reencontro do homem com seu corpo. No corpo (e nele, não podemos esquecer, se guarda a mente, das atividades biológicas ela procede) ferve tudo aquilo que não conseguimos dominar e que, no entanto, nos mantém vivos. No corpo está nosso destino. Minha biografia de Vinicius (ocorre-me) poderia talvez se chamar "O poeta do corpo". O corpo como casa da vida. Como seu estojo. Pensem nos mortos, que não têm mais um corpo, que são apenas despojos, e constatarão que, sem ele, não há afeto, não há pensamento, não há sujeito. Tudo no corpo se decide.

         Pois que útil é pensar no corpo e nas paixões em um século guiado pelas nomeclaturas, pelos índices e pelas etiquetas. Que vigoroso desvio ético realizamos quando _ como Vinicius de Moraes _ colocamos o corpo e a vida em primeiro lugar. Reencontrar a poesia de Vinicius é deparar-se com muitos caminhos para a redescoberta da paixão. É descerrar muitas portas, experimentar novos olhares, acariciar a vida em vez de domesticá-la.

          Lembra Auerbach _ devo retornar a ele _ que, tempos depois, a paixão ganhou conotação negativa, sendo associada às tempestades e ao turbilhão. "Bem como, várias vezes, a substituição de 'passio' por 'perturbatio', claramente pejorativa". Pois me detenho, aqui, na palavra perturbação, que não significa apenas transtorno e
desordem (isto é, sofrimento), mas também perplexidade. A poesia, exatamente a poesia, nos ajuda a ver o mundo como que pela primeira vez. Quando estamos perplexos, estamos indecisos, mas estamos também admirados e assombrados. E quanto bem um pouco de assombro pode fazer a um século regido pela vida planejada.

          Muito bem nos fará recolocar a paixão no centro de nossas existências. Poderá parecer perturbador, ou dissonante, ou até rebelde. Poderá parecer estranho e inconveniente. No mundo do conforto, da pronta-entrega e das "lojas de conveniência", precisamos de um pouco de susto e de surpresa. E é isso _ a poesia de Vinicius não se cansa de mostrar _ o que pode nos salvar como humanos. Não só poeta do corpo
e da paixão, Vinicius é, também, o poeta do futuro.

(O Globo, 14.04.2013)