Por Nati Cortez

 A Rua do Triunfo.

A Rua do Triunfo, hoje 15 de novembro, fica localizada no bairro da Ribeira. Naqueles idos de 1920, os seus moradores eram, na sua maioria, constituídos de famílias. Lá para o fim da rua, fazendo esquina com a Travessa do Triunfo, é que existiam algumas residências escusas. Hoje é artéria do “bas-fond”. Revejo mentalmente a fisionomia dos seus moradores. Os nossos vizinhos do lado direito, D. Oliva e Sr. Pedro Piloto. Esse casal criava uma menina chamada Maria Antonieta. D. Oliva Cunha, ótima costureira e ótima criatura, era comadre de mamãe. Os nossos vestidos eram costurados por ela. A sua freguesia era numerosa. As mulheres residentes na artéria também mandavam costurar seus vestidos por d. Oliva. A recordação que tenho dela é vê-la sentada na máquina de manhã à noite. Costurava muito a boa d. Oliva. Maria Antonieta era criada com muito dengo, com muita adulação. D. Oliva procurou dar-lhe uma educação esmerada. (Diziam que Maria era filha de uma cozinheira que morreu tuberculosa no Rio de Janeiro).

Com tanta adulação e tendo certa instrução, a negrinha que chegou inclusive a aprender pintura e tocar piano, tornou-se pedante. Só queria “botar banca” e como tal, tornou-se orgulhosa. Aos oito anos tive como professora de desenho a Maria Antonieta. Às vezes, quando eu ia à casa de d. Oliva, encontrava Maria tocando piano. Embevecida, ficava ali escutando a pianista, com vontade de aprender. Gostava muito de vê-la tocar a “Caridade”. Não sei por que “cargas d’água”, a professora simpatizou com a aluna vizinha. Éramos amigas, nunca brigávamos. Já com as outras meninas das redondezas, a coisa era diferente. Ninguém topava Maria. Havia fuxicos, mexericos, brigas, discussões, etc. (Quando Maria tocava “Caridade”, eu acompanhava cantando:

“Fazer a caridade,

È ter felicidade

Porque da gente o coração,

Só chegará à perfeição,

Fazendo o bem a humanidade”.

Os vizinhos da frente, a família do Sr. Artur Varela Barca, não topava com o casal Piloto e muito menos com Maria. Os filhos do casal eram muito medonhos, trataram de botar apelidos nos vizinhos. D. Oliva era o “Caboré do dia”, Sr. Pedro Piloto, o “Caboré da Noite”, e Maria Antonieta, a “pinta cega”. (Maria ganhou esse apelido porque sofrendo da vista, precisou usar óculos). O casal Artur Varela e d. Marcolina, apesar de ter muitos filhos, era um casal desajustado. D. Marcolina, coitada, sofria muito. O marido espancava-a demais. A vizinhança comentava os maus tratos infligidos à pobre D. Marcolina. Dizia-se que toda a sexta-feira da Paixão de Cristo, o marido aplicava-lhe tremenda surra. O finado Artur Varela Barca (“que não lhe sirva de pena) era um verdadeiro “monstro”. Um tipo alto, moreno, feioso e usava óculos. Sr. Artur tinha um cacoete. Abria e fechava os olhos quando conversava com a gente. Dizima os “filhos da Candinha” que Sr. Artur quando comprava galinhas, peruas, etc., costumava examinar as aves apara ver se elas tinham ovo. Houve até um caso que causou risos a quem teve a ocasião de assistir. Durante a apresentação de uma comédia num circo que sempre visitava a nossa capital, um dos palhaços exclamava em tom patético: “Suspenda a rabada e traga os ovos”. As torrinhas, então, gritavam alto: Artur Varela em cena, Artur Varela em cena! Toda a assistência ria ruidosamente. Não era para menos... Sr. Artur ficava danado de raiva. Abria e fechava os olhos sem querer parar, olhando para as torrinhas.

Certa ocasião, quando mudamos de uma casa para outra situada na mesma rua, Sr. Artur Varela veio, pressurosamente, procurar um objeto nos fundos do quintal. Como não o encontrasse, dizia: “eu só penso que foi mina cunhada que roubou a tampa do pinico!”. Esse objeto que Sr. Artur Varela procurava com tanto afã. Era desse estofo o Sr. Artur. D. Marcolina, coitada, uma pomba sem fel. Só vivia trabalhando, sofrendo e apanhando. Lembro-me das suas pernas cheia de varizes. Anos depois, o casal separou-se. D. Marcolina foi para o sul com os filhos. Sr. Artur ficou em Natal. Tempos depois, já casada, tive de avistar D. Marcolina na Catedral, completamente diferente. Estava forte, mais bonita e até remoçada. Senti uma alegria imensa em revê-la assim feliz, eu, que fui testemunha no tempo de criança dos seus atrozes sofrimentos. Deus Nosso Senhor compadeceu-se das suas dores e deu-lhe uma grande recompensa. Seus filhos formaram-se na senda do bem. As moças casaram bem. A mais velha, Alzira, tornou-se costureira famosa. Quanto à Sr. Artur, coitado dele, terminou muito mal, morrendo, repentinamente, sozinho. (Vizinho ao referido casal veio residir uma família. O proprietário era Sr. Artur Varela. O chefe da família, um barbeiro, que se chamava José Ferreira. Sua mulher, D. Nita e tinham uma penca de filhos. Aconteceram então, diversos incidentes. Sr. Artur tinha muitos filhos, Sr. José, também, principiou por isso mesmo uma série de acontecimentos trágicômicos. Certa vez, um dos filhos de Sr. José, jogou uma pedrada num dos filhos de Sr. Artur. Este não contou estória: apanhou o menino do jeito que estava e rumou para Tavares de Lira, onde ficava a barbearia de Sr. José. Ali mesmo na porta da barbearia, exclamou: Sr. José, seu filhos quis matar o meu. Olhe o sangue!...”. Pegando na cabeça do menino, fazia o sangue gotejar num pequeno buraco que havia na  calçada. Sr. Artur queria encher o pequeno buraco com o sangue que gotejava da cabeça da criança. A vizinhança toda achou ridícula aquela atitude de Sr. Artur. Em lugar de levar a criança à farmácia para os devidos curativos, procurou dramatizar o ocorrido. Aliás, tratava-se de um pequeno ferimento sem maiores conseqüências, Coisa mesmo de menino. Raro o dia em que havia um pequeno incidente entre os meninos das duas casas. Sr. José tinha um filho “dor de cabeça”, o Ernani. Era medonho esse menino que, às vezes, Sr. José o prendia a cadeado. Quando este saía para o trabalho, ia logo prender o Ernani, mas quando o Ernani soltava-se, era  um Deus nos acuda. Que barulheira, que confusão, santo Deus! Hoje é que noto que o Ernani era digno de uma estudo psicológico. Os nomes feios que esta criança pronunciava, fazia corar um frade de pedra.

Um dia, quando diversas pessoas amigas foram tomar banho de mar na companhia da família do barbeiro, o Ernani, que também tinha ido, pronunciava palavras de baixo calão que tirou a alegria do passeio, o prazer do banho de mar naquela manhã ensolarada. Voltamos tristes e cabisbaixas pela vergonha sofrida. E se pensar que a causa daquele vexame tinha sido uma criança... Anos depois, soube que Ernani tinha dado pra gente e se casado com uma protestante. Ainda bem, porque os prognósticos eram os mais sombrios possíveis. Sucedeu, então, naquela época, o inevitável. A ruptura completa da amizade entre o senhorio e o inquilino. A situação tornou-se insustentável e, um belo dia, a família do barbeiro José Ferreira mudou-se para nova residência. Antes de sair, porém, fizeram uma “daquelas”. Recordo perfeitamente da noite que fomos convidadas para apreciar os desenhos que gravaram nas paredes da casa antes de abandoná-la. Talvez pela fama de desenhista que tínhamos, fomos chamadas a fazer a crítica da “pintura”. Saímos, então, olhando as “pinturas” como se estivéssemos numa autêntica exposição. Uma por uma, íamos dando nossa opinião, de menina, está claro. Acontece, porém, que abaixo das pinturas tinha algo escrito que nos despertou a curiosidade. Cada quadro correspondia a um fato, a um  incidente desagradável do passado. Por exemplo: um desenho destacava a figura de Sr. Artur Varela segurando a cabeça do filho defronte da barbearia do Sr. José. Notava-se o sangue caindo no buraco da calçada. Abaixo do desenho, os dizeres: “Sr. José, seu filho quis matar o meu!...” Seguia-se a seguinte exclamação: Ah, um tiro nos dentes, bandido! Mais adiante, o retrato de d. Marcolina com os dizeres: “Marcolina, esposa fiel, debaixo do cacete”. Um dos filhos mais velhos, José, foi mimoseado com o retrato, feio e esquelético, acompanhado de um versinho: “O meu filho José Mole/por ser muito habilidoso,/Vou mandá-lo para São Paulo/Ver se a perna tem ovo”.

Ríamos às bandeiras despregadas com tal exposição sui-generis. A nossa visita foi feita às escondidas, portas fechadas, às caladas da noite, enquanto outros vizinhos dormiam. Admiro sinceramente a confiança que depositavam em nós.

Confiavam em nossa discrição. Observando tudo aquilo, um pensamento bailou no meu cérebro: “Isso vai dar um charivari”. E se pensarem que fui eu a autora das pinturas? Dito e feito. Quando a família retirou-se, Sr. Artur danou-se. Deu até parte na polícia, mostrou os desenhos, etc. A autoridade policial daquele tempo não deu maiores atenções. O assunto foi encerrado. Um belo dia quando eu passava na calçada de Sr. Artur, ouvi D. Marcolina falar: “eu só penso que foi esta menina que fez aqueles desenhos...”. Eu sorri desdenhosamente e saí correndo. Não, não fui eu a autora do delito. Fui apenas crítica. Chamada para dar a minha opinião naquelas pseudas pinturas. Até hoje nunca soube quem foi a  desenhista das paredes dos quartos da casa que Sr. Artur alugava.

Um acontecimento que exasperou muito Sr. Artur, e fê-lo indignado, foi um “Judas” que um dia colocaram na sua porta. O testamento do Judas era interessantíssimo. Tive ocasião de lê-lo. Infelizmente não recordo nada do testamento que nos fazia morrer de rir. Sr. Acordava cedo para ir às compras, mas, nesse dia saiu muito tarde por causa do Judas pendurado na sua porta. Logo mais vieram uns gaiatos e levaram o Judas. Tive uma pena horrível de ver o Judas carregado por aqueles anônimos. Contudo, olhando pela fresta da janela, notei que Sr. Artur tinha visto o Judas. Assim transcorria nossa vida de criança na Rua do Triunfo. Observando aqueles fatos, deles tomando conhecimento, como se adultos fôssemos.

Os nossos vizinhos do lado direito eram numerosos. Logo após a casa de D. Oliva Cunha, vinha a residência do Sr. Tibiro. O casal Tibiro e Dôres era o que se pode qualificar de casal amoroso. Tinham uma porção de filhos: Iraci, Stelita, Odir, João, Aldo. Não recordo os nomes dos outros. Na companhia deles morava uma senhora muito doente. Se não me engano era a mãe da dona da casa. Só viviam comprando remédios para a doente. Quando adquiriam um novo medicamento, mandavam chamar-me para ler a bula. Não conto as vezes em que fui a leitora das receitas. Toda a vida fui curiosa, prestava atenção as conversas. Notei que havia um “caso” na vida desta senhora porque quando aludiam a “alguém”, ela dizia que “morria, mas não perdoava”. Agravando-se o estado de saúde da referida senhora, chamaram um  sacerdote para ouvi-la em confissão. Soube depois que ela não quis perdoar. Até hoje não soube de quem se tratava. Quem era a  pessoa que a aludida senhora não quis perdoar...Um dos filhos do casal, João e o “Paizinho” era uma trinca muito unida nas brincadeiras. O “Paizinho” (Salatiel Silva) era filho do casal Sr. Silva e D. Marica., Bem, já chegamos lá. Com todas essas crianças brincamos de ”cozinhado”. Somente os filhos do Sr. Artur Varela ficavam de fora dos nossos programas. Às vezes, a gente cotizava-se e organizávamos autênticos almoços. Edgar de Sr. José Ferreira (Didi) era escolhido para ser o tesoureiro. O regabofe tinha lugar no quintal da nossa casa que, diga-se de passagem, era muito grande. Nesse quintal cultivávamos uma bela parreira que produzia belos cachos de uva branca-moscatel. Na safra das uvas vendíamos quilos dessa saborosa fruta aos nossos vizinhos. Desde criança tive o espírito de comerciante. Já naquele tempo vendia as frutas de um pé de graviola que existia nos fundos do quintal da nossa casa. A futura comerciante zelava deveras o pé de graviola. Recordo-me que vendia a 400 réis a unidade (um cruzado). Guardava o apurado da venda num mealheiro onde eu depositava o fruto das minhas economias. Logo cedo adquiri o senso de economia. Esta virtude trouxe do berço. Não foi porque A ou B aconselhasse-me. No quintal da nossa casa ainda existia outras árvores frutíferas. Existia também um grande tanque onde corria a água encanada. Um dia aconteceu um fenômeno interessante. Existia no quintal uma jarra enterrada pela metade que também canalizava a água. Um belo dia, com grande espanto nosso, a jarra principiou a subir, subiu, subiu até que ficou na flor da terra. Toda a vizinhança veio admirar o fenômeno.

Depois da casa do Sr. Tibiro vinha a casa do Sr. Medeiros, prático da barra. O Sr. Medeiros e esposa tinham três filhos: Áurea, Ribamar e Geraldo. Àurea, um pouco mais crescida, às vezes vinha brincar com a turma. Seguia-se a residência de Sr. José Lopes. O casal José Lopes tinha diversos filhos,  entre os quais uma filha já mocinha, muito endiabrada (Neném). Nenen Lopes não gostava de Maria Antonieta. Por essa época apareceu uma modinha que cantavam muito. A letra era essa: “Borboleta não é ave,/Borboleta ave é/ Borboleta só é ave/Na cabeça da mulher”. Então a Nenem Lopes parodiando a modinha, versejavam: “Borboleta não é ave./Borboleta é ave, sim/Borboleta só é ave,/ no cabelo pixaim”. Foi um Deus nos acuda! Maria Antonieta quase morre de raiva. D. Oliva e o Sr. Pedro Piloto ficaram seriamente aborrecidos. Só se ouvia o “zum-zum”. Foi comentado esse caso jocoso em que Nenem Lopes, botando as manguinhas de fora, criticou as qualidades físicas de Maria. Após a casa dos Lopes, vinha a casa do Sr. Arcanjo e Maura. Esse casal ilegítimo criava uma sobrinha, uma menina muito bonitinha, Lourdes. Ela tinha uma irmã, Olga, a quem chamava Olguinha. Olga morava com a mãe, Joaninha, irmã de Maura. Essa menina foi um das minhas amigas prediletas. Finalmente, os moradores da esquina com a Rua Frei Miguelinho, o casal Manoel Ramos e Luiza. Um casal já idoso, não havia, portanto, crianças na casa. Apenas um rapaz, um sobrinho, morava na companhia deles.

No lado oposto ao nosso, residiam muitas famílias. Bem em frente da nossa casa, estava localizada a residência do Sr. Artur Varela, do qual já falamos. Após a casa de Sr. Artur, via-se a de Sr. Silva. Sr. Silva era um barbeiro. Era homem baixo, forte, atarracado, morenão e usava bigodes. Um tipo bonachão e, ao mesmo tempo, severo quando era preciso usar sua severidade para resolver os problemas domésticos. Ele D. Marica, sua esposa, eram os dois astros em torno dos quais gravitavam inúmeros satélites, constituídos de filhos, genros, sobrinhos, parentes e empregados domésticos. Uma casa cheia. Para completar, um cachorro chamado de “Joli”, um cão bonito, como o próprio nome indicava. As crianças daquela rua brincavam muito com “Joli”. O cachorro tinha duas cores, branco e preto. “Joli”, muito bem alimentado, era gordo que só ele. Certa ocasião, querendo eu saber se passava nos exames, rezei a “Salve Rainha” até p “Mostrai-nos, como era costume naquela época. Quando a gente queria saber o resultado de um problema qualquer, rezava a “Salve Rainha” até aquele ponto, e ficava-se atrás de uma porta para ouvir as primeiras palavras que uma pessoa pronunciasse. Não é que ouvi as seguintes palavras: “Sai Joli! Sai Joli!”. Paizinho, filho de Sr. Silva, enxotava o cachorro. Fiquei contentíssima. Entendi que passaria nos exames finais, como de fato passei.

Sr. Silva e D. Marica tinham seis filhos: Nair, Neuza, Sileno, Salatiel, Antemio e Aniel. O professor Severino Silva era filho do primeiro matrimonio e residia em Belém. D. Maria pertencia à família dos Mendes de Ceará-Mirim/RN. Dois sobrinhos moravam em sua companhia: Carmelita e Aguinaldo. Carmelita tinha projetado uma viagem ao Rio. Vivia fazendo planos mirabolantes, pensando nessa viagem sonhada. Vivia, enfim, no mundo da fantasia, do irreal. De tanto ouvi-la falar nessa viagem, entendi que devia ir com ela visitar o meu tio José que morava na Guanabara. Nesse tempo viajava-se por via marítima, ainda não se falava em avião. Projetamos viajar no vapor “Pará”, um dos navios de grande porte naquela época. A fantasia de Carmelita influenciou a minha mente de criança de tal maneira que eu julgava que estava certíssima da nossa viagem ao Rio. Anos depois foi que notei minha ilusão. Como Deus é bom!Mas não tardou muito que esse meu desejo se convertesse em realidade. E assim, em abril de 1927, com treze anos de idade, em companhia de mamãe, viajei para a “Cidade Maravilhosa”, à bordo do “Pará”. Ia conhecer a capital do Brasil, a terra dos meus sonhos de menina! Voltemos, porém, à família de Sr. Silva. Na sua residência também morava uma irmã, Laura, casada, com um barbeiro chamado João, que tinha o apelido de “Alau”.

À noite, reuníamo-nos na casa de Sr. Silva para jogar “vispora”. O jogo, animadíssimo, prolongava-se até tarde. Às vezes, jogava-se a dinheiro, a 100 réis a partida. Comumente, jogava-se com “bois”, “grãos de feijão ou milho”. Sr. João, com a sacola, ia tirando os números: “dois patinhos na lagoa”, “dois violões sem braço 88”, “quará quaquá”, 44, e assim por diante. O jogo era interrompido pelas estripolias do “Joli”, mas, com os gritos de Paizinho, tudo voltava à normalidade. D. Marica, sempre ativa, trabalhava na cozinha, remendava, ralhava com as crianças. Nair tornou-se minha amiga e colega de escola. Íamos sempre juntas para a escola Vigário Bartolomeu. Com dez anos já estava no 1º ano do curso secundário. Quanto a Nair, casou com fugida com o Júlio Pinheiro. Aniel, noivo de uma moça que residia na Cidade Alta, era o tipo do rapaz introvertido. Interessante, nessa época, eu e Nair, íamos diariamente a rua Felipe Camarão, terminar os nossos bordados na casa de Julita, a noiva de Aniel. Ficávamos bordando perto da janela que dava para a rua. Bem em frente, avistava-se uma casa grande que chamava a atenção pelo número de janelas que dava para a rua. Em cada janela via-se uma toalha secando ao sol. Então, eu perguntava a Julita: quem mora naquela casa? “Uns turcos”, respondia Julita, laconicamente.

Todas as tardes uma vendedora de doces oferecia as suas vendagens. Sinha Maria trazia no seu tabuleiro, sequilhos, raivas, suspiros e outras guloseimas gostosas que punham água na boca da gente. Sempre levávamos algum níquel para comprar os “engodos” de Sinha Maria. E como eram gostosos! Hoje não se encontram mais doces tão bem feitos e saborosos. Nós estamos no século das coisas mal feitas e mal acabadas. Mas, não é que muitos anos depois, vim morar na casa que ficou na minha retina. Quem advinhava que haveríamos de ser os proprietários deste terreno onde ficava encravada a “casa grande? São essas as surpresas desta vida. Em tudo, vejo os desígnios impenetráveis de Deus que a todos guia com a Sua Mão Bondosa. Quis a Providência Divina que eu viesse ser a dona da “casa grande”  para gáudio meu e felicidade de todos os meus familiares. Hoje, em frente da nossa casa, existe um frondoso cajueiro. Não é mais a “casa grande”, mas a “casa do cajueiro”.

Os trabalhos que fazíamos sob a supervisão de Julita, estavam destinados a exposição de trabalhos manuais que a Escola Vigário Bartolomeu promovia todos os anos. Ainda recordo-me do meu trabalho, um almofadão cujo bordado era uma lira. A Escola V. Bartolomeu funcionava na Loja Maçônica 21 de Março, na Rua João Pessoa. O curso, chamado secundário, tinha bons professores: Dr. Francisco Ivo Filho, professor de geografia. A professora Julia Barbosa ministrava aulas de História do Brasil, português e matemática. O Dr. Adauto Câmara ensinava-nos francês. Francês era a língua que dominava naquele tempo. Hoje é o inglês a língua prática. Fiz o primeiro e segundo ano com muito proveito. Fui aprovada com distinção em todos os dois anos. Eu tinha verdadeira veneração por D. Júlia Barbosa, a minha professora predileta. Aprendi com ela no Grupo Augusto Severo, na escola particular que ela mantinha na Rua Duque de Caxias, na escola particular do Dr. Ivo Filho e finalmente na Vig. Bartolomeu. Aliás, foi a última escola que freqüentei aqui em Natal. A última mesmo foi no Rio de Janeiro, em 1927. A escola chamava-se Barão do Rio Branco e ficava na Rua Frei Caneca. A professora, D. Rita Dias, simpática e atraente, era grandemente estimada pelos alunos. Eu também gostava muito dela. As composições que fazia na escola ficaram em seu poder. Ainda hoje lastimo ter perdido o seu endereço para ficarmos correspondendo. No dia em que fui despedir-me de regresso à Natal, as colegas da minha classe choraram. Coitadas! Eu auxiliava-as nas tarefas escolares, mas, talvez gostassem realmente de mim. Eu, como fui ingrata! Voltando à Guanabara por duas vezes, não procurei localizar a professora e as antigas colegas. Porém, querendo Deus, na próxima vez, farei tudo para encontrar a minha antiga professora Rita Dias.

Depois de tantas divagações, volto aos habitantes da minha rua.

Anexa à casa de Sr. Silva, estava de Sr. João Ferreira e D. Glória. Esse casal possuía uma penca de filhos. Via-se berços de todos os lados. Só se via meninos chorando. Coitada! Acredito que D. Glória deve ter tido uma luta tremenda, aliás, não fiquei nada atrás dela. Ao contrário, nesse ponto superei-a, pois, tendo criado dezessete de 24 filhos que tive, sofri todas as agruras de mãe de família numerosa. D. Glória, filha de Sr. Alfredo Ferreira, possuía um temperamento melancólico. Aliás, dessa senhora não guardo muito lembrança, não. Talvez porque ela vivesse muito absorvida pelas ocupações. Passando a casa de Sr. João Ferreira, chegava-se à casa de Sr. Luiz Cordeiro (Sr. Lulu), que era casado com D. Marica, tendo diversos filhos. Ainda recordo-me da morte de um dos seus filhos, Amaro, que tinha mercearia na Rua Frei Miguelinho. Além de um grande senso de humor, tinha todos os requisitos para ser bom comerciante. Comércio à parte, para ser bom comerciante é preciso ser artista. Naquele tempo, o povo cantava muito uma espécie de dueto cuja letra era a seguinte:

“Maroquinha sai da chuva,

Não deixa a chuva molhar

Maroquinha sai da chuva

Se não vais te constipar.

Não tenho medo de chuva

Nem do ronco do trovão

Eu quero mesmo que chova

 Para lavar meu coração”.

Pois não é que o Amaro Cordeiro, parodiando o dueto, procurou fazer mungunça com uma mulherzinha, empregada numa casa daquela rua, que fazia compras na bodega. A letra da paródia era esta:

“Maroquinha sai da chuva,

Mora na Frei Miguelinho,

Parece uma porca baé,

Com seu cabelo de espinho.

È feia como o diabo,

È feia que mete medo.

Parece que está chupando

Qualquer frutinho azedo.

A Maroquinha da Frei Miguelinho não gostou nada dos versos de Amaro. Ficava medonha quando a garotada, avistando-a,  ia logo cantando: “Maroquinha sai da chuva!...

Morreu muito moço o Amaro, mas já estava casado. Não sei se deixou filhos. Quando D. Marica faleceu, Sr, Lulu tratou logo de casar com uma moça quase filha de criação do casal. Mariquinha , cria de casa há anos, não fez questão de contrair núpcias com o velho Luiz Cordeiro. Desse consórcio surgiu um “luluzinho”. Anexo a Sr. Lulu, existia um prédio velho onde estava montada uma oficina de marceneiro. Os marceneiros viam-se apoquentados com os pedidos das meninas das redondezas que queriam a todo custo mobílias para as suas casas de bonecas. Eu mesma, importunei tanto um deles que consegui uma sala de visitas para as minhas bonecas. Vizinho ao prédio antigo situava-se a residência da viúva Maria do Rosário Pinheiro. D. Rosarinha, nome pelo qual era conhecida, tinha diversos filhos: Júlio, Julita, Judite, Olda e outros que não recordo os nomes.

Júlio casou com Nair, minha colega. A Judite tinha vocação para atriz teatral. Declamava belas poesias quando as meninas reuniam-se para exibir as suas qualidades artísticas. Nessas reuniões saía de tudo. Jogava-se, brincava-se, cantava-se, dançava-se, corria-se, etc. Parece que estou vendo-a recitar “O naufrágio do Vapor Baia”. “Corria a noite em meio, em plácida derrota”. Ou então os versos do cão “Fiel” ou ainda os versos de Guerra Junqueiro.

Às vezes, Judite pregava das dela. Quando estava sozinha, principiava a gritar: “Sangue! Sangue! sangue!” As meninas precipitavam-se para ver o que era. Então a Judite, com o ar mais ingênuo deste mundo, balbuciava baixinho: “sangue de mosquito”. Era o fim. Muitas vezes, ela repetia essa “proeza”. E as meninas sempre corriam para ver o que seria. Anos depois Judite tornou-se poetisa e atriz teatral, casando-se com Fernando Cardoso, tendo uma filha, Valéria. Nessa época, não era mais Judite e sim, Didi Câmara, que se tornou nossa correligionária na extinta Ação Integralista Brasileira”.

D. Rosarinha, católica praticante, assistia missa diariamente na igreja do Bom Jesus das Dores. A última casa da Rua do Triunfo era habitada pela família Ferreira. Ou antes, a primeira, vindo a pessoa pela Rua Frei Miguelinho. O casal Alfredo Ferreira e D. Elvira tinha uma porção de filhos. Recordo-me de alguns deles: Alzira, Isaura, Julieta, Glória, Eunice, Anilda,Bernadete, Jacira, Agenor, Clidenor, Alfredo Ferreira Filho. Bernadete era da minha idade, fazia parte do meu grupo de amigas. Sr. Alfredo exercia a profissão de funileiro. Homem honrado e trabalhador, benquisto e respeitado por todos. Era o tipo de homem que exercia autoridade patriarcal. Sempre guardei dele ótima impressão. A casa era bem vasta, com muitos aposentos. Foi na casa dos Ferreira que me vacinei contra a varíola. Enquanto as outras meninas da minha rua corriam e se escondiam para não se vacinarem, comigo deu-se o contrário. Corri para vacinar-me pressurosamente. Sabia que ia para escola quem fosse vacinada e, como eu queria aprender logo, apressei-me em receber a vacina no meu braço de criança. Sorridente, consegui ser vacinada. Estava feliz, podia freqüentar a escola.

Os vizinhos do lado esquerdo, a começar por madrinha Umbelina, na sua maioria, eram pessoas idosas. Havia poucas crianças por aqueles lados. Entretanto, como já tive de dizer, madrinha Umbelina criava uma sobrinha, Luiza, mas nós chamávamos de Lilita. D. Chiquinha, sua irmã que ainda vive, criava o irmão de Lilita, Germano (Maninho). Lilita, menina levada, era a minha principal amiga. Brincávamos no quintal horas seguidas. Nossos quintais comunicavam-se através das cercas de marmeleiro. Nesse tempo ainda não se usava muro.Às vezes, à noite, a gente ficava contemplando a lua cheia, vendo S. Jorge montando no seu cavalo. Eu, muito ingênua, acreditava piamente que S. Jorge estava na lua, mas a Lilita, nada tola, ria da minha ingenuidade. Lilita era medonha. Certa vez, havia uma festa no Teatro Carlos Gomes. Tratava-se de uma festa cívica. O governador nesse tempo era o Dr. Antonio de Souza, que estava presente. Então a Lilita chamou-me para irmos a dita festa, às escondidas dos nossos familiares. Ao chegarmos ao Teatro, estava este inteiramente lotado. Pois não é que resolvemos ir para o camarote do governador? Ficamos aboletadas lá, assistindo a festa sob os olhares atônitos do governador dr. Antonio de Souza, com aqueles óculos, não cessava de nos mirar, mas não mandou enxotar-nos. Assim, assistimos de camarote, a festa cívica daquele ano. As apresentações prolongaram-se, ficou tarde, eu chamava a Lilita, mas a endiabrada da menina não quis atender-me. Depois de muita insistência, foi que a peitada resolveu ceder. Voltamos. Quando chegamos na Praça José da Penha, defronte à Igreja do Bom Jesus das Dores, vinha uma verdadeira romaria ao nosso encontro. D. Chiquinha, a finada Francisquinha, minha tia, liderava a comitiva. Logo na rua levamos um carão em regra. O pior estava por vir. Quando chegamos em casa, levei uma surra notável da minha avó e mãe de criação. Lilita ficou toda fagueira, nem sequer apanhou. Provavelmente, botou toda a culpa para cima de mim. A tola de Nati foi quem apanhou, e ela, a principal protagonista, não foi castigada. São assim os fatos desta vida. Às vezes, quem tem menos culpa é quem mais sofre. As medonhas sabem livrar-se dos apuros. A lembrança mais remota do meu tempo de criança é a visão de uma festa no melhoramento do Porto, onde a Lilita aparecia de touca nos braços da tia. Anos depois, observando uma placa na R. Frei Miguelinho, esquina com a Silva Jardim, verifiquei a data de 1917, mês de junho. Então eu tinha menos de três anos. Como nasci em setembro de 1914, estava, portanto, com dois anos e nove meses. Com madrinha Umbelina residia uma afilhada, Maria, uma moça trabalhadora que auxiliava muito nas lides caseiras. Na casa de madrinha Umbelina havia o costume dos “ajantados”. A principal refeição era às 2 horas da tarde. À noite, havia uma ceia ligeira. D. Chiquinha vivia sempre ao pé do fogão e do fogão fazendo vendagens para fora. Ficava toda vermelha e suava em bicas na frente do fogão de lenha. Gostosos e variados os engodos feitos por D. Chiquinha. Mungunzá, bolos de milho, cocada pretinha, que nós comprávamos por vinte réis (um vintém). Pastéis, pé de moleque, aluá e uma infinidade de guloseimas que a gente saboreava a valer. Talvez eu tenha adquirido o hábito dessas vendagens com elas mesmas, pois, pela festa de Natal, Ano Bom e Santos Reis, costumava fazer farinha de milho e de castanha de caju para vender na porta de casa. Fazia lindas cestinhas de papel, enchia-as de farinha de castanha e na festa dos Reis Magos, vendia aos devotos que lá acorriam a venerar os santos tradicionais da cidade de Natal. Sentia-se o instinto da comerciante que eu seria no futuro.

O BARRO VERMELHO

Logo após o beco de madrinha Umbelina, vinha casa d. Maria Cutia, uma viúva. Na companhia da viúva morava um filho casado, o Sr. Alípio Cutia. D.Maria Cutia criava também uma neta que pertencia ao número das minhas amigas: Clotilde (Coló). Eu e Coló brincávamos muito. Éramos “artistas de circo”. No quintal da casa dela havia umas árvores muito grandes, onde resolvemos instalar um “balanço”. Fazíamos as maiores acrobacias no balanço. Também brincava-se muito de boneca. Armavam-se verdadeiras casas de bonecas. As mobílias tinham sido o fruto dos nossos peditórios aos marceneiros da nossa rua. Coló, menina pálida era o tipo da menina triste. Muito diferente da Lilita. Coló tinha um irmão, o Amaro. Fazia parte do clã dos Cutia, uma solteirona, D. Biluca, filha da dona da casa. D. Biluca ardia em desejos de casar com o Sr. José Arrepiado, mas ele não dava bolas para d. Biluca. Ficavam nisso. Sr. Alípio Cutia viajava sempre para Muriú, Pipa e outras praias. Às vezes, D. Maria fazia uns passeios lá para bandas do Barro Vermelho. Muitas vezes nós a acompanhávamos, eu e Coló. Para nós era um dia de festa. Saíamos de casa bem cedinho, a pé, e dirigíamos a Barro Vermelho, para o sítio de um senhor que, anos depois, soubemos de quem se tratava. No sítio passava uma correnteza, e a gente deliciava-se tomando banho e apreciando os sagüins que subiam coqueiro acima, gritando e fazendo caretas.

Em 1936, casada e com filhos, tive de morar no Barro Vermelho, na casa de uma filha do dito senhor proprietário do sítio onde íamos passear. De lá, guardo triste recordação, pois foi lá que perdi o quarto filho, uma menina, a Zélia.

Sr. Alípio Cutia era casado com uma senhora de nome Amarina que tornou-se minha madrinha de fogueira. Adiante, morava outra viúva, D. Jesus, que tinha uma filha, D. Chiquinha. Conheci D. Chiquinha, noiva do Sr. Zeferino, noivado este que durou cerca de uns vinte anos! Quando se casaram já estavam idosos.Por isto mesmo só tiveram uma filha, a Zuleika. O pai do Sr. Zeferino era vizinho de D. Jesus e tinha mais duas filhas, D. Luzia e D. Bernardina. O velho era muito surdo. Precisava as filhas gritar para o velho escutar. Certa ocasião, morreu o pai do Sr. Pedro Piloto. Vendo passar o enterro, o velho perguntou: “Quem foi que morreu”? E D. Luzia, gritando nos ouvidos do velho: “Foi o pai de Pedro Piloto, meu pai! Foi o pai de Pedro Piloto, meu pai”! Repetia muitas vezes as mesmas palavras para o velho conseguir escutar. D. Luzia tinha uma voz muito grossa. Perto deles morava uma “mulher”, Joaninha Araújo, mãe de Olguita e Lourdes. Joaninha apesar de ser “mulher da vida” era muito benquista. Possuía um temperamento alegre, expansiva demais. Sofria de uma doença terrível, asma. Vi-a muitas vezes aspirando fumaça de um pó medicinal nos acessos asmáticos. Coitada! Faleceu anos depois numa crise mais forte da dita doença. Deus a tenha em bom lugar. Que Deus perdoe os pecados da sua vida, como perdoou a Madalena, a Samaritana, a mulher adúltera.

Daí em diante, os residentes da Rua do Triunfo eram só mulheres perdidas. Maria Cabeluda, Joana Pega no Meio, Barba-Rala, etc. Do outro lado da rua tinha umas poucas residências familiares. Existia a casa de D. Joana Chôro Baixo (não sei se ela chorava baixo). À Noite, costumava sentar na calçada para tomar “ares”. Antes de sentar, sempre dizia: “Ninguém pense que eu venho aqui para pastorar a vida de ninguém. Eu venho receber o meu Joaquim de volta da pescaria”. E batia com as mãos, uma na outra. As suas mãos eram anquilosadas, parecia ser artritismo ou lepra, não consegui saber.

Certa ocasião, a velha Chôro Baixo, presenteou mamãe com um prato de arroz doce. Mamãe enche-se de escrúpulos por causa das mãos da velha. Não quis comer, jogou fora, no lixo. À noite, como de costume, a Chôro Baixo veio tomar ares. Acontece que ela resolveu vir até a calçada da nossa casa para saber se tínhamos gostado do arroz doce. Estávamos sentadas, eu, mamãe, minha tia Chiquinha e a finada Francisquinha que nessa época, criança ainda, era uma menina levada. A Chôro Baixo perguntou: “Como é, dona Zefinha, gostou do doce?”. Mamãe respondeu “gostei Dona Joaninha, gostei muito”. Salta-se, então, a Francisquinha: Gostou nada, dona Joaninha, ela botou foi no lixo! A velha não escutando bem, indagou: O que foi minha filha, como foi? Nisto a tia Chiquinha pespega um beliscão no braço da menina. Francisquinha não tem bom, e exclama: “eu não digo porque Chiquinha está me beliscando”! Foi um horror! Que vergonha! Que confusão! Ninguém sabia como sair daquela enrascada. D. Joaninha Chôro Baixo passou uns dias fria com mamãe, mas logo retornou a amizade ao curso normal.

Logo após a casa de D. Joaninha, se chegava a casa da viúva Mesquita, mãe de Amaro e Carmelita Mesquita. Carmelita era noiva do Sr. Pedro Barbalho com quem casou-se tempo depois. No fim, a inesquecível “bodega” de Sr. Lourenço e d. Juvencia. A casa de negócio  também era a residência particular do casal. Fiz muitas compras na bodega de Sr. Lourenço. Nesse tempo ainda corria o vintém, pataca, meia pataca. Ainda lembro-me dos dez réis e vinte réis pregados no balcão da venda. A bodega, muito resumida, vendia gêneros de primeira necessidade, sabão, querosene, fósforo, cigarro, etc. Os cigarros daquele tempo tinham marcas Vitor, Norma, Vigilante, etc. As caixas de fósforo tinham tampas sui-generis, de bandeiras de todas as nacionalidades. Muito pequena ainda, eu conhecia de cor as bandeiras das diversas nações: Japão, Bulgária, Alemanha, Itália, Portugal, etc. Cigarros e caixas de fósforos, as coisas que mais me mandavam comprar na bodega de Sr. Lourenço. Já com Francisquinha, minha tia e irmã de criação, se dava o contrário. Certa ocasião, estando doente, mamãe mandou-a comprar cigarros para meu pai de criação, o finado Pedro Morais. Francisquinha foi de mau humor e aborrecidíssima, usou da seguinte expressão: “Eu só queria ver o diabo no caminho”. Foi. Ao passar defronte ao beco de madrinha Umbelina, por sinal bastante escuro, encontrou-se com um negro horrível. Assombrada, Francisquinha correu para a bodega, chegando lá com o coração aos pulos. Quando chegou em casa ela contou o encontro que tivera com o dito negro, um homem estranho que ela não conhecia. Serviu de exemplo para ela nunca mais querer encontrar-se com o demônio.

Na casa do Sr. Lourenço, vez por outra, havia uns bailes animados. Josefa, filha de criação do casal, era muito divertida. Julio, um menino muito feiozinho, também morava com o casal. Parecia ser neto ou sobrinho. Durante os festejos carnavalescos, os clubes daquele tempo sempre escolhiam a casa do Sr. Lourenço para dançarem animadamente. Lembro-me do “Dois de Ouro”, com seus trajes característicos, muito interessantes. Logo pela manhã, bem cedinho, a gente acordava sob os acordes sonoros da música da “Maxixeira”. Os homens, em trajes femininos, sobraçando cestas com verduras, dirigiam-se a casa de Sr. Lourenço. As crianças saltavam das camas e corriam para lá. Sentia-se o cheiro da aguardente no meio daquela gente. Gostosas gargalhadas, animadas conversas, um vozerio medonho pairava no ambiente. Daí a pouco, os componentes da “Maxixeira” buscavam outro local para dançarem, cantarem e beberem.

A residência de Sr. Lourenço tinha uma novidade: um gramofone. Nesse tempo, não existia rádio, nem radiola, nem televisão, está claro. Por isso, o gramofone constituía grande atração para a garotada. Quando colocavam d disco a gente escutava o indefectível “Casa Edson, Rio de Janeiro”. Tinha uma música engraçada: “Rato, rato, rato/ porque motivo tu roeste meu baú/rato, rato, rato/ por tua causa houve grande sururu”.

A criançada ficava embasbacada, durante horas, escutando o gramofone a tocar. No dito gramofone havia uma figura de um palhaço escarlate com um grande chapéu em forma de cone.

Quando havia “João Redondo”, a casa de Sr. Lourenço e D. Juvencia, ficava cheia de gente, principalmente crianças. A apresentação dessa brincadeira tinha lugar no salão de visitas. De fato, tratava-se de uma grande sala taqueada, coisa rara naquela época. A meninada deliciava-se com os bonecos falando e cantando. Os bonecos dialogavam: “De onde você é? Do Piauí. E você onde nasceu? No Maranhão. Logo, você maranhense. Não, eu sou francês.

- Como pode ser isto? Você nasceu no Maranhão e é francês?

- Ora, rapaz, o povo chamava a minha mãe de “a velha França”. Portanto, eu filho da velha França, só posso ser francês.

Os meninos riram às bandeiras despregadas. Eram esses os divertimentos daquele tempo. Cinema, ainda havia poucos. Somente o Politeama, na Ribeira e o Royal Cinema na rua Ulisses Caldas, Cidade Alta, onde hoje fica localizada a Loja Singer. O tempo do cinema mudo, tempo inesquecível de recordações agradáveis. A chegada de d. Julia Barbosa que tocava ao piano acompanhando os “films”. A gente chamava-a de “Dú”. Quando aparecia na porta do cinema, um frêmito de alegria nos espectadores que a aguardavam ansiosos. Ora, se o filme só passava com a presença indispensável de Dú! E os films de Carlito! Ainda hoje são lembrados com saudades. Também havia o Chico Bóia e a Baby London. E o Harold Loid? Também havia os “vampiros” como Teda Bara, Gloria Swanson e a célebre Greta Garbo. Havia o menino-ator, o Jackie Koogan. Os galãs do cinema daquele tempo eram Rodolfo Valentino e Ramon Navarro. Recordo-me de um filme de Ramon Novarro chamado “Apsará”. Dolores Del Rio em Ramona e Resurreição. E muitos outros astros. Astros apagados na constelação do cinema atual, falado, colorido, das diversas modalidades que a época moderna inventou e atualizou. Astros apagados, sim, mas, vivos na lembrança de todos aqueles que tiveram o prazer de assistir os filmes daquele tempo.